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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Homenagem a José Esteves


JOSÉ ESTEVES 
Faleceu ontem, dia 17 de Novembro, o Prof. José Esteves. Um ser humano que se cumpriu, tendo sido um notável pedagogo do desporto. Como professor de educação física, fazia com que, através de uma original e profunda compreensão do sentido da prática desportiva, os seus alunos encontrassem caminhos para se tornarem Pessoa. Singular atitude pedagógica, para mais em tempos de ditadura salazarenta.

O Zé Esteves (como gostava de ser tratado) prestou-me valioso apoio quando tomei a iniciativa de fundar a Associação dos Antigos Alunos e Amigos do Liceu Nacional de Oeiras. Uma de várias coisas que motivam que lhe esteja sempre profundamente grato.

Aqui fica a minha sentida homenagem.

João Maria de Freitas-Branco
Caxias, 18 de Novembro de 2015

 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Nota de Esclarecimento



Desejo informar que a minha entrevista sobre o Verão quente de 75 que saiu na edição de ontem (Domingo, 15 de Novembro) do PÚBLICO – Revista 2, em muito pouco corresponde à longa entrevista que efectivamente concedi há já largos meses. O meu pensamento e as minhas reflexões sobre os históricos acontecimentos de 1975 foram banidos do texto publicado. Essas preterições podem, eventualmente, suscitar falsas deduções ou interpretações sobre a minha visão dos acontecimentos históricos. Entre a entrevista real dada e a magra parcela publicada há demasiada diferença (quantitativa e qualitativa). Sendo completamente alheio à opção editorial, não posso nem quero deixar de prestar este esclarecimento público, lamentando, do mesmo passo, a indesejável ocorrência.

[Ref.: “Especial – 25 de Novembro de 1975”, Revista 2, jornal PÚBLICO, 15 de Novembro de 2015; também publicado na edição online – www.publico.pt/revista2]
JMFB
Caxias, 16 de Novembro de 2015

 

domingo, 15 de novembro de 2015

Paris 13 de Novembro


 

Paris é a urbanização do programa do Iluminismo, a tradução desse programa em urbe. Por isso, quando Paris é ferida, é ferido o programa do Iluminismo ainda não executado na sua totalidade; quando Paris sangra, sangram os Valores das Luzes pelos quais infinitamente temos de lutar; sempre, sem limite temporal. Razão, Liberdade, Igualdade, Fraternidade são colocadas sob cominação.

 

Liberté

Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom

Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom

Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom

Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom

Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom

Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.
Paul Éluard

 

 

 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Momento histórico


Estamos a viver um momento político Histórico. Hoje, na Assembleia da República, dá-se um passo decisivo contra a imoralidade austeritária. Em nome da elevação moral, da dignidade, da liberdade e da honradez impõe-se irmos para a rua festejar a derrota dos agentes da imoralidade política e do seu governo que através do voto democrático cairá dentro de poucas horas no Parlamento. Eu estarei lá, na manifestação convocada pela CGTP para festejar o momento em que a esperança começa a ser devolvida à Nação. Pela Liberdade, contra a submissão! Pela moralização da política governamental!

 

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Caiu a Máscara



Estamos a viver um tempo politicamente interessante, mobilizador, cheio de atractivos, mas também muito perigoso, porque se adensam os riscos de total definhamento da democracia. Como pano de fundo temos uma séria crise da democracia que se tem vindo a intensificar com assustadora celeridade. A estruturação de uma ditadura financeira na Europa tornou-se evidente com o caso Grécia. Já não é necessária grande perspicácia política para compreender que a perda de soberania desagua na extinção da democracia efectiva no interior de cada pátria europeia.  

No espaço nacional, emergiu, de modo súbito, uma situação inédita na história desta nossa 2ªRepública: a hipótese de concretização da tão sonhada e apregoada unidade de esquerda. Este surpreendente agitar de águas em torno da procura de solução governativa, motivado pela lúcida atitude do PCP de viabilizar um governo minoritário do PS como primeiro gesto destinado a travar a onda antidemocrática gerada pela tão em voga ideologia do austeritarismo, parece-me concorrer para um promissor reavivar da chama da democracia.

Actuando de forma aparentemente concertada, PCP e BE desferem forte e certeiro golpe na tão nefasta quanto reaccionariamente empobrecedora política do “não há alternativa”. Toda esta agitação tem tido, para mim, entre outras, a virtude de possuir especial utilidade prática: pôr a nu o falso socialismo de muitos socialistas. Fez cair as velhas máscaras, deixando bem expostos os perfis ideológicos reais de gente que tem passado a vida a fingir que é de esquerda, que é socialista, que é contrário aos interesses do universo direitista da coligação PaF, quando na realidade pertence exactamente ao mesmo universo de interesses. Uma consolidada irmandade.

O exemplo mais exuberante deste útil efeito imediato das negociações do PS com os partidos situados à sua esquerda foi-nos oferecido pelo ex e pelo actual líder de uma central sindical, a UGT. João Proença e Carlos Silva apressaram-se a vir a terreiro manifestar o seu pavor. Assumiram protagonismo de solistas num coro de sujeitos mascarados de socialistas, onde melodiam sob a batuta de destacados dirigentes do PS, e até de putativos candidatos ao lugar de secretário-geral do partido. Um coro que agora faz triunfante tournée pelos canais televisivos, bem como por todo o restante território da comunicação social.

 Após os mais agressivos quatro anos de política contra o bem-estar dos trabalhadores, depois de uma política que gerou a maior transferência de riqueza do trabalho para o capital de que há memória no Portugal contemporâneo, estes sujeitos utilizadores do disfarce de representantes dos trabalhadores, exemplo daquilo a que chamo o kitsch político, vêm afirmar que a única boa solução é manter no poder os autores dessa política, através de uma aliança do PS com a coligação de direita. O que, a concretizar-se, consistiria também grave traição ao sentido de voto dos socialistas autênticos, que foram votar no passado dia 4 de Outubro com o objectivo prioritário de varrer do poder esses inimigos dos trabalhadores e da própria democracia, pois o discurso do “não há alternativa” é, por definição, uma forma de negar a possibilidade de existir uma sociedade livre e democrática. É a negação da possibilidade de escolha por parte do cidadão. Óbito da democracia.

A esperançosa unidade de esquerda pode acabar por não se concretizar; mas a tentativa de a edificar teve já este grande mérito: fazer cair as máscaras. Um belo contributo para o premente combate ao kitsch político.

João Maria de Freitas-Branco
[Artigo de opinião, jornal PÚBLICO, edição de Domingo, 18 de Outubro de 2015,  p.52]

domingo, 11 de outubro de 2015

Notas de Autor 5

Transcrição da minha participação no programa radiofónico "Notas de Autor", na TSF, emissão do dia 1 de Outubro:
 
 
Sempre fui um crítico opositor do pensamento por compartimentos estanques. Por isso, na nota de hoje quero recomendar uma obra, acabadinha de chegar aos escaparates das livrarias, e que é exemplo da negação dessa persistente tendência para a arrumação em compartimentos estanques. Continua a imperar a ideia de que ciência e emoções se excluem mutuamente, e que o romantismo, enquanto movimento cultural enaltecedor do ideal de subjectividade, é coisa absolutamente contrária, oposta, à Ciência, à objectividade científica. Ora, a obra que vos quero recomendar, da autoria de Richard Holmes, premiada pela Royal Society, e intitulada “A Era do Deslumbramento”, parte da noção de espanto para demonstrar a existência (e cito) de «uma ciência romântica, do mesmo modo que existe uma poesia romântica». Numa prosa atraente, o autor faz uma espécie de romance biográfico da ciência realizada entre a chegada do botânico Joseph Banks ao Taiti, em 1769 (integrado na expedição de James Cook), e a célebre viagem de Darwin a bordo do Beagle, iniciada em 1831. No centro da narrativa está também a sedutora figura do músico astrónomo William (ou Wilhelm) Herschel, bem como as primeiras experiências de voo, com balões (o balonismo, os “globos aéreos”, como então se dizia).

Felicito a Gradiva por mais esta feliz iniciativa editorial que é também um gesto corajoso, dado não ser fácil em tempos de crise lançar no acanhado mercado português uma obra com cerca de 700 páginas e bastante iconografia.

Como o trabalho científico de William Herschel inspirou o compositor Joseph Haydn, deixo-vos ao som da oratória “A Criação” (Die Schöpfung). Sugestão musical para acompanhar a leitura proposta.
[TSF, 1 de Outubro de 2015]

sábado, 3 de outubro de 2015

Notas de Autor 4

Transcrição integral da minha participação na emissão de ontem do programa radiofónico "Notas de Autor", na TSF:


A minha nota de hoje é um alerta – porque sou um autor-cidadão preocupado, muito preocupato.

Estamos a viver um período em que se misturam dois actos eleitorais (legislativas e presidenciais)que, a meu ver, são os mais importantes da história desta nossa 2ªRepública desde 1975/76.

O austeritarismo promove a desumanização, destruindo os valores que são os pilares do nosso ideal de civilização. Cortar pensões, reduzir salários, criar pobreza, abalar o Estado social são formas de atentar contra a Vida. E quando o amor à vida decai e o poder é exercido por quem já não ama a Vida, o que acontece é que o Mal germina e institucionaliza-se.

Para que se varra do poder os inimigos da Vida e se consolide uma consciência cívica que impeça o regresso do Mal, do mal organizado, institucionalizado, esse mal extremo de que falava Hannah Arendt, é importante a memória. Recomendo, por isso, uma visita ao Museu do Aljube, recentemente inaugurado e que é, em grandíssima parte, fruto do trabalho do NAM – Associação Cívica Não Apaguem a Memória, de que sou director.  
TSF, "Notas de Autor", 2 de Outubro de 2015