Pesquisar neste blogue

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Os mil dias de Trump


Os mil dias de Trump

 

Em medos do passado mês de Outubro, creio que no dia 17, Donald Trump perfez mil dias de presidência do Estado mais poderoso do Planeta. Não sei se terá existido alguma dessas mil jornadas em que eu não tivesse sido surpreendido por qualquer coisa que supunha ser impossível acontecer sem que de aí adviessem imediatas consequências politicamente fatais para o inquilino da Casa Branca, abrindo rápido caminho para o seu ocaso político, ditado, desde logo, pela perda da base eleitoral de apoio e por inevitável processo de impeachment protector e dignificante da democracia. No entanto, sou forçado a admitir que estava iludido. A realidade encarregou-se de demonstrar a falsidade da minha optimista suposição. Nenhum desses passos presidenciais, fosse um discurso, uma decisão política, um twitter, uma opinião ou qualquer outro acto comportamental do Sr.Donald, provocou a sua morte política. Agora já prepara a sua reeleição, não se vislumbrando enfraquecimento no amparo concedido pelo Partido Republicano..

No centro da vida política de um Estado de direito democrático fundado por homens iluminados, como foram John Adams, Thomas Jefferson, James Madison, Benjamin Franklin, Thomas Paine, acreditava-se ser muito difícil acontecer o que na realidade aconteceu nestes últimos anos, desde o anúncio da candidatura de Donald J. Trump em 2015. Mesmo conhecendo bem as intrínsecas fragilidades da democracia, na América como em qualquer outro ponto do globo em que tenha sido instaurada; mesmo sabendo que nenhuma conquista é definitiva e que a liberdade, a justiça, a igualdade, a fraternidade estão em permanente fase de construção; e não desconhecendo os graves defeitos e as grandes limitações do sistema democrático norte-americano, estava convencido, mesmo assim, que os EUA, por efeito da qualidade intelectual dos seus Founding Fathers (pais fundadores) e do system of checks and balances por eles tão lucidamente pensado e esculpido, era um dos países mais escudados contra as cíclicas vagas de totalitarismo que a história vai sempre proporcionando. Vejo-me de novo forçado a reconhecer que nem a minha velha atitude crítica me fez escapar à queda num certo excesso de optimismo, talvez ditado por alguma dose de ingenuidade política. Não terei sido o único.

A principal causa do fenómeno trumpistico, a que temos assistido com crescente pasmo, reside na acumulação de actos políticos que explicam por que razão existe tanta pobreza no país mais rico do mundo. E tanta desigualdade, e tanta injustiça social, e tanta insegurança. A riqueza e o poder concentraram-se numa magríssima fatia do corpo societal (correspondente a 1% da população) e essa concentração não parou de aumentar de acordo com uma lógica capitalista que se foi desbragando também por directo efeito da queda do muro de Berlim, tomado como símbolo do desaparecimento do “socialismo real” e marcando o fim de um século breve, o da “era dos extremos” como lhe chamou Eric Hobsbaum.

Se Donald Trump fosse um autêntico político, se tivesse um programa consistente, um plano estratégico sólido, articulado com uma táctica perspicaz, e se fosse um tribuno carismático, teriam bastado estes mil e tantos dias para vermos a democracia norte-americana em estado de perfeita ruína. A sua ininteligência, a sua inépcia, o seu comportamento errático, a sua imprevisibilidade, o seu infantilismo, a sua grosseria generalizada têm ameaçado a democracia, a liberdade, a paz, mas, paradoxalmente, e se não erro, são ao mesmo tempo, involuntariamente, elementos protectores da democracia, por serem defeitos tão vincados, fragilidades tão cavadas que acabam por estorvar a pretendida solidificação de um trumpismo (corpo ideológico), emergindo como renovada forma de totalitarismo. Sendo um deficiente moral, Trump é o exuberante protagonista do moderno populismo demagógico, o da época digital, da política twiter ou twitada, da informatização sistemática da mentira manipuladora, assim tornada global. Trata-se de um tipo de nacional-populismo. Ele, Donald, é o clawn de serviço que se vai exibindo em impudicos espectáculos de variegado formato. O mais grave é que o Partido Republicano se converteu a essa figura obscena e, em vez de procurar conter os seus indignos excessos presidenciais, dá-lhe oxigénio, oferece-lhe amparo, fecha os olhos perante o que bem sabe serem desprezíveis dislates, que chegam a denegar em absoluto a própria letra da histórica Constituição dos EUA.

Não se trata de conversão súbita. A profunda metamorfose do Partido Republicano iniciou-se muito antes do aparecimento de Trump na ribalta política; passa, por exemplo, pelo gangsterismo político-militar protagonizado por indivíduos como Donald Rumsfeld, Dick Cheney, Paul Wolfowitz no tempo da presidência de George W. Bush.

A assustadora e gravosa aceitação do inaceitável por parte dos republicanos talvez se deva em alguma medida ao facto de acreditarem na indestrutibilidade do sistema democrático. Por conveniência táctica, conjuntural, de imediatismo eleitoralista, permitem as incorrecções, supondo que essa permissividade nunca chega a colocar em risco o regime. Se assim for, enganam-se profundamente. O totalitarismo é uma expressão política do Mal. Por isso, nunca está definitivamente sepultado. Pode, quando muito, estar latente, numa espécie de estado de hibernação mais ou menos prolongado, mas sempre à espreita da oportunidade para o despertar, para o ressurgimento. É o ovo da serpente cinematograficamente trazido até nós por Ingmar Bergman sob inspiração shakespeariana -- «And therefore think him as a serpent's egg» (Julius Ceaser, fala de Brutus).

Neste contexto, sou tentado a estabelecer analogia com realidade a que temos assistido cá por casa, bem dentro do nosso torrão. Estou a pensar nas transformações observáveis na nossa comunicação social nos últimos anos. Quando emergiu um certo modelo sensacionalista, fazendo da notícia uma forma de espectáculo manipulador e implementando o populismo jornalístico ou, se preferirmos, o “jornalismo populista”, em que os critérios editoriais se submetem ao gosto da populaça, ao atraente jogo das emoções, ao irracional, em detrimento da verdade do conteúdo informativo – a regra do tudo vale desde que contribua para aumentar os índices de audiência --, quando por cá surgiu este modelo, houve no início saudáveis e louváveis reacções de demarcação, com o objectivo de defender o Jornalismo; mas a pouco e pouco fomos assistindo não ao recuo do sensacionalismo populista, senão que a uma conversão semelhante à dos republicanos americanos: muitos órgãos de comunicação, incluindo os de referência, foram adoptando o modelo sensacionalista-populista. O jornalismo (o autêntico) passou a estar em risco de total extinção. De forma semelhante, nos EUA, a surpreendente (ou talvez não) conversão do Partido Republicano ao modelo trumpistico faz com que a democracia na América passe a estar em risco de extinção. O óbito do jornalismo português, se vier a ocorrer, é improvável que tenha efeito de contágio imediato no panorama internacional, enquanto o óbito da democracia nos EUA terá inevitáveis consequências a nível planetário, pondo de imediato em risco a democracia em todos os cantos do mundo.

Depois de tudo aquilo a que temos assistido no decorrer dos já mais de mil dias de presidência trumpista, creio dever-se concluir que este sujeito, com as suas notórias deficiências, possui uma rígida base social de apoio. Não sendo claramente maioritária, é, ou tem sido, no entanto, muito estável. Ameaçadoramente firme. Cada comício trumpista é disso exemplo claro. E como sabemos, o exótico sistema eleitoral americano possibilita a vitória de quem perdeu no voto popular (Trump detém o recorde negativo, pois chegou à Casa Branca mesmo tendo recolhido menos 2,8 milhões de votos do que a sua adversária Hillary Clinton, em 2016).

Como justificar essa solidez perante tamanha dose de despautério político, de incoerência, de mentira, de indecência, de indignidade?

As oposições a Trump, dentro e fora dos EUA, não parecem estar a compreender a essência do fenómeno. Se muito não me engano, tal acontece, em boa medida, por implicar o público reconhecimento de gravosas acções praticadas por esses mesmos opositores durante longo período de tempo. Acções que profundamente lesaram milhões de pessoas de diferentes estratos sociais, fazendo com que algumas (muitas) dessas pessoas (cidadãos eleitores) apareçam agora a avolumarem o eleitorado dos actuais líderes do nacional-populismo em vastas zonas do globo.

Em primeiro lugar é preciso compreender que as eleições americanas de 2016 têm um valor simbólico universal. A derrota de Hillary Clinton representa a condenação de políticas promotoras da desigualdade, da injustiça social, da pobreza (material e imaterial). Políticas levadas a cabo durante décadas pela classe política tradicional e pelos partidos dominantes, constitutivos do “centrão”, do establishment. A campanha eleitoral de Trump centrou-se no ataque à classe política (“a classe política já não trabalha para servir o interesse do povo”), no ataque às administrações anteriores, na crítica ao “modelo económico-social dos EUA” e no lema Make America Great Again. O que atrai a base de apoio e lhe confere solidez é, simultaneamente, uma enorme descrença nos políticos e nas instituições preponderantes, a dimensão de espectáculo (show) e a percepção de que a acção trumpista, assim como o próprio indivíduo Donald J. Trump funcionam como farpas cravadas nos políticos tradicionais caídos em descrédito. Há no partidário de Trump o íntimo sentimento compensatório de ter conseguido ferir o establishment. Isso alegra o povo vitimado pela injustiça. Nos comícios, o estrito conteúdo político pouco ou nada interessa. Importante é assistir ao show do clawn em voga esgrimido contra as elites tradicionais. A reunião política passa a ser acima de tudo um evento mundano, uma forma de entretenimento com o picante de ser algo que incomoda, que irrita o poder político tradicional. Nada disto funcionaria sem a fundamental presença de um outro factor: a ignorância. O baixíssimo nível cultural determina que muitos milhões de cidadãos fiquem votados à incapacidade de compreenderem que, no essencial, estes Donalds em quem depositam esperança estão ao serviço dos mesmos inconfessáveis interesses de uma magra minoria possidente. (No caso vertente, trata-se mesmo de um empresário milionário que enriqueceu no espaço sede do capitalismo e por efeito do funcionamento do sistema capitalista, americano e internacional, sendo alguém que por alguma razão necessita de esconder a sua contabilidade.)

A incultura latente na base social de apoio de Trump é indissociável de uma outra coisa: essa que Albert Einstein considerava ser a única que ele tinha a certeza de ser infinita. É ela a estupidez humana – característica universal, se bem que cada sujeito tenda a considera-la pertença exclusiva do outro, do tu, e nunca um traço típico do eu (do seu eu). A combinação dessas duas coisas (ignorância e estupidez) é potencialmente explosiva. Sabemo-lo. A infinitude parece conferir insuperabilidade a uma delas; mas a outra, a agnosia, mesmo que agigantada, pode ser combatida com alguma eficácia, sendo para tal necessário, antes de mais, convocar com urgência uma séria reflexão sobre o funcionamento real da Escola e sua acção formativa, de modo a facultar um agir consequente.

Mas atenção: a veracidade do que afirmo sobre o grau de ignorância de muitos apoiantes do actual presidente dos EUA, assim como dos partidários de outros dirigentes do nacional-populismo, contém o grave risco de poder conduzir a uma visão simplificadora ou, pior ainda, simplista. E por isso mesmo errada. A agnosia é um factor real. No entanto, supor que a vitória eleitoral de Trump é apenas fruto da ignorância/estupidez de uma grande fatia do eleitorado, como tem sido afirmado por Hillary Clinton e bastantes outros, é um erro crasso. No processo eleitoral democrático não há partido/candidato que não receba votos ditados pela ignorância, incluindo a mais basilar e grosseira (o voto decidido em função da cor das bandeiras ou das gravatas em uso, da beleza da candidata ou do candidato, da escolha aleatória, do absoluto desconhecimento do conteúdo político, seja o ideário, o programa de acção ou as opiniões do candidato). Mas combater o populismo recorrendo a esse tipo de ataque vexatório, que busca a rotulação simplificadora e simplista é também erro estribado na falsa ideia de que a base social de apoio de Donald Trump é homogénea, uniforme, não-complexa. É exactamente o contrário. Para o compreender talvez baste saber que Trump foi eleito com mais de 62 milhões de votos. Um eleitorado que logo pela sua dimensão quantitativa indicia a heterogeneidade. Há nessa base de apoio cidadãos muito contrastantes, do ponto de vista cultural, social, económico, étnico, religioso, sexual e até político. Trata-se de uma base vincadamente complexa e transversal. Imaginar que foram os eleitores brancos abastados, ou os protestantes, ou os católicos, ou os fascistas, ou os racistas, ou os machistas, ou um qualquer outro grupo social com identidade bem definida (um estrato homogéneo) a determinar a vitória eleitoral do candidato republicano nas eleições de 2016 é perseverar num equívoco inibidor da compreensão profunda do populismo, como fenómeno contemporâneo marcante.

A ignorância não é nem a única nem a principal causa do triunfo eleitoral de Trump e da persistente estabilidade da sua base de apoio. Desde logo, porque nunca há uma causa única para um fenómeno de natureza complexa. Não nos libertaremos do estado de ilusão ou auto-ilusão enquanto não assumirmos consciência do elevado grau de complexidade de um fenómeno como o nacional-populismo. Nem sequer há uma causa principal, entendida como factor singular, único. A “principal causa” é múltipla ou multifactorial; é complexa: reside ela no longo e também complexo desempenho político dos mentores da democracia real, essa elite democrática que ao longo de décadas foi semeando descrença/desconfiança em milhões de cidadãos que por fim se convenceram, com forte razão, de que a sua voz deixou de ser ouvida. Foi-se sedimentando um profundo sentimento de injustiça, ao mesmo tempo que ia sendo cada vez mais notório o divórcio existente entre políticos e cidadãos comuns, entre representantes e representados. Muitos destes optaram por deixar de participar, engrossando a abstenção. Outros resolveram começar a votar em novos candidatos que consideram estarem em condições de fazer frente ao establishment. Há mais de quarenta anos que insisto na crítica da democracia real, nomeadamente chamando a atenção para os limites da mais citada, sempre citada afirmação de Winston Churchill sobre o regime democrático. Os efeitos das deficiências da democracia real estão agora a adensar-se, ganhando particular intensidade.

No nosso país, na legislatura que agora se inicia vamos assistindo a coisas muito semelhantes às que antes referi, passadas no distante continente americano, do outro lado do oceano. Em Portugal, houve comentadores políticos e opinion makers que após as últimas legislativas logo vieram a terreiro para atacarem os votantes no principal partido populista (o Chega), acusando-os de menoridade, amesquinhando-os e utilizando argumentos em tudo semelhantes aos de muitos dos opositores americanos de Trump. Lá como cá, por estranho que possa parecer, esta atitude de passar atestados de menoridade a eleitores de partidos ou decandidatos que não estimamos é uma manifestação de ignorância simplificadora, assim como também uma das melhores formas de levar água ao moinho do nacional-populismo. Além disso, de acordo com os índices de audiência tornados públicos no nosso país, o que mais tem atraído a atenção dos cidadãos eleitores é o espectáculo dado por quem se apresenta como dissidente da política tradicional conduzida pelos partidos dominantes. À semelhança do que se observa nos EUA, também por cá o cidadão desalentado, violentado, injustiçado pela desonestidade de muitos dos seus supostos representantes, anima-se com a irritação causada pelos populistas lusos junto dos agentes político-partidários que têm dominado a vida política (“os do costume”, a elite social, económica e política). Tal como os americanos trupistas, também muitos portugueses se divertem com isso. Esse entretenimento funciona como elemento compensatório de muitas das suas frustrações e desgostos políticos validamente fundamentados. Por essa via, e com o permanente concurso da ignorância, o show torna-se ideologicamente muito lucrativo.

O único antídoto verdadeiramente eficaz é ainda e sempre o mesmo: a acção política edificadora do bem-estar assente na criação de igualdade, de justiça, de um generalizado enriquecimento imaterial e imaterial. Nenhum Trump vence eleições se existir um razoável nível de bem-estar geral associado a um sentimento de justiça. As pessoas desejam poder acreditar na classe política. Anseiam por políticos prestigiados e dignos que verdadeiramente os representem. O combate actual contra as novas vagas de totalitarismo implica o saber retirar carburante ao show populista ou nacional-populista. É um urgente combate político-cultural. No caso americano, a infantilidade demencial do presidente é um paradoxal factor de protecção da liberdade e da democracia.

 

João Maria de Freitas Branco

Caxias, 19 de Novembro de 2019

1 comentário:

  1. Outro interessante (de que vou roubar o final ;-). Do meu ponto de vista só peca por analisar uma sociedade sem classes quando a realidade é de uma agudissima luta de classes, no âmbito da qual "O Capital" se vê forçado a oferecer ao "Trabalho" um inócuo sucedâneo de oposição: o nacional-populismo mais ou menos trumpista, já que a real oposição significaria o fim do neo-liberalismo em que descambou o capitalismo sem freios, e isso "O Capital" não deixa ;-)

    ResponderEliminar