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terça-feira, 16 de abril de 2019

Notre-Dame


«Tous les yeux s’étaient levés vers le haut de l’église. Ce qu’ils voyaient était extraordinaire; sur le sommet de la galerie la plus élevée, plus haut que la rosace centrale, il y avait une grande flamme qui montait, qui montait […] Il se fit un silence de terreur.»

Palavras com duzentos anos esculpidas pelo punho de Victor Hugo e que estranhamente dizem a actualidade. Também as imagens de ontem vistas por meus olhos incrédulos me pareceram de um outro tempo, um tempo recuado, como que saídas de uma pintura antiga que talvez se chamasse “o incêndio da civilização”. No entanto, eram bem actuais, reais…

Paris n’est plus qu’un cri: Notre-Dame brûle! Notre-Dame brûle!
João Maria de Freitas-Branco
16 de Abril de 2019

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Para uma reflexão


No seguimento do texto publicado ontem no Facebook e aqui no blog RAZÃO dou agora conhecimento de um episódio ocorrido na comunicação social francesa e que me parece merecedor de alguma reflexão.

Durante um telejornal ontem difundido, um jornalista do canal televisivo France2 entrevistou uma jovem astrofísica expressamente convidada para comentar o extraordinário acontecimento científico que marcou o dia – a captação pelo Event Horizon Telescope (EHT) da primeira imagem real de um buraco negro – e no final da entrevista perguntou à cientista se o buraco negro agora avistado não constituía um risco para os seres humanos, bem como para o nosso planeta Terra. A astrofísica conseguiu conter-se e respondeu mantendo uma expressão de seriedade. Mas ficámos a saber que um jornalista internacional de um grande canal de televisão pode não fazer a menor ideia do que é a distância que nos separa da galáxia Messier 87 (geralmente referida abreviadamente como M87, mas também conhecida por Virgo A ou NGC 4486). Situado no núcleo desta galáxia supergigante, o buraco negro está a uma distância de 53 milhões de anos-luz (55 milhões segundo o comunicado ontem publicado no site do EHT). Trata-se de facto de um buraco negro colossal que ainda há bem pouco tempo se supunha não poder existir no Cosmos. A realidade revela-se continuamente mais rica do que a nossa melhor imaginação… Mas mesmo tendo essa incrível dimensão (um diâmetro de 38 biliões de quilómetros e uma massa correspondente à de 6.5 biliões de estrelas como o Sol), não deixa de ser uma coisa muito pequenina se comparada com o espaço intergaláctico entre a nossa Via Láctea e a M87. Além disso, a imagem captada representa o buraco negro central da M87 tal como ele era há 53 milhões de anos ou mais. É uma realidade do passado e não do presente. Sendo que se pudessem existir efeitos nocivos graves projectados a tão grande distância eles, obviamente, chegariam também, na melhor das hipóteses, com esse mesmo atraso de 53 milhões de anos. A questão é ser também absurdo supor que o facto da captação da imagem ia desencadear subitamente, como que por acto de pura magia, efeitos ameaçadores. A luz proveniente do horizonte de eventos do buraco negro, naquela zona central da distante galáxia elíptica M87, há muito que está a banhar o nosso Planeta, mas só agora foi captada por extraordinário mérito da Ciência e da Técnica.

Se um jornalista internacional de um destacado canal francês de televisão exibe tão grande ignorância sobre o Universo em que vivemos, como é que a notícia científica terá sido recepcionada pela generalidade dos seres humanos? Não duvido que haja neste momento na Internet muitas vozes a dizer que a imagem divulgada é a do gigantesco olho negro de uma entidade sobrenatural mefistofélica que nos está a vigiar com o objectivo de destruir a Terra e os seus humanos habitantes. Ou então que é o olho do Deus redentor. E até talvez haja quem faça uma leitura maçónica da imagem cósmica, atribuindo-lhe uma simbologia secreta inscrita nos confins do Universo e pairando desde o início do tempo.

Algo parece estar a falhar na Escola, principalmente nos países que estão no topo da civilização, como é o caso da França. Como sempre, convém reflectirmos com profundidade, fazendo bom uso da Razão.

João Maria de Freitas-Branco
Caxias, 11 de Abril de 2019

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Buraco negro


 

Mais um acontecimento histórico. Novo grande triunfo da Ciência. Um acontecimento merecedor da nossa melhor atenção: a primeira observação directa de um buraco negro.

Até o dia de hoje, sempre que alguém (mesmo que fosse um astrofísico) falava de buraco negro estava a referir-se a algo que nunca tinha visto. Só hoje, dia 10 de Abril de 2019, é que os seres humanos tiveram acesso a uma primeira imagem real de um buraco negro – imagem paradoxal, considerando que por definição um buraco negro não se pode observar (e até nem é um buraco…).

Acima de tudo, quero aqui saudar este grande acontecimento, expressando o meu completo entusiasmo.

Acontece, porém, que ao longo das últimas horas tenho verificado estarem a ser veiculadas, pela nossa comunicação social, informações erradas sobre este primeiro buraco negro directamente observado pelos humanos. O que me deixou mais alarmado e perplexo foi a intervenção de um especialista, Rui Agostinho, num dos noticiários da RTP3. Receando que essa informação errada volte a ser inserida no espaço informativo, nomeadamente no jornal nacional das 20h, tomo a iniciativa de recomendar que utilizem as melhores fontes, ou seja, as de natureza puramente científica e em que intervêm os cientistas responsáveis pela captação da histórica imagem. Sugiro as seguintes: 1) a edição especial do Astrophysical Journal Letters; 2) uma das seis conferências de imprensa realizadas simultaneamente em vários pontos do globo (registo integral online, CBC News).

Adianto já uma correcção: o buraco negro observado situa-se no “coração”, no núcleo da galáxia M87 e não no centro da nossa galáxia. A comparação feita (na RTP3) com a massa ou com a força gravitacional do Sol também está completamente errada.

A Teoria da Relatividade Geral volta a ser comprovada experimentalmente. O grande Albert volta a estar de parabéns.

Renovada homenagem pessoal a essa enorme figura da história do conhecimento humano.
João Maria de Freitas-Branco
10 de Abril de 2019
Publicado inicialmente no Facebook, às 18h:30

 

 

quinta-feira, 14 de março de 2019

Um exemplo de dedicação à Cultura (2ª edição)

Com o objectivo de melhorar o grafismo, volto a colocar aqui o meu texto sobre o  actor e encenador Armando Caldas, esse bom Amigo que ontem, dia 13 de Março de 2019, nos deixou.




Armando Caldas
Um exemplo de dedicação à Cultura

A mais recuada memória que guardo do Armando data de um tempo salazarento em que na nossa Pátria – achacada de neotomismo ajesuitado, de fascismo provinciano, de tacanhez preconceituosa, de embriaguezes românticas – se promoviam analfabetismos de vária feição, incluindo o artístico-cultural, com o consciente propósito ideológico de injectar dependências no cidadão comum que se desejava submisso, resignado, passivo em face do poderio e seus inconfessáveis interesses. Precisando a datação dessa primeira memoração, situo-a no final da década se sessenta ou no início dos anos setenta do já passado século “dos extremos”, como lhe chamou Hobsbawm, quando, no despontar da chamada Primavera marcelista, me chegou a notícia da criação, em Algés, do “1ºActo - Clube de Teatro”, essa influente iniciativa cultural, mas também ostensiva e valentemente política, que reuniu alguma da nossa melhor gente, parte do nosso escol, contando com a participação de alguns dos mais lúcidos espíritos que povoavam o Reino cadaveroso, incluindo um amigo comum que por esse então nem eu nem o Armando (nem mesmo ele próprio) sonhávamos ir tornar-se, décadas mais tarde, o primeiro Nobel da possante literatura lusíada, o nosso saudoso José Saramago.

A fundação do 1ºActo teve, nessa época, e num plano mais pessoal, directa influência na minha vida, por ter sido factor no moldar da minha acção cívica, incentivando-me a ter o atrevido gesto de, em 1972/73, e imbuído do mesmo espírito de resistência, criar um pequeno grupo de teatro amador, também ele sedeado no conselho de Oeiras: o Grupo de Teatro Intervenção, integrado na estrutura institucional do Grupo Académico – associação cultural de jovens estudantes fundada em 1970 e com forte implantação no meio estudantil dos concelhos de Oeiras, Cascais e Cintra (nessa altura servidos por uma única macro escola, o Liceu Nacional de Oeiras, hoje Escola Secundária Sebastião e Silva). É isto revelador de que só pelo facto de existir, o 1º Acto já era significativo factor de alteração da ambiência cultural, abrindo espaço para iniciativas congéneres. Concorreu assim, de forma indirecta, para que pudessem germinar outros projectos interventivos. Legado geralmente não considerado mas efectivo e, por isso mesmo, também merecedor de reconhecimento.

Trago à colação estes aconteceres por estarem eles intimamente ligados à origem da minha relação pessoal com o Armando Caldas. Ainda agora, sempre que falo deste Amigo, ou nele penso, algo nas profundezas subconscientes da minha psique amarra a pessoa à imagem mental daquela tão louvável obra cultural. Reflectindo sobre a perenidade dessa instintiva associação mental, concluo ser ela bem natural e até lógica. Como diria o poeta, «há sempre alguém que diz Não», e o nosso Armando Caldas tem sido, ao longo da vida, alguém que, inequívoca e incessantemente tem sabido dizer Não à anticultura, à indigência artística, à mentalidade reaccionária, bem como às variegadas formas de injustiça social que invariavelmente lhe estão associadas. Foi nas trincheiras desse combate que nos encontrámos, animados por ideais comuns, tendo-se construído aí uma amizade que perdura.

A circunstância concreta em que conheci pessoalmente o Armando, iniciando um trabalho de mútua colaboração, ocorreu em momento histórico maior: o do derrube da Ditadura e do despoletar do PREC. Deliciosos tempos de criatividade colectiva de uma Nação ávida de mudança. Ambos sabíamos que o combate que tínhamos abraçado, o da transformação da sociedade humana, associado à semeadura de Cultura e Arte, era labor infindável – tal como o semear agrícola, essa infinita acção cíclica do cultivo da terra. Com o “25 de Abril” o corpo societal metamorfoseara-se profundamente, as condições passaram a ser outras, mas como Ingmar Bergman nos disse em estética linguagem cinematográfica o ovo da serpente é perene e o combate tem que ser continuado. Em certa medida, a sociedade democratizada pelos ventos de Abril até convocava renovado afã, impunha a abertura de novas trincheiras, gerando, nessa medida, maior responsabilidade cívica. É nessa singular conjuntura histórica que, na minha qualidade de jovem presidente de uma associação cultural, o já citado Grupo Académico (em que tive a minha primeira experiência dirigente), tomei a iniciativa de organizar, no salão/teatro do Instituto Pr.António de Oliveira (em Caxias), uma sessão de Canto Livre que reuniu numerosíssimo público e que contou com a participação de vários artistas do chamado “canto de intervenção” antes amordaçado pela censura. Esse tipo de realização, tão típico dessa época revolucionária, exigia a presença de competente apresentador, elemento condicionante de toda a dinâmica do espectáculo e, consequentemente, do seu desejável sucesso. Foi para mim fácil decidir endereçar ao Armando Caldas o convite para assumir essa importante função. Quem melhor do que ele para o fazer? E foi assim que verdadeiramente nos conhecemos, em momento de activo combate pela liberdade, pelo livre cultivo do gosto artístico e, em geral, em prole da transformação progressista da realidade social.

Há, na acção cultural de Armando Caldas, algo a que atribuo especial importância e que, por essa razão, não posso nem quero deixar de aqui enfatizar. Refiro-me à coerência de uma atitude pautada pelo espírito de independência e pela fidelidade a uma Weltanschauung; atitude sustentadora de uma acção cívico-cultural em que nunca houve cedências à avassaladora moda da cultura light, ou àquilo a que também tenho chamado a cultura zapping, com o seu horror ao aprofundamento, ao racional, ao rigor, à seriedade intelectual. Tendência corrosiva da autêntica Cultura. Elemento, a meu ver, impeditivo da edificação de uma verdadeira tradição de Alta Cultura, suporte indispensável do progresso civilizacional. Neste tempo presente em que se tem visto triunfar a mentalidade do light, em que no viver societal o apelo ao superficial, ao ligeiro, ao soft, ao comercial, ao popularucho se tornou constante e até mesmo exuberante, o Intervalo Grupo de Teatro, sob a lúcida direcção do Armando Caldas, tem sido vivo exemplo de não-abdicação intelectual, de recusa de cedência ideológica a uma medíocre corrente dominante, mostrando, do mesmo passo, como o sucesso popular é natural efeito da boa vulgarização das grandes criações artísticas. A dignidade de produções, a que tive o prazer de assistir, como as de A Gaivota de Tchekhov, de D. Quixote, de O Tinteiro de Carlos Muñiz, bem como a regular presença em cartaz de peças com a assinatura dos maiores dramaturgos (Shakespeare, Molière, Beaumarchais, Tchekhov) são a demonstração clara da possibilidade de coabitação do sucesso popular com a erudição e de como se deve criar o bom gosto artístico. Um exemplo que adquire ainda maior relevância em momento histórico particularmente grave, como é este nosso agora, em que valores civilizacionais basilares se vêem ameaçados, incluindo o da elevação cultural, e em que ressurge uma agressiva política governativa anticultura. Bastaria o perfil dessa atitude/acção que agora procurei pôr em evidência para atestar da justeza da homenagem consubstanciada neste volume. Parabéns Armando, e obrigado.

João Maria de Freitas-Branco

Caxias, 4 de Novembro de 2012

Um exemplo de dedicação à Cultura


Perdi mais um Amigo: o actor e encenador Armando Caldas. Faleceu hoje, dia 13 de Março. Recebi a triste notícia já ao fim do dia. Em sua memória, tomo a iniciativa de colocar aqui um texto que sobre ele escrevi em 2012 e que foi publicado no livro "Teatro, como quem respira", editado em 2013.

 

TEXTO

 
Armando Caldas

Um exemplo de dedicação à Cultura

 

A mais recuada memória que guardo do Armando data de um tempo salazarento em que na nossa Pátria – achacada de neotomismo ajesuitado, de fascismo provinciano, de tacanhez preconceituosa, de embriaguezes românticas – se promoviam analfabetismos de vária feição, incluindo o artístico-cultural, com o consciente propósito ideológico de injectar dependências no cidadão comum que se desejava submisso, resignado, passivo em face do poderio e seus inconfessáveis interesses. Precisando a datação dessa primeira memoração, situo-a no final da década se sessenta ou no início dos anos setenta do já passado século “dos extremos”, como lhe chamou Hobsbawm, quando, no despontar da chamada Primavera marcelista, me chegou a notícia da criação, em Algés, do “1ºActo - Clube de Teatro”, essa influente iniciativa cultural, mas também ostensiva e valentemente política, que reuniu alguma da nossa melhor gente, parte do nosso escol, contando com a participação de alguns dos mais lúcidos espíritos que povoavam o Reino cadaveroso, incluindo um amigo comum que por esse então nem eu nem o Armando (nem mesmo ele próprio) sonhávamos ir tornar-se, décadas mais tarde, o primeiro Nobel da possante literatura lusíada, o nosso saudoso José Saramago.
A fundação do 1ºActo teve, nessa época, e num plano mais pessoal, directa influência na minha vida, por ter sido factor no moldar da minha acção cívica, incentivando-me a ter o atrevido gesto de, em 1972/73, e imbuído do mesmo espírito de resistência, criar um pequeno grupo de teatro amador, também ele sedeado no conselho de Oeiras: o Grupo de Teatro Intervenção, integrado na estrutura institucional do Grupo Académico – associação cultural de jovens estudantes fundada em 1970 e com forte implantação no meio estudantil dos concelhos de Oeiras, Cascais e Cintra (nessa altura servidos por uma única macro escola, o Liceu Nacional de Oeiras, hoje Escola Secundária Sebastião e Silva). É isto revelador de que só pelo facto de existir, o 1º Acto já era significativo factor de alteração da ambiência cultural, abrindo espaço para iniciativas congéneres. Concorreu assim, de forma indirecta, para que pudessem germinar outros projectos interventivos. Legado geralmente não considerado mas efectivo e, por isso mesmo, também merecedor de reconhecimento.
Trago à colação estes aconteceres por estarem eles intimamente ligados à origem da minha relação pessoal com o Armando Caldas. Ainda agora, sempre que falo deste Amigo, ou nele penso, algo nas profundezas subconscientes da minha psique amarra a pessoa à imagem mental daquela tão louvável obra cultural. Reflectindo sobre a perenidade dessa instintiva associação mental, concluo ser ela bem natural e até lógica. Como diria o poeta, «há sempre alguém que diz Não», e o nosso Armando Caldas tem sido, ao longo da vida, alguém que, inequívoca e incessantemente tem sabido dizer Não à anticultura, à indigência artística, à mentalidade reaccionária, bem como às variegadas formas de injustiça social que invariavelmente lhe estão associadas. Foi nas trincheiras desse combate que nos encontrámos, animados por ideais comuns, tendo-se construído aí uma amizade que perdura.
A circunstância concreta em que conheci pessoalmente o Armando, iniciando um trabalho de mútua colaboração, ocorreu em momento histórico maior: o do derrube da Ditadura e do despoletar do PREC. Deliciosos tempos de criatividade colectiva de uma Nação ávida de mudança. Ambos sabíamos que o combate que tínhamos abraçado, o da transformação da sociedade humana, associado à semeadura de Cultura e Arte, era labor infindável – tal como o semear agrícola, essa infinita acção cíclica do cultivo da terra. Com o “25 de Abril” o corpo societal metamorfoseara-se profundamente, as condições passaram a ser outras, mas como Ingmar Bergman nos disse em estética linguagem cinematográfica o ovo da serpente é perene e o combate tem que ser continuado. Em certa medida, a sociedade democratizada pelos ventos de Abril até convocava renovado afã, impunha a abertura de novas trincheiras, gerando, nessa medida, maior responsabilidade cívica. É nessa singular conjuntura histórica que, na minha qualidade de jovem presidente de uma associação cultural, o já citado Grupo Académico (em que tive a minha primeira experiência dirigente), tomei a iniciativa de organizar, no salão/teatro do Instituto Pr.António de Oliveira (em Caxias), uma sessão de Canto Livre que reuniu numerosíssimo público e que contou com a participação de vários artistas do chamado “canto de intervenção” antes amordaçado pela censura. Esse tipo de realização, tão típico dessa época revolucionária, exigia a presença de competente apresentador, elemento condicionante de toda a dinâmica do espectáculo e, consequentemente, do seu desejável sucesso. Foi para mim fácil decidir endereçar ao Armando Caldas o convite para assumir essa importante função. Quem melhor do que ele para o fazer? E foi assim que verdadeiramente nos conhecemos, em momento de activo combate pela liberdade, pelo livre cultivo do gosto artístico e, em geral, em prole da transformação progressista da realidade social.
Há, na acção cultural de Armando Caldas, algo a que atribuo especial importância e que, por essa razão, não posso nem quero deixar de aqui enfatizar. Refiro-me à coerência de uma atitude pautada pelo espírito de independência e pela fidelidade a uma Weltanschauung; atitude sustentadora de uma acção cívico-cultural em que nunca houve cedências à avassaladora moda da cultura light, ou àquilo a que também tenho chamado a cultura zapping, com o seu horror ao aprofundamento, ao racional, ao rigor, à seriedade intelectual. Tendência corrosiva da autêntica Cultura. Elemento, a meu ver, impeditivo da edificação de uma verdadeira tradição de Alta Cultura, suporte indispensável do progresso civilizacional. Neste tempo presente em que se tem visto triunfar a mentalidade do light, em que no viver societal o apelo ao superficial, ao ligeiro, ao soft, ao comercial, ao popularucho se tornou constante e até mesmo exuberante, o Intervalo Grupo de Teatro, sob a lúcida direcção do Armando Caldas, tem sido vivo exemplo de não-abdicação intelectual, de recusa de cedência ideológica a uma medíocre corrente dominante, mostrando, do mesmo passo, como o sucesso popular é natural efeito da boa vulgarização das grandes criações artísticas. A dignidade de produções, a que tive o prazer de assistir, como as de A Gaivota de Tchekhov, de D. Quixote, de O Tinteiro de Carlos Muñiz, bem como a regular presença em cartaz de peças com a assinatura dos maiores dramaturgos (Shakespeare, Molière, Beaumarchais, Tchekhov) são a demonstração clara da possibilidade de coabitação do sucesso popular com a erudição e de como se deve criar o bom gosto artístico. Um exemplo que adquire ainda maior relevância em momento histórico particularmente grave, como é este nosso agora, em que valores civilizacionais basilares se vêm ameaçados, incluindo o da elevação cultural, e em que ressurge uma agressiva política governativa anticultura. Bastaria o perfil dessa atitude/acção que agora procurei pôr em evidência para atestar da justeza da homenagem consubstanciada neste volume. Parabéns Armando, e obrigado.


João Maria de Freitas Branco

Caxias, 4 de Novembro de 2012

 

domingo, 27 de janeiro de 2019

O CASO DO DIVÓRCIO


Partilho aqui no blog um lúcido texto do Frederico Lourenço colocado hoje no Facebook. Trata-se de uma muito esclarecedora reflexão pessoal. Bem demonstrativa da insustentabilidade do discurso oficial da Igreja, ou seja, do dogmatismo católico institucionalizado. É esta, também, uma forma de agradecer ao amigo Frederico o seu esforço de dilucidação.

PALAVRAS «DITAS» POR JESUS: O CASO DO DIVÓRCIO (Evangelho de Marcos)

Muitas pessoas me escreveram a propósito do texto que publiquei sobre a questão de quem comunga na missa «por sua conta e risco», ou seja, sem estar, do ponto de vista da Igreja Católica, em condições legítimas para comungar. Como o caso de que falei envolvia um divorciado muito especial para mim (o meu pai) e a minha própria situação de homossexual casado com um homem, o teor de muitas mensagens andou à volta da ideia de que «Jesus nunca disse que a confissão era obrigatória» ou, até, «Jesus nunca disse que os divorciados não podiam comungar».

Esta vontade que muitas pessoas têm de sustentar a sua própria atitude em relação ao catolicismo (ou outra forma de cristianismo) com base naquilo que Jesus «disse» é algo com que me solidarizo, porque pessoalmente o que me chama e interessa no cristianismo não é o artifício teológico-dogmático da ortodoxia eclesiástica, mas sim algo que se resume muito simplesmente a uma só palavra: Jesus. Também sou alguém que, como afirmou um católico que me escreveu há dias, dá mais valor ao que «Jesus disse» do que àquilo que «a igreja diz».

Agora: como saber o que Jesus disse? Um problema complexo que confronta quem prefere seguir Jesus a seguir a igreja é, de facto, conseguir chegar àquilo que Jesus terá realmente dito. Trata-se de uma problemática fascinante no âmbito do estudo histórico-analítico do Novo Testamento – e digo «histórico-analítico» pela razão simples de que, do ponto de vista da Fé, todas as palavras colocadas pelos evangelistas na boca de Jesus são, sem mais problemas, palavras de Jesus.

No entanto, do ponto de vista histórico-analítico, a situação não é assim tão simples. Para dar uma ideia daquilo em que consiste esta problemática, vou partilhar convosco algumas reflexões (esta é a primeira) sobre as palavras ditas por Jesus acerca do divórcio nos evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas. E refiro estes três evangelhos porque, no Evangelho de João, Jesus não profere uma única palavra acerca do divórcio. É um tema ausente desse mais espiritual dos quatro evangelhos. Se na Bíblia existisse apenas o Evangelho de João, não havia motivo para os cristãos não se divorciarem. (Bom, haveria a considerar o que escreve Paulo em 1 Coríntios 7:12-16 - mas Paulo é necessariamente outra conversa...)

Nos evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas, Jesus fala, de facto, no divórcio – ou é provocado, por fariseus que o querem apanhar em falso, a falar sobre esse tema. As palavras que Jesus profere a propósito do divórcio são, no entanto, diferentes nos três evangelhos em que ele fala de divórcio. Além de diferentes, levantam o problema de, em parte, serem palavras que o Jesus real, o homem de Nazaré, não pode ter dito. São palavras que lhe foram postas na boca por cristãos que precisavam que ele as tivesse dito. Pois a probabilidade histórica de que ele as tivesse dito é incerta.

Comecemos pelo evangelho tido pelo estudo universitário do Novo Testamento como o mais antigo dos quatro: o Evangelho de Marcos. Estamos no capítulo 10:2-12. O episódio divide-se em dois momentos: primeiro, uns fariseus perguntam a Jesus, «pondo-o à prova», se é lícito ao homem divorciar-se da mulher. Jesus responde com uma pergunta: «o que vos preceituou Moisés?» E eles dão a resposta de que Moisés preceituou que o marido podia redigir um documento de repúdio e divorciar-se da mulher.

Portanto, aquilo em que consiste a armadilha dos fariseus é colocarem Jesus numa situação em que ele vai ser obrigado a ou tomar partido a favor de um preceito legitimado pelo judaísmo ou ir escandalosamente contra aquilo que o judaísmo permite e preceitua – um pouco à semelhança das armadilhas lançadas a Jesus em relação ao sábado (e podemos comparar, no apócrifo Evangelho de Tomé, a pergunta dos discípulos sobre a obrigatoriedade da circuncisão).

Em relação ao divórcio, a resposta de Jesus vai no sentido de contrariar o que o judaísmo permite. A razão da permissibilidade do divórcio na lei de Moisés – diz Jesus – é a «sklêrokardía» (σκληροκαρδία) do homem, isto é, o «coração esclerosado», o «coração duro» do homem. Ele está a referir-se ao marido que, na sua dureza de coração, se divorcia da mulher para casar com outra (o que está certamente aqui implícito é o problema de não haver filhos no casamento, por esterilidade; a questão do divórcio por adultério só é explícita no evangelho de Mateus), deixando a divorciada numa situação de desamparo e de vulnerabilidade. O que Jesus diz tem que ver com a sociedade judaica da sua época. E Jesus fala contra o divórcio aqui por compaixão para com o drama da mulher preterida.

Para sustentar o seu ponto de vista contra os fariseus, Jesus socorre-se da própria Escritura judaica e profere duas citações do livro de Génesis: «macho e fêmea os fez» (1:27) e «serão os dois uma só carne» (2:24).

Para o estudioso moderno da Bíblia, estas duas citações fazem parte de duas secções incompatíveis entre si do livro de Génesis: Génesis 1 e Génesis 2. A primeira citação de Jesus pressupõe que Deus criou homem e mulher de uma só vez: a raça humana começou logo com os dois géneros (é essa a visão de Génesis 1). Em Génesis 2, Deus cria primeiro Adão – e depois cria a mulher como «afterthought» secundário, a partir da costela de Adão. Homem e mulher não parecem ser a mesma entidade ontológica em Génesis 1 como são em Génesis 2.

Seja como for, a chave da declaração pública acerca do divórcio na passagem de Marcos é a frase bombástica de Jesus (tão bombástica como «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado»): trata-se de «o que Deus uniu não separe o ser humano».

No segundo momento da discussão sobre o divórcio em Marcos, Jesus está em casa com os discípulos, que, decerto ainda zonzos depois da bomba que ouviram, o interrogam de novo sobre o assunto. Aos discípulos, Jesus diz o seguinte: «quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério em relação a ela; e se ela, tendo-se divorciado do marido, casar com outro, comete adultério» (Marcos 10:11-12).

O enfoque das palavras de Jesus é diferente na declaração pública e na declaração privada. Na primeira, ele condena somente o divórcio, deixando implícito o seu entendimento de que o divórcio constitui uma crueldade do marido em relação à mulher; na segunda, o enfoque da condenação de Jesus está no re-casamento, descrevendo-o como adultério.

Das duas declarações – a pública e a privada – a que tem mais probabilidade histórica de ter sido dita pelo Jesus real é a pública.

A declaração privada, tal como a lemos em Marcos, o evangelho mais antigo, contém palavras que Jesus não pode ter dito. A dúvida levanta-se sobretudo em relação à noção impensável na sociedade em que Jesus vivia de que uma mulher se pudesse divorciar do seu marido. Isso era permitido às mulheres em Roma, mas não à mulheres da sociedade judaica de Jesus. Não podem ser palavras ditas por Jesus: por conseguinte, mesmo no mais antigo dos evangelhos, estamos a ler palavras postas na boca dele que ele não disse. São palavras que eram necessárias a cristãos posteriores em Roma e noutros locais do império, mas não podem ser palavras ditas por Jesus.

Por outro lado, as palavras ditas em privado aos discípulos sobre o divórcio no Evangelho de Marcos têm pequenas e grandes oscilações nos muitos manuscritos que nos transmitem este evangelho. Nos manuscritos do século IV (Codex Sinaiticus, Codex Vaticanus e outros), as palavras de Jesus são as que apresentei acima: «quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério em relação a ela; e se ela, tendo-se divorciado do marido, casar com outro, comete adultério» (Marcos 10:11-12).

No entanto, existe um manuscrito do século V que nos dá a ler as palavras sob esta forma: «se uma mulher se divorciar do marido dela e casar com outro, comete adultério; e se um homem se divorciar da mulher, comete adultério».

As palavras de Jesus, tal como nos são transmitidas por este manuscrito do século V, destacam em primeiro lugar a mulher que se divorcia do marido e casa com outro (e põem o homem em segundo lugar, ao contrário dos manuscritos do século IV). Além do mais, as palavras registadas nesse manuscrito dizem-nos esta coisa extraordinária: o homem, pelo mero facto de se divorciar da mulher, já é por esse motivo um adúltero. Sinceramente, não me parece que era isso que o Jesus histórico quis dizer.

Resumindo: as palavras ditas por Jesus aos fariseus («o que Deus uniu não separe o ser humano») têm a marca do tipo de declaração bombástica e provocatória, marca essa que é o timbre de asserções de Jesus que poderão eventualmente ser autênticas. A razão da condenação do divórcio prende-se com a preocupação de Jesus em proteger o elo mais fraco no casamento tal como era entendido até ao século XX: a mulher. Quanto às palavras ditas por Jesus aos discípulos em Marcos 10:11-12, estão feridas de diferentes graus de improbabilidade. Além da oscilação textual nos manuscritos, não é plausível que Marcos 10:12 corresponda a algo que Jesus realmente tenha dito; são palavras que lhe foram postas na boca por Marcos.

Na imagem do evangelista Marcos que veem na fotografia (tirada pelo meu marido André na Basílica de São Pedro), vemos o evangelista segurando uma pena que, segundo se diz, mede mais de 2 metros! É uma pena bem alta – talvez necessária a quem, em várias passagens do seu texto, escreveu aquilo a que se pode chamar em inglês «a tall story».

Frederico Loureço, Facebook, 27 de Janeiro de 2019

domingo, 4 de março de 2018

ARTES EM DIÁLOGO


ARTES EM DIÁLOGO
(2º Ciclo)
1ª Sessão dia 10 de Março de 2018, Sábado, às 17h, no Auditório Ruy de Carvalho
Uma produção do Ginásio Ópera


Texto de apresentação

 
Como já terão notado os mais atentos ou os menos distraídos, o ciclo Diálogo com as Artes em Diálogo, inaugurado no início de Setembro do ano passado, deveio agora, em 2018, Artes em Diálogo. O título emagreceu. Mas na realidade a esta mutação formal no plano da denominação não corresponde nenhuma alteração dos objectivos, do perfil, do modelo de conteúdos ou da concepção geral desta iniciativa. A alteração foi ditada exclusivamente por motivos que se prendem com a imagem, o grafismo, a publicitação e o marketing, elementos hoje em dia muito valorizados no espaço social e até considerados indispensáveis àquilo a que, também por injunção académica, se passou a chamar processo de produção de eventos. No caso vertente, eventos de natureza cultural e artística.

A diversidade de conteúdos permanece como uma das principais características definidoras do ciclo. Do mesmo modo, o fenómeno ópera, sendo singular expressão da reunião de todas as artes, continuará a dar o mote para uma reflexão que, de sessão em sessão, se vai construindo como uma espécie de puzzle. Reflexão que, imbuída de espírito pedagógico, busca contribuir para uma mais consistente fruição das obras de arte, assim como para uma mais forte, profunda e densa assimilação da criatividade artística em geral, com base no pressuposto de que o conhecimento favorece a vivência estética, concorrendo para afinar a fruição artística, para lhe conferir maior qualidade.

Neste segundo ciclo é introduzida mais uma arte: a dança. E para além dessa nova presença artística, serão feitos diferentes enfoques estéticos consubstanciados em outros tipos de relacionamento, de diálogo, entre distintas formas de expressão artística, como por exemplo a reunião da música com a gastronomia (na primeira fase do ciclo) e com o cinema (na segunda fase, depois do Verão).

O esforço investido nesta realização cultural estriba-se na suposição de que, em geral, o convívio com as grandes obras de Arte contribui potencialmente para o bem-estar do ser humano. Mais Arte para maior qualidade de Vida. Ou, talvez com desmedido excesso de ingenuidade e optimismo, mais Arte para melhor qualidade de humanos.

João Maria de Freitas-Branco
Oeiras, 24 de Janeiro de 2018