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sexta-feira, 25 de março de 2022

GUERRA


Entramos hoje no segundo mês de guerra na Ucrânia, um conflito que para além das tragédias já causadas constitui, hora a hora, uma ameaça para o mundo. Neste dia de passagem do primeiro para o segundo mês de guerra vem-me à memória a seguinte afirmação do escritor George Orwell depois de ter vivenciado a guerra em solo espanhol, na Catalunha, nos anos 30 do século passado:

«O facto é que todas as guerras padecem de uma espécie de degradação progressiva a cada mês que passa, porque coisas como liberdade individual e imprensa de confiança são simplesmente incompatíveis com a eficiência militar»

JMFB, 25 de Março de 2022

terça-feira, 22 de março de 2022

Guerra e Crise do pensamento

 

Vejo que a guerra actual suscita por aqui (em algumas páginas) acesas polémicas em que se contabilizam méritos dos exércitos dos EUA, da URSS e de outros Aliados no desfecho da segunda Grande Guerra. Isso motiva-me a enunciar três interrogativas:

 

Não será intolerável desrespeito para com todos os que corajosamente combateram o nazi-fascismo enveredar por exercícios contabilísticos? Não será atitude portadora de inadmissível deselegância ético-política? Ou será uma das faces visíveis da grande crise do pensamento?

João Maria de Freitas Branco
22 de Março de 2022

 

quinta-feira, 3 de março de 2022

SINAIS ALARMANTES

Quando ao início da tarde me dedicava a percorrer os principais canais televisivos em busca das últimas notícias sobre o conflito bélico que neste momento monopoliza a nossa atenção, apercebi-me do corte do sinal do canal RT que, como se sabe, é uma rede televisiva internacional com directa ligação ao Estado russo. No ecrã do televisor apareceu-me, sobre fundo negro, a seguinte nota informativa:

«A emissão deste canal está proibida por decisão do Regulamento EU 2022/350 do Conselho, de 1 de Março de 2022».

Será que esta decisão é aceitável à luz dos valores democráticos? Esta proibição não põe em causa a liberdade de imprensa? Não está o Conselho da União Europeia a adoptar um regulamento censório e, assim sendo, contrário aos princípios da União Europeia?

Ao que me é dado saber, a agência de notícias russa Sputnik foi também abrangida pela decisão do Conselho da EU.

Mas há mais. Têm vindo a verificar-se outras “proibições” que atingem personalidades de nacionalidade russa, incluindo artistas e directores de instituições culturais. Retenha-se esta notícia publicada ontem num jornal italiano, dando conta do despedimento do aclamado maestro russo Valery Gergiev (ocupava o cargo de director da Orquestra Filarmónica de Munique) por não ter condenado a invasão da Ucrânia e ser amigo de Putin:

«Sulla scelta della star mondiale del melodramma [Anna Netrebko] pesa, senza ombra dubbio, la guerra in Ucraina e la decisione - del sindaco Beppe Sala e del Piermarini - di allontanare dal teatro il direttore d'orchestra Valery Gergiev, amico personale di Vladimir Putin e messo alla porta perché non si è schierato apertamente contro l'invasione russa.»

A célebre soprano Anna Netrebko, russa, já não vai subir ao palco no próximo dia 9, no Scala de Milão. Vários teatros na Alemanha, na Holanda, em Itália, já anunciaram a intenção de cancelar os concertos com Gergiev que é o mais notabilizado maestro russo da actualidade.

Quem toma estas decisões diz combater a falta de liberdade na Rússia e o ditador Putin. Estranha atitude: denunciar a censura censurando; evocar a liberdade impedindo a liberdade de opinião.

Tudo isto me parece extremamente preocupante.

João Maria de Freitas Branco
Caxias, 2 de Março de 2022

 

NOTA: Para quem estiver interessado em ler na íntegra o Regulamento aprovado, informo que ele foi hoje publicado no Jornal Oficial da União Europeia, podendo ser consultado na Internet.

Comentário do meu amigo e compositor Carlos Alberto Augusto que merece ser lido:

Ainda vai correr muita tinta por causa destas proibições, sanções e outras reacções. Racismo, intolerância, perseguições, revanchismo, atropelamento de direitos democráticos, correm livres, por todo o lado, aqui também em Portugal. Não tarda vai valer tudo. Verifico que se aceita tudo isto com bonomia, diria mesmo, com não escondida satisfação. E nunca o ditado "no melhor pano cai a nódoa" foi tão verdadeiro. Estamos num estado de pré-fascismo, transversal a toda a sociedade. Exagero? Vamos ver...
Carlos Alberto Augusto, Facebook, 2 de Março de 2022

A minha resposta: 

Carlos Alberto, é terrível dizê-lo, mas inclino-me a considerar que não pecas por exagero. Repara, por exemplo, na situação dos EUA, com uma guerra fria civil a decorrer há largos meses e com o Partido Republicano convertido ao autoritarismo neofascista de Trump, ou na situação em França, em que destacadas personalidades falam abertamente de guerra civil já iniciada! E onde estão as forças organizadas capazes de contrariar as novas vagas explicitamente antidemocráticas e totalitárias? Nos anos 1920/30 existiam, e mesmo assim foi necessário travar uma guerra mundial. Muito perturbador...

 

Carlos Alberto Augusto, um acrescento à minha primeira resposta: repara como bastam estas poucas dezenas de reacções ao meu escrito para se poder exemplificar/demonstrar a aceitação por ti referida, seja ela acompanhada de mais ou de menos bonomia. Chegámos a pensar que a Escola pública e os anos de vivência democrática tinham gerado sólida imunidade ao "vírus" do autoritarismo neofascista. Não por acaso, desde o berço da civilização o ilusionismo foi uma forma de diversão que granjeou enorme sucesso. O sapiens é um ente que se ilude e auto-ilude. Abraço.
João Maria de Freitas Branco
3 de Março de 2022

 

 

 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Não foi penálti!

 

“NÃO FOI PENALTI!”
(Texto de Francisco Seixas da Costa, Facebook, 19 de Fevereiro de 2022)

Uma vez, no velho estádio José de Alvalade, no meio de uma bancada verde que reclamava um penalti que castigasse uma suposta falta sobre um jogador do (meu) Sporting, comentei, alto: “Não foi penalti!”.

O que eu fui dizer! Caiu-me em cima o Carmo e a Trindade! O mais meigo remoque que nesse instante recolhi foi de “lampião”, insulto-mor no clube que me tem como adepto desde que me conheço.

Não tinha sido penalti, claro, mas afirmar isso naquele contexto era uma heresia. Porque “tenho a mania” de que sou isento a ver futebol (e sou), raramento me inibo de dizer o que penso sobre a justiça do “senhor árbitro”. E, talvez por isso, raramente vou aos estádios.

(Ainda ontem, este tweet irritou bons amigos: “A Lazio não é o Manchester City, eu sei. Mas parece-me claro, e honestamente tenho de admitir, que o Porto é hoje, nomeadamente comparado com o (meu) Sporting ou o Benfica, a única equipa portuguesa que ainda vai conseguindo sustentar um razoável estatuto internacional.”)

Mas a que propósito vem isto? Da Ucrânia. Da Ucrânia? Exatamente.

Na minha qualidade de comentador da CNN tem-me vindo a ser pedido que analise a situação que por ali se passa. E eu faço-o, tão bem quanto consigo, tentando olhar para as coisas com equanimidade - “palavrão” que tenho por princípio moral.

Há dias, um outro amigo (tenho muitos, felizmente) disse-me, num tom que me soou um pouco chocado: “Quando, nos teus comentários, analisas o conflito na Ucrânia, chega a dar a sensação de que Biden e Putin se equivalem moralmente, de que um presidente eleito democraticamente tem uma dignidade idêntica à de um autocrata. Pareces esquecer de que lado estás.”

Achei graça ao comentário. E já o esperava. Sou cidadão e diplomata de um país da NATO e da União Europeia, defendo alguns Direitos Humanos que Putin nem desconfia que existem e detesto o sinistro regime que vigora em Moscovo. Mas, ao assumir esta atitude (que não é um “disclaimer”, note-se), acaso sou obrigado a esquecer, por exemplo, que os EUA mantêm, sem julgamento e sem vergonha, há mais de 20 anos, em Guantanamo, pessoas detidas por terrorismo, por não conseguirem provar que são culpados?

Recuso abertamente o desafio dualista, em matéria de valores, que está subjacente à pergunta, quase policiesca: “Estamos do lado de Biden ou do lado de Putin?”. O facto de eu saber bem do lado em que estou não me torna incapaz de avaliar, com serenidade, as razões de um lado e de outro. Porque a experiência, e essencialmente a consciência, ensinou-me que o mundo nunca é a preto e branco. E não tenho a menor paciência para os maniqueístas.

Bem me lembro dessa hora, bem negra para a política externa portuguesa, em que um governo nos provocava sobranceiramente com a pergunta: “Queremos estar do lado dos Estados Unidos ou do lado de Saddam Hussein?”. Esse executivo acabou a servir o “catering” nas Lajes e a avalizar a guerra criminosa que foi a intervenção no Golfo, em 2003, de onde só nasceu ódio, morte e o Daesh. E não pediu desculpa ao país por isso.

Conheço os valores que estão em causa na questão da Ucrânia. Esse é o lado opinativo, afetivo, da questão. O meu papel, na cena televisiva, não é ser “sportinguista em Alvalade”, é ser rigoroso a analisar os acontecimentos e as motivações contrastantes que lhes estão por detrás. Às vezes, isso não é simpático para as “nossas cores”, parecemos ”advogados do diabo”? É a vida!

Por isso, porque continuo a recusar-me a gritar “penalti!” quando não houve falta, ou insisto em dizer ”foi penalti!” quando um defesa do meu “lado” rasteira um adversário na área, continuarei, enquanto me quiserem ouvir, a tentar analisar as questões internacionais com o possível equilíbrio, tomando sempre em atenção a posição de cada lado e, essencialmente, procurando ser rigoroso com os factos.

Como alguém disse um dia, temos todo o direito a ter as nossas próprias opiniões, mas isso não nos dá o direito a ter os nossos próprios factos.

COMENTÁRIO 

Francisco Seixas Santos, A principal característica de um intelectual é o Carácter. O mesmo vale para o comentador político. Somos consócios. Não no Sporting – porque sou benfiquista desde que me conheço – mas no Clube do Carácter. Faz muitíssimo bem à mente ler escritos como este seu “Não foi penálti!”. Um inteligente contributo para a higiene mental. Faz sempre muita falta… Obrigado! (Já agora, acrescento que tive do outro lado da 2ª circular experiência em tudo semelhante à sua, mesmo em espaço designado por “catedral da Luz”… Provavelmente, ali como em tantíssimos outros lugares, a luz nem sempre está acesa.) Cumprimentos.

João Maria de Freitas Branco
Caxias, 19 de Fevereiro de 2022 


sábado, 12 de fevereiro de 2022

Guerra? -- Resposta a Irene Pimentel

 

A historiadora Irene Pimentel publicou ontem à noite, na sua página do Facebook, a seguinte interrogação:

Estamos à beira de uma guerra mundial?

Dei a seguinte resposta:

Guerra? Não, não é possível. Irene, estás mal informada. Se houvesse tão grande perigo não seria possível observar tão grande indiferença entre a nossa gente, incluindo a elite política. Durante toda a campanha eleitoral para as legislativas do passado dia 30 de Janeiro (há menos de duas semanas) não houve, que eu tivesse visto, um único líder político que tenha apresentado uma reflexão ou até uma mera referência ao conflito na Ucrânia; em nenhum debate ou entrevista se observou preocupação relativamente às consequências para Portugal de um conflito bélico envolvendo Rússia, EUA e restantes países membros da NATO, Bielorrússia e, obviamente, a Ucrânia, esse insignificante país europeu com 44 milhões de habitantes e uma área de 603 Km2. Portanto, está tudo bem – creio que é assim que se diz, na linguagem em voga. Podes ficar tranquila. Sentes-te preocupada por efeito de defeito profissional. És historiadora…; e logo historiadora especializada no século XX, o das grandes guerras… Saber história é maçador, porque a memória histórica injecta-nos preocupações, certamente infundadas, quando vemos os Estados mais poderosos do mundo a mobilizar as suas tropas, a exibir o arsenal bélico, a ameaçarem-se mutuamente, a falarem do seu poder nuclear. Esta coisa do conhecimento é uma maçada. Beijinhos, querida Irene.  

João Maria de Freitas Branco
12 de Fevereiro de 2022

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Desabafo democrático...


Não sei bem porquê, talvez por algum fenómeno ambiental, apetece-me declarar o seguinte: 

a Democracia aquartela os sujeitos que a repudiam e explicitamente a combatem; é esta uma sua essencial característica distintiva que, se muito não erro, lhe confere virtude. 

Simultaneamente, é dever de todo o autêntico democrata combater, de modo frontal, inequívoco e corajoso, todos os inimigos que, tirando partido das próprias liberdades democráticas, pretendam destruir a Democracia e as liberdades.

João Maria de Freitas Branco
10 de Fevereiro de 2022

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Rescaldo de uma jornada eleitoral

 

Deixo aqui um conjunto de breves impressões pessoais dos resultados de ontem. Carecem, por certo, de ponderação mais cuidada.

Para quem se situa na ala mais à esquerda, no espectro político nacional, o acto eleitoral de ontem traduziu-se no alcançar de um primeiro objectivo essencial: a reedição de uma maioria parlamentar norteada pelos valores da esquerda. No seu conjunto, PS, PCP, BE, Livre têm 129 deputados no hemiciclo (e vão ter mais). Uma confortável maioria absoluta que não deixa dúvidas quanto à inclinação política dos cidadãos portugueses.

Porém, o segundo objectivo principal não foi alcançado: o reforço da esquerda parlamentar anticapitalista (PCP e BE). Essa ala é um factor essencial para a vitalidade do nosso Estado de direito democrático. No entanto, nestas eleições, sofreu pesadíssima derrota que convoca cuidada reflexão crítica e autocrítica. A representação desta ala anticapitalista perdeu 20 dos 31 deputados que tinha! A extrema-direita passa a ter mais um deputado do que a soma dos deputados do PCP e do BE. O PCP teve a maior derrota eleitoral de sempre.

Como ontem escrevia o Francisco Assunção, antigo jornalista de O Diário e da Lusa, os erros tácticos do PCP e do BE «entram pelos olhos dentro». Resta saber se vai haver vontade de os reconhecer. Uma coisa é errar, outra é persistir no erro, replicando os mesmos desacertos. Algumas declarações das últimas horas fazem temer a revitalização da mentalidade espelhada na velha máxima: de derrota em derrota até à vitória final.

Outra derrota, com peso histórico, foi a que ditou o afastamento do CDS do hemiciclo. Trata-se de uma derrota da Democracia, e não apenas de um partido. A presença da democracia cristã na AR foi, desde a fundação da II República, um factor de enriquecimento do regime e da vida política nacional. Afirmo-o, sem hesitação e na óptica de uma esquerda antidogmática, dialéctico-racionalista, que é a minha. Pode soar como contradição na cabeça de alguns, mas não é, desde que haja inteligência antidogmática. Espero que o CDS, com a sua matriz democrata cristã original, esteja de regresso na próxima legislatura. Terá (com o actual PSD) papel relevante no combate à extrema-direita populista e antidemocrática.

Sinal de alerta: pela primeira vez desde Abril de 1974 há um grupo parlamentar inimigo do sistema democrático. Um partido de extrema-direita fascistóide, imoral, naturalmente antidemocrático, xenófobo e racista obteve 12 lugares no Parlamento. Nenhum democrata pode ficar indiferente.

Saúda-se o facto de o Livre, depois de um triste percalço e sendo representante de uma nova vertente da esquerda, que se autodenomina ecologista e europeísta, ter conseguido reeditar o bom resultado eleitoral de 2019. Aproveito para, publicamente, dar os parabéns ao Rui Tavares pela sua eleição como deputado da AR. Porque o conheço, sei que a sua presença no hemiciclo concorrerá para prestigiar o Parlamento.

João Maria de Freitas Branco
Caxias, 31 de Janeiro de 2022