Pergunto-me de que vale a inflamada retórica contra agentes
do autoritarismo antidemocrático em acelerado processo de organização quando do
mesmo passo se oferece em bandeja de oiro polposo alimento a esses mesmíssimos
agentes? Exemplo límpido é-nos agora dado pelo Governo com o anúncio público de
duas nomeações: a de Ana Paula Vitorino para presidir à AMT – Autoridade da
Mobilidade e dos Transportes, e a de Pedro Adão e Silva para comissário
executivo das comemorações oficiais do 50º aniversário do 25 de Abril.
Num dos casos, o do comissário executivo, está em causa o processo
utilizado – escolha unilateral, prepotente, sem preocupação de obter consenso,
sem consultar os partidos fundadores da segunda República (para alguns terceira),
sem procurar ouvir a opinião dos militares do MFA através da Associação 25 de
Abril, e até, segundo parece, sem a elementar lisura de uma prévia comunicação
ao general Ramalho Eanes, entretanto já nomeado pelo Presidente da República
como presidente da comissão nacional das comemorações.
No outro caso, temos o cru dislate político que escancara a
porta à suspeição de compadrio, de nepotismo, de monolitismo asfixiador do
espírito crítico.
É assim que se corrói a democracia. E uma vez mais se
constata poderem proceder como inimigos dela, na prática e objectivamente,
alguns dos que mais soltam brados à sua própria pertença à elite democrática da
Nação.
Para não ficar atrás dos governantes do PS em capacidade de
produzir gestos corrosivos da democracia, o presidente o PSD, a propósito da
nomeação de Pedro Adão e Silva, veio a terreiro empunhando a espada da
difamação, exibindo o ataque pessoal rasteiro como forma de fazer oposição –
sendo até pessoa que em outros momentos soube dar louvável exemplo contrário.
José Pacheco Pereira e António Lopo Xavier deram na última
emissão do programa televisivo “Circulatura do Quadrado” (TVi 24, ontem à noite)
bom exemplo do que deve ser um comentador político. Fizeram-no em forçado
contraponto com o triste exemplo do discurso de funcionário político, ou, no
caso vertente, de funcionária. Esse momento televisivo é instrumento pedagógico
útil; fornece material didáctico. De forma educada, elevada e muito paciente,
Pacheco Pereira e Lopo Xavier deram uma lição pública à funcionária do PS
travestida de comentadora.
Se os democratas no ou com poder persistirem neste tipo de
comportamentos, a actual vaga de autoritarismo ou de totalitarismo não deixará de
se avolumar.
João Maria de Freitas Branco
Caxias, 10 de Junho de 2021