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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Operação Marquês


Meu Caro Eduardo,
Tudo isto é assustador e vergonhoso, mesmo antes de se realizar o julgamento e seja qual for o resultado; porque sobre várias questões gravíssimas qualquer cidadão informado está já em condições de condenar o arguido mais mediático. Repara que no caso do ex-primeiro-ministro, relativamente à ida para Paris e ao que por lá se passou, foi ele próprio que se condenou, provando que tinha mentido a todos os portugueses. Portanto, sobre algumas questões, o meu julgamento já está feito há muito tempo e unicamente com base em declarações públicas do próprio arguido; afirmações inequivocamente auto-incriminatórias. Além disso, conheço bem Paris, essa deslumbrante cidade Luz, e sei muitíssimo bem o que financeiramente significa morar nessa capital mantendo os hábitos de vida que o próprio engenheiro nos deu a conhecer serem os seus. Mas se muito não erro, o principal nisto tudo é outra coisa: é fazer o julgamento do Regime. Será que se vai conseguir? Forte abraço.
Carta aberta endereçada ao meu amigo Eduardo Cintra Torres no seguimento de um comentário publicado por ele na sua página do Facebook, no dia 12 de Outubro de 2017. O meu texto foi inicialmente publicado nessa mesma página, como comentário ao comentário.
 

sábado, 17 de junho de 2017

Nova sinalização


Nas nossas cidades há uma vasta gama de sinalizações, tendo por objectivo informar, prevenir e orientar o cidadão que nelas circula. A utilidade desse sinalizar é perfeitamente consensual. Considero, no entanto, ser vantajoso ampliar a sinalização, alargando-a a outra esfera, uma vez que não seria menos útil haver também em cada esquina das principais artérias das nossas metrópoles aquilo que baptizo de sinalização intelectual. Um tipo de indicação que prevenisse o cidadão relativamente a um perigo constante: o da perda da Liberdade. Tal como há sinais de trânsito avisando da existência de risco de atropelamento ou de acidente, devia haver também sinais indicativos desse outro nível de risco. O perigo permanente de ser vítima do totalitarismo, da ditadura, do fascismo, ou, caso se prefira terminologia mais clássica, o perigo da tirania. Como estou em crer que alguns aconteceres recentes, com destaque para o facto histórico de um doente mental ter sido eleito presidente do mais poderoso Estado actualmente existente à face do Planeta, concorrem para reforçar a utilidade da minha proposta de implementação de um novo tipo de sinalização pública, tomo já a liberdade de deixar aqui, de imediato, algumas sugestões relativamente ao conteúdo da sinalização urbana que proponho.

Cuidado! Pratique a cidadania para evitar ser atropelado

Cuidado com os furtos da Liberdade; pode sempre acontecer aqui

Atenção! Se não se disponibilizar para morrer pela Liberdade, vai morrer pisado pela tirania

Atenção! Aprenda com a História, evitando um acidente histórico

Atenção! Cultive o hábito do pensamento crítico, dando preferência à utilização da sua cabeça

Cuidado! Não troque a Liberdade pela Segurança; sem Liberdade nunca estará seguro

Como a cidade está cheia de turistas, e para que o entendimento da sinalização seja mais universal, talvez seja recomendável o uso do idioma mais global, o inglês. Nesse caso, um dos sinais que sugiro como um dos mais necessários inspira-se numa asserção atribuída a Thomas Jefferson:

Attention! Eternal vigilance is the price of Liberty

Aqui fica a minha modesta proposta. Em cada esquina das ruas mais frequentadas deve ser colocado um sinal de novo tipo, com avisos/conselhos iguais ou semelhantes aos que acabo de sugerir. Será um novo tipo de sinalização urbana: a sinalização intelectual.
João Maria de Freitas-Branco
Caxias, 17 de Junho de 2017

Vasco de Magalhães-Vilhena


NOTÍCIA E CONVITE À LEITURA

Para conhecimento de todos os eventuais interessados, informo que foi recentemente publicado na revista Philosophica, editada pelo Departamento de Filosofia e pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, o meu ensaio intitulado “Vasco de Magalhães-Vilhena e o seu legado epistemológico”.

Referência bibliográfica:

Philosophica
nº49, Abril de 2017
ISSN: 0872-4784

Vasco de Magalhães-Vilhena
historiador social das ideias

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Departamento de Filosofia / Centro de Filosofia
Internet: http//revistafilosophica.weebly.com/

 

Sinopse

O número 49 da revista Philosophica reúne artigos que têm em comum uma relação com a vida e o pensamento de Vasco de Magalhães‑Vilhena, Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa de 1974 a 1979.
Por ocasião do centenário do seu nascimento (1916‑2016), e assinalando a doação do seu espólio bibliográfico pelo Partido Comunista Português à Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, realizou‑se nesta Faculdade, a 2 de Junho de 2016, a Jornada de Homenagem a Vasco de Magalhães‑Vilhena: “Historiador Social das Ideias”. Assim se entendia, no seu próprio labor intelectual, o antigo Professor de Filosofia da Faculdade de Letras; assim se intitula também este número da Philosophica, cultivando a memória do legado de Magalhães‑Vilhena, não por alguma espécie de culto necrófilo, mas para o deixar como referência filosófica às gerações mais jovens, a fim de que estas tenham o lastro das anteriores, onde possam inscrever de forma ciente novas diferenças e tendências de pensamento.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Dona Sabina - Homenagem


Ontem, dia 11 de Abril de 2017, ao início da manhã, faleceu a Dona Sabina – assim era tratada por muitas gerações de alunos e professores do Liceu de Oeiras, onde trabalhou durante várias décadas como contínua, sempre muitíssimo estimada pelos jovens alunos, bem como pelos docentes e pelos seus colegas de trabalho. Conheci-a em meados dos anos 60, quando com o seu único filho, o Rui, entrei para o Liceu, iniciando assim uma relação de amizade estendida por mais de meio século de vida.

Quando se fala da história de um estabelecimento de ensino como o Liceu evocam-se, invariável e compreensivelmente, os bons professores que aí leccionaram; mas olvida-se de forma sistemática a acção pedagógica, formativa, desenvolvida por pessoas como a Dona Sabina – Sabina Marques Capão Andrade, de seu nome completo. No contacto diário com os alunos, sempre alimentando uma relação de grande proximidade com esses jovens, desempenhou ela relevante função educativa, não raramente temperada de genuíno espírito maternal. Legado porventura bem mais enriquecedor do que o de muitos docentes, mas injustamente deixado na penumbra da memória até por aqueles que profissionalmente se têm dedicado à investigação historiográfica na esfera da educação em Portugal.

Conversar com pessoas que estimava era um dos seus maiores prazeres. E para nós era o contentamento de poder saborear o seu constante sentido de humor, a sua lucidez, a sua ironia mordaz durante as longas cavaqueiras em que nunca se cansava. Manteve estas capacidades até o dia de ontem. O seu último. Estar na boa companhia desta nonagenária era receber uma injecção de amor à Vida. Também por isso, já neste dia em que nos despedimos da Dona Sabina sinto fortes saudades.

Pouco tempo antes de morrer, numa dessas estimadas conversas, disse: «Se não fosse este cansaço nas pernas, que faz com que me custe andar, ia à manifestação do 25 de Abril! É o que me apetece!»

Por tudo isto e muito mais, ficará sempre nas minhas melhores memórias de vida.

João Maria de Freitas-Branco
Caxias, 12 de Abril de 2017

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Para reflectir


No dia de hoje, dia da tomada de posse do 45º presidente norte-americano, e dadas as presentes circunstâncias históricas, apetece-me recordar aqui, publicamente, uma passagem de um texto epistolar de John Adams, primeiro vice-presidente e segundo presidente dos EUA, escrito endereçado ao pensador político John Taylor:
«Lembre-se, a democracia nunca dura muito. Cedo se desperdiça, esgota e destrói a si mesma».
 A entrada de um individuo como Donald Trump na Casa Branca é expressão do processo de estupidificação em curso, o PEC, e representa o actual triunfo do kitsch, bem como o fortalecimento da mentalidade antidemocrática. Contrariando em parte o alerta de John Adams, a história dos próprios EUA demonstrou que a inclinação suicidária pode ser contrariada no seio da própria democracia através da criação de elites dominantes cultas – bem diferentes das que agora prosperam. Em 1797, na América, assistiu-se à tomava de posse de John Adams como presidente; hoje, decorridos duzentos e vinte anos, vamos assistir à tomada de posse de Donald Trump. Reflicta-se sobre a diferença qualitativa, sobre o decaimento moral, intelectual, educacional, para que possamos agir consequentemente em prol da reconquista de elevação.
João Maria de Freitas-BrancoCaxias, 20 de Janeiro de 2017