Se excluirmos,
desde logo pelo seu especial significado simbólico, as primeiras eleições
autárquicas, julgo dever-se concluir que as autárquicas do passado
fim-de-semana foram as mais importantes que se realizaram em Portugal desde a
fundação do actual regime democrático.
Elas representam um ponto de
viragem. Porquê? Porque o seu resultado global traduz de modo inequívoco a
vontade popular de acabar com a partidocracia. Uma partidocracia que se tem
revelado essencial factor de empobrecimento da democraticidade do regime. Os
cidadãos eleitores decidiram que o processo de representação não pode estar
confinado à candidatura partidária, aos partidos políticos.
Mas a voz do eleitorado
transporta declaração política ainda mais relevante e profunda: a não-aceitação
do actual sistema de representação. Mais de 50% do eleitorado não se considera
bem representado pelas candidaturas apresentadas. Os cidadãos reivindicam,
através do voto, nova forma de representação que lhes dê garantias,
permitindo-lhes controlar a acção efectiva do eleito durante todo o exercício
do mandato e não apenas de 4 em 4 anos, no acto isolado do voto. Dito de outro
modo, os cidadãos exigem uma democracia mais participativa e menos
representativa. Ou seja, em que se afirma o primado da participação, com a
subordinação da representação à participação.
Este último acto eleitoral
efectuou-se em momento histórico muito singular, com o país mergulhado na maior
crise económico-financeira do pós-25 de Abril e com um Governo que se
ilegitimou através do completo desrespeito do programa eleitoral e governativo,
bem como pelo recurso a uma governação sistematicamente anticonstitucional.
Factos que, em minha opinião, marcam o fim da nossa 2ª República. É à luz desta
forte singularidade que os resultados têm que ser lidos.
Analisemos então os resultados
eleitorais.
Há dois aspectos essenciais a
reter: em primeiro lugar, a denúncia do próprio acto eleitoral e a recusa de
participar numa fraude política semelhante à que se verificou nas últimas
legislativas, o não querer ser protagonista de uma farsa eleitoral; em segundo
lugar, a condenação da partidocracia e do tipo de representação que lhe está
associado.
Neste singular momento histórico
em que seria natural haver um acréscimo de mobilização política traduzido na
afluência às urnas, o que se passou foi exactamente o inverso. A abstenção
aumentou de forma muito significativa, o mesmo acontecendo com os votos em
branco e nulos (sendo que estes já não podem ser interpretados como mero
engano). A abstenção aumentou em mais de 6 pontos percentuais. Os brancos e
nulos correspondem a quase 7%. Em ambos os casos estamos a falar de um número
superior ao da soma dos votos obtidos por dois partidos com assento
parlamentar, os do CDS/PP e do BE. Em alguns concelhos, nomeadamente naqueles
em que o resultado era mais incerto e se travava uma renhida batalha eleitoral,
como em Oeiras ou Loures, a abstenção esteve acima dos 50% (ultrapassou os 53%
em Oeiras); e num concelho tão importante como Cascais a abstenção foi de 62% e
os votos brancos e nulos atingiram os 9%! Repare-se que os exemplos dados têm a
“agravante” de serem do distrito da capital, região onde se situa o eleitorado
com níveis de escolaridade mais elevados, sendo igualmente, pelo menos em
teoria, um eleitorado, em média, politicamente mais informado.
Há ainda um outro aspecto
muitíssimo relevante. A comparação entre a oscilação da votação nos partidos e
a dos votos em branco e nulos. Apenas um partido obteve mais votos do que em 2009.
Foi o PCP/CDU. É por isso a excepção que confirma a regra da perda de votos.
Até o PS, partido dito vencedor, registou significativa perda de votos. Mas se
olharmos para o número de nulos e brancos a regra é exactamente a oposta. Isto
é, o eleitorado nulo/branco foi o que cresceu mais. Teve (como agora está em
voga dizer-se) um colossal aumento. Passou de 2,9% para 6,8%! Mais que duplicou
o seu peso eleitoral. Que partido pode gabar-se de ter tido tão grande aumento?
Tão grande vitória? Sim, há uma peculiar vitória de quem quis afirmar a sua
desconsideração pelo sistema. 344.566 Cidadãos deram-se ao incómodo de sair de
casa para afirmarem nas urnas, expressamente, esse seu sentimento; mas muitos
mais fizeram-no abstendo-se. A abstenção não pode continuar a ser olhada displicentemente
como mero efeito de um desinteresse inculto e estúpido. Há nela outro peso
político, pelo que não pode ser ignorada pelos analistas. E os nulos/brancos
foram, na comparação com 2009, os grandes vencedores. Enquanto os partidos
perderam milhares de apoiantes os nulos/brancos ganharam milhares e foram,
nessa precisa medida, os vencedores destas eleições.
Como é possível que os
comentadores de serviço não comentem isto? Como se pode aceitar que no debate
parlamentar desta semana sobre as eleições nada disto tenha merecido a atenção
dos deputados?
Estes números são, por si só, e de
igual modo, demonstrativos da condenação eleitoral da partidocracia. Mas há
mais: estas Autárquicas 2013 assumem-se como marco histórico no nosso percurso
democrático também porque representam a entrada na ribalta política das
candidaturas independentes, entendendo-se por tal a não vinculação a direcções
partidárias. Importantíssima novidade. Símbolo maior desta mudança é a vitória
de Rui Moreira no Porto. Acontecimento eleitoral não por acaso destacado em
manchetes de vários jornais estrangeiros, como por exemplo o conceituado El País. Pela primeira vez, o poder
local numa das mais importantes cidades do país deixa de estar na mão de um
partido. Os números falam por si: o independente Rui Moreira ganhou com 39,2% e
6 eleitos para a câmara, enquanto o partido mais votado (o PS) ficou pelos 22,6%
e com apenas 3 eleitos. A nível nacional os independentes obtiveram mais votos
do que o CDS/PP e do que o BE: 344.566 votos, correspondendo a cerca de 7%. Só
PS, PSD e CDU ficaram à frente dos independentes, sendo que estes, ao contrário
daqueles, não marcaram presença em todos os concelhos. Mostrando não estar a
perceber a mudança que se está a operar, um destacado deputado da esquerda
parlamentar afirmou triunfalmente que a esmagadora maioria dos eleitores tinha
votado nos partidos e não nas candidaturas independentes, depreciando assim os
resultados obtidos pelas candidaturas independentes. Puro engano. A maioria do
eleitorado, 61,12%, não votou em partidos.
Perante estes resultados e as
claras mensagens que transportam deixa de ser legítimo realizar eleições
legislativas na base do monopólio dos partidos. As candidaturas à Assembleia da
República não podem ser exclusivamente partidárias. Significa isto que a lei
eleitoral tem que ser alterada de imediato de forma a permitir candidaturas não
submetidas ao controlo das cúpulas partidárias. Se a vontade popular for
democraticamente respeitada, e tem que ser, a mudança da lei eleitoral
tornou-se, a partir do escrutínio de Domingo passado, uma urgência ainda maior.
A luta que tem vindo a ser desenvolvida pelo Movimento para a Democratização do
Regime, bem como por outros agentes políticos e sociais, ganha agora ainda
maior pertinência, uma vez que passou a estar legitimada pela vontade
livremente expressa pelos cidadãos eleitores.
A nova lei tem que introduzir
elementos de controlo da ética eleitoral impedindo a continuação da fraude
eleitoral que atingiu o auge nas últimas Legislativas, com a completa
dessintonia entre o programa eleitoral votado e o programa executado, anulando
assim a utilidade do voto e destituindo-o de sentido. A “ arma do povo”, o
voto, deixou de ter munições e deveio ineficaz. Embora formalmente legitimado
por eleições livres, o actual Governo da República ilegitimou-se por efeito do total
incumprimento dos pontos essenciais dos programas com que se apresentou ao
eleitorado e depois ao Parlamento. Face a esta realidade assassina da
democracia, perversora dos mais elementares princípios em que esta se estriba,
realizar novas eleições legislativas só faz sentido depois de conferir ao
cidadão garantias de que a farsa não se pode repetir. Como já em outras
ocasiões de intervenção pública tenho vindo a afirmar, a nova legislação que,
agora mais do que nunca, urge realizar tem que instituir um órgão de soberania
(suprapartidário, um conselho de homens bons), eleito e articulado com o
Presidente da República, com poder para avaliar o efectivo cumprimento dos
programas eleitorais por parte dos eleitos, podendo despoletar um processo
conducente à demissão daquele ou daqueles que notoriamente não honrem os compromissos
assumidos perante os cidadãos no acto eleitoral. A abstenção não pode ser
ignorada ou tratada como mera manifestação de desinteresse estúpido. A
crescente abstenção, bem como o enorme aumento dos votos brancos e nulos é um
relevante fenómeno político, expressão de indignação cívica perante o decaimento
da democracia real.
Há que continuar a reflectir seriamente
sobre os resultados das Autárquicas 2013 de modo a conseguirmos assimilar os importantes
ensinamentos que elas nos legam. A melhoria da qualidade da nossa vida política
passa por aí.
João Maria de Freitas-Branco
Caxias, 3 de Outubro de 2013
João, parabéns pela análise! Especialmente as questões ligadas aos votos nulos, brancos e abstenções. Só quem não anda pela rua e ouve as pessoas é que não percebe o que se está a passar...trata-se de uma muito clara tomada de posição...Gostei da expressão"Homens-Bons". É urgente afirmar que não são todos/as iguais! Estes partidos ditos do arco da governação estão demasiado metidos em trapalhadas, funcionam em circuitos fechados a si próprios...temos que encontrar modo dos cidadãos terem um papel mais activo. Estas eleições deram o "pontapé de saída"...Os aparelhos partidários sufocam a democracia...
ResponderEliminarAinda uma análise oportuna sobre as Autárquicas, em contraponto da lavagem ao cérebro que a corja partidocrata tentou implantar na cabecinhas dos portugueses, recorrendo à turma de jornalistas e opinocratas indigentes que povoam o éter jornalístico e televisivo da pátria.
ResponderEliminarSó a receita para a ação, oriunda do Movimento para a Democratização do Regime, me parece insuficiente e tíbia, com fortes riscos de cooptação de algum, ou alguns dos seus promotores deste movimento oriundo do PS. A única solução credível é reunir os vários movimentos num Plataforma Eleitoral Independente (formalmente um partido...) e disputar as próximas eleições europeias, e as próximas Legislativas!
OAM
Boa tarde
ResponderEliminaracabei de escrever um post citando o João Maria.(A Voz da Girafa). Tenho votado em branco-não vejo alternativa.
Com os melhores cumprimentos, Céu Mota