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terça-feira, 13 de julho de 2021

Edgar Morin

 

O filósofo Edgar Morin fez 100 anos há quatro dias (8 de Julho). Conheci-o pessoalmente no final dos anos 80 e bastará consultar o índice onomástico do meu livro “Dialéctica, ciência e natureza” (Ed. Caminho, 1990) para perceber a importância que os seus escritos tiveram na minha reflexão sobre a ciência e a dialéctica objectiva -- tendente a edificar uma concepção dialéctica do conhecimento científico. Em gesto de homenagem ao agora centenário penseur humaniste, deixo um convite à leitura do seu último livro, publicado no mês passado (no dia 2 de Junho): “Leçons d’un siècle de vie” (Ed. Denoël).

João Maria de Freitas Branco
12 de Julho de 2021

quinta-feira, 10 de junho de 2021

NOMEAÇÕES GOVERNAMENTAIS

Pergunto-me de que vale a inflamada retórica contra agentes do autoritarismo antidemocrático em acelerado processo de organização quando do mesmo passo se oferece em bandeja de oiro polposo alimento a esses mesmíssimos agentes? Exemplo límpido é-nos agora dado pelo Governo com o anúncio público de duas nomeações: a de Ana Paula Vitorino para presidir à AMT – Autoridade da Mobilidade e dos Transportes, e a de Pedro Adão e Silva para comissário executivo das comemorações oficiais do 50º aniversário do 25 de Abril.

Num dos casos, o do comissário executivo, está em causa o processo utilizado – escolha unilateral, prepotente, sem preocupação de obter consenso, sem consultar os partidos fundadores da segunda República (para alguns terceira), sem procurar ouvir a opinião dos militares do MFA através da Associação 25 de Abril, e até, segundo parece, sem a elementar lisura de uma prévia comunicação ao general Ramalho Eanes, entretanto já nomeado pelo Presidente da República como presidente da comissão nacional das comemorações.

No outro caso, temos o cru dislate político que escancara a porta à suspeição de compadrio, de nepotismo, de monolitismo asfixiador do espírito crítico.

É assim que se corrói a democracia. E uma vez mais se constata poderem proceder como inimigos dela, na prática e objectivamente, alguns dos que mais soltam brados à sua própria pertença à elite democrática da Nação.

Para não ficar atrás dos governantes do PS em capacidade de produzir gestos corrosivos da democracia, o presidente o PSD, a propósito da nomeação de Pedro Adão e Silva, veio a terreiro empunhando a espada da difamação, exibindo o ataque pessoal rasteiro como forma de fazer oposição – sendo até pessoa que em outros momentos soube dar louvável exemplo contrário.

José Pacheco Pereira e António Lopo Xavier deram na última emissão do programa televisivo “Circulatura do Quadrado” (TVi 24, ontem à noite) bom exemplo do que deve ser um comentador político. Fizeram-no em forçado contraponto com o triste exemplo do discurso de funcionário político, ou, no caso vertente, de funcionária. Esse momento televisivo é instrumento pedagógico útil; fornece material didáctico. De forma educada, elevada e muito paciente, Pacheco Pereira e Lopo Xavier deram uma lição pública à funcionária do PS travestida de comentadora.

Se os democratas no ou com poder persistirem neste tipo de comportamentos, a actual vaga de autoritarismo ou de totalitarismo não deixará de se avolumar.

João Maria de Freitas Branco

Caxias, 10 de Junho de 2021 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

Convívio das Direitas

 

As direitas estão reunidas na capital. É a convenção MEL – Movimento Europa e Liberdade. Diz-se que quer atrair como o mel.

Bem sentado na primeira fila da sala onde decorre a convenção, talvez não por mero acaso, está o antigo primeiro-ministro que executou a política de austeridade (no período de 2011 a 2015) e ex-presidente do PSD Pedro Passos Coelho; o actual presidente do mesmo partido, Rui Rio, é um dos oradores mais aguardados.

Resta agora perceber qual vai ser o papel do PSD no próximo futuro: travar o avanço da extrema-direita antidemocrática ou aliar-se à extrema-direita antidemocrática? Será que se vai assistir por cá a algo semelhante ao que se tem visto acontecer do outro lado do Atlântico, nos EUA, com o desfigurado Partido Republicano?

Face às interrogativas enunciadas, talvez seja oportuno recordar e citar uma afirmação inequívoca de Francisco Sá Carneiro, fundador e primeiro presidente do PPD/PSD, figura unanimemente venerada no seio da família social-democrata. Disse ele sobre o PSD:

«Não temos qualquer afinidade com as forças de direita, nós não somos nem seremos nunca uma força de direita.»
                                                       Francisco Sá Carneiro

Note-se que esta afirmação bem clara foi proferida já depois do PREC e do 25 de Novembro de 1975. Aqui fica, como convite à meditação, dirigido principalmente aos que tiverem poder de decisão no interior do PSD.

Pensem bem.

João Maria de Freitas Branco
25 de Maio de 2021

terça-feira, 20 de abril de 2021

George Floyd -- No dia das alegações finais

 

Algumas opiniões que tenho colhido no Facebook sobre a morte do cidadão americano George Floyd dizem bastante mais sobre quem opina do que sobre o que opinam. É como se colocassem um letreiro na testa anunciando orgulhosamente ao mundo: “Eu sou uma má pessoa, sou um ser imoral”. A densidade da sua consciência parece débil, pelo que não chegam a estar conscientes da imagem que divulgam de si próprios através de palavras de ódio, desresponsabilização, insensibilidade, indiferença -- vagueando entre o "é tudo um aproveitamento político" e o "não passa de um lamentável incidente".

Limito-me a um único exemplo concreto, para não incomodar excessivamente e tendo a generosidade de omitir o nome do citado. Perante o registo dramático da morte do ser humano George Floyd (9 minutos e 29 segundos de agonia) um católico, que se indigna com a morte de embriões microscópicos declarando-se “defensor da vida”, escreveu nesta rede social o seguinte:

«Morreu um ladrão e traficante de droga (assassino) e fica tudo a gritar por justiça. Morreu e ainda bem, é menos um a matar os meus Filhos ou Netos».

O esmorecimento do amor à vida está no cerne da capital crise que afecta o mundo: crise cultural. Uma nova vaga de desumanização inunda as nossas sociedades, «niant la juste grandeur de la vie», como escrevia Camus no esforço de achar explicação para os totalitarismos do seu tempo.

Compreensivelmente a indiferença esteve hoje no íntimo das alegações finais do julgamento que decorre em Minneapolis.

João Maria de Freitas Branco
19 de Abril de 2021

sábado, 17 de abril de 2021

UM DEPOIMENTO QUE DEVE SER LIDO

O texto que se segue foi publicado na minha página do Facebook onde se poderá encontrar o depoimento publicado no EXPRESSO. 

Com o passar do tempo foram surgindo pessoas do meu círculo de conhecimentos que adoeceram com a Covid-19. Felizmente quase todos recuperaram. Só um faleceu: o Carlos Antunes. Mas vários passaram por uma singular experiência de sofrimento que os marcou. É o caso do Daniel Sampaio. Mas até agora, de todos eles, só o Daniel nos deixou um sentido e meditativo testemunho público, feito com a lucidez, a sinceridade e a honestidade que o caracterizam. Nessa essência do Eu, a Covid, “doença difusa”, não conseguiu tocar. Mas assusta, e muito, saber-se que podia tê-lo feito de forma devastadora, apagando uma pujante lucidez. Esta é uma de várias lições contidas no depoimento que profundamente me tocou e que por isso agora aqui partilho, ficando à espera do anunciado livro que o completará.

Rápida e completa convalescença, caríssimo Daniel! Resistência e Saúde!

João Maria de Freitas Branco
Caxias, 17 de Abril de 2021

 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Vergonha

 

 Sabíamos que a morte de George Floyd tinha sido horrível e vergonhosamente racista; nas últimas horas, durante a quarta sessão do julgamento em curso, ficámos a saber que tinha sido ainda mais horrível e mais vergonhosamente racista. As novas imagens hoje reveladas em tribunal e o testemunho dos dois paramédicos mostram quão hediondo foi o acto praticado pelo agente Derek Chauvin com a cumplicidade dos seus colegas da polícia de Minneapolis. É impossível não sentir uma enorme revolta.

O julgamento continuará a ser transmitido em directo para o mundo inteiro através da CNN e de outros canais televisivos.  

Que se faça justiça.

João Maria de Freitas Branco 
Caxias,1 de Abril de 2021


 

 

 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

José Atalaya e Oeiras

  

Houve quem manifestasse estranheza pelo facto de o funeral do maestro José Atalaya ter decorrido no cemitério de Barcarena, no concelho de Oeiras, na passada quinta-feira (25-02-2021). Esse estranhar só pode derivar do desconhecimento da longa relação de José Atalaya com Oeiras e que aqui evoco de forma muito breve e resumida.

Foi em Paço de Arcos, vila do Município de Oeiras, nos recuados anos 40 do século passado, que o jovem José Atalaya viveu uma parte do acontecimento que por completo transformou a sua vida: o encontro com o compositor Luís de Freitas Branco, meu avô paterno. Esse encontro foi a causa da radical decisão de se dedicar à música, abandonando a engenharia que então cursava – e que curiosamente é hoje abraçada pelo seu filho Luís (homónimo do Mestre).

 Embora o início dessa decisiva relação pessoal tenha ocorrido no Alentejo, no Monte dos Perdigões, em Reguengos de Monsaraz (propriedade que no século XVI pertenceu a um ilustre antepassado do compositor, Frutuoso de Góis, meio-irmão do célebre humanista renascentista Damião de Góis), a verdade é que a relação que tão profundamente influiu na formação e na definição do rumo profissional de José Atalaya se prolongou e intensificou nesses arredores da capital onde Luís de Freitas Branco viveu nos últimos anos da sua vida, mais precisamente na “Vivenda Stuc”, em Paço de Arcos. Atalaya foi um dos mais assíduos participantes nos longos convívios que aí eram promovidos pelo anfitrião e que se traduziam, na prática, numa espécie de universidade informal que estimulou intelectualmente várias das principais figuras da cultura musical portuguesa de uma geração, como foi o caso de Joly Braga Santos ou o de Fernando Lopes-Graça. (Para mais informação sobre o funcionamento desse peculiar espaço de formação artístico-intelectual veja-se o meu livro Luís de Freitas Branco – O intelectual em Paço de Arcos, Mazu Press, 2019.)

Mais tarde, foi também em Oeiras, com o forte apoio do presidente da Câmara, já então Isaltino de Morais, que José Atalaya realizou durante longos anos os relevantes ciclos da “Música em Diálogo”, um dos seus importantes contributos para a divulgação da melhor música erudita e que foi também uma valiosa forma de apoio à carreira de vários artistas portugueses. Esta iniciativa, enriquecedora da vida cultural do município de Oeiras, e em que tive o gosto de participar múltiplas vezes a convite generoso do seu Autor, contou com o incondicional apoio da Câmara Municipal de Oeiras (CMO), corporalizado na actuação de profissionais muito competentes e habilitados, como Carlos Pinto, abnegado funcionário do sector da Cultura da CMO. Mas a esse amparo institucional adicionava-se um outro apoio, mais íntimo, mais constante, mais essencial que por isso se constituía como preciosíssima ajuda, mas pouco visível, ou até mesmo invisível aos olhos do público: a colaboração da Linda, mulher de José Atalaya. Na realidade, ela foi uma co-autora da “Música em Diálogo”. Facto que aqui quero realçar por considerar ser justo fazê-lo, mas também, e principalmente, por ser modelar exemplo da materialização de uma harmoniosa cumplicidade de interesses culturais e de paixões artísticas na qual se tecia, se consolidava e se expressava uma das mais bonitas relações conjugais que pude presenciar ao longo da vida. A linda relação do José com a Linda.

Os saudosos sábados de diálogos musicais em Oeiras foram o benefício cultural dessa invulgar cumplicidade conjugal agora por mim evocada como homenagem ao Amigo que partiu e como afectuosa reverência à Amiga enlutada.

Não tenho dúvida de que os munícipes de Oeiras estão agradecidos, e creio ter deixado aqui esclarecida a coerência da escolha do cemitério oeirense de Barcarena como local de realização do funeral do meu bom Amigo José Atalaya.

João Maria de Freitas Branco
Caxias, 27 de Fevereiro de 2021