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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Sampaio da Nóvoa: o Candidato, o PS e as Eleições



João Maria de Freitas-Branco

 

SAMPAIO DA NÓVOA: o Candidato, o PS e as Eleições

-- uma reflexão breve sobre o momento político --

 

Como é do conhecimento público, sou, desde a primeira hora, apoiante da candidatura de António Sampaio da Nóvoa – um apoiante activo, militantemente envolvido na campanha e membro da Comissão Nacional de Candidatura. Isso em nada me impede de reconhecer a inteligência crítica presente em algumas intervenções públicas, como, por exemplo, no sério comentário do meu amigo e grande activista Henrique Sousa, assim como opiniões como a hoje expressa na manchete do jornal PÚBLICO (edição de 7/8/15). Reacção talvez causada por uma forma de dizer, usada, nomeadamente, na muito citada entrevista radiofónica de António Sampaio da Nóvoa no programa Terça à Noite, da Rádio Renascença, que pode ter dado a entender algo que não corresponde de facto ao sentimento político do candidato a Presidente da República que merece o meu franco apoio. Num singelo esforço de esclarecimento, estou em condições de afirmar aqui, peremptoriamente, e uma vez mais, que a candidatura de Sampaio da Nóvoa germinou em terreno exterior ao espaço político-partidário e continuará sempre a desenvolver-se nesse espaço; ou seja, é uma candidatura independente dos partidos e nunca deixará de o ser. Mas não é uma candidatura contra os partidos nem hostil a um partido como aquele que foi referido na entrevista do programa da Rádio Renascença, gerando alguma controvérsia. Os próximos actos eleitorais que vão ter lugar na nossa violentada Pátria, legislativas e presidenciais, são os mais importantes da história da Democracia de Abril, da nossa 2ª República. Penso até que em conjugação com a intervenção austeritária – as políticas imorais impostas pela Troika e pelo subserviente governo PSD/CDS – as próximas eleições (legislativas e presidenciais) irão constituir um marco histórico, perfilando-se como momento fundador da 3ª República portuguesa ou de uma nova época não democrática. Estamos a viver uma fase decisiva, depois do golpe de estado perpetrado pelo Eurogrupo na Grécia e após a estruturação da Ditadura financeira na ainda chamada União Europeia, sob a batuta do meu bem conhecido Wolfgang Schäuble, no passado dia 12 (ou 13) de Julho. A suspensão da Democracia na Europa impõe nova e enérgica táctica política por parte das forças de esquerda. A Ditadura financeira obriga a uma mudança no plano da acção prática interventiva. É urgente repensar o modo de actuar a partir da esquerda.

Ao contrário do que tem sido afirmado por muitos comentadores, o processo eleitoral para a Presidência da República está a ser politicamente muito mais relevante do que a campanha para as legislativas, porque tem transportado consigo mais novidade, mais elementos de ruptura, mais densidade de ideias, mais qualidade problematizadora, maior elevação cultural, intelectual e moral. Isso deve-se principalmente à qualidade humana e ao perfil de pessoas como António Sampaio da Nóvoa ou Henrique Neto (os dois principais candidatos reais ou efectivos, não putativos) que contrastam com a imagem do político kitsch que para desgraça nossa e do país tem dominado a ribalta da cena política nacional e europeia nestes últimos anos – deficientes morais, gente tão incrivelmente menor como aqueles ministros que compram cursos em universidades de duvidosa reputação ou os altos responsáveis da União Europeia que apresentam teses universitárias plagiadas para celeremente adquirirem títulos académicos e currículo. Expurgar a vida política desse kitsch, varrer esse lixo imoral que a cada instante nos insulta, nos agride, nos revolta, nos indigna e escandaliza é absoluto imperativo da acção cívica que engloba os dois processos eleitorais em curso no nosso espaço pátrio – mas também em outros torrões do velho continente. O poder, cá e em demasiados cantos da Europa, não pode permanecer na mão de gente que apequena, de seres que são agentes da mentira, da indecência, da menoridade. A mentira (velha e profunda questão filosófica) é um problema central da vida sociopolítica do nosso mundo hodierno. Indicador claro daquilo que não me canso de gritar: o grande problema do mundo contemporâneo é de natureza Cultural. E o que acima de tudo está em causa é uma escolha entre o que apequena e o que engrandece, entre o que nos puxa para cima e o que nos empurra para baixo, entre Verdade e Mentira (o kitsch), entre a Liberdade servidora da Vida e a Dependência servente da Morte, sendo esta (a dependência mortífera) o que nos amarra ao medo, à estupidez e à menoridade de que Kant nos falou, e aquela o oposto disto, como nos explicou um outro filósofo de igual calibre mental, mas com costela lusitana, chamado Bento Espinosa. É isto que verdadeiramente está em jogo. Não se deixem ir na cantiga matraqueada do deficit económico-financeiro; o deficit que verdadeiramente importa é o de Elevação. Questão de Cultura e não de finanças. O voto em António Sampaio da Nóvoa é um voto que concorre para a superação desse deficit essencial.

Discordo em absoluto da tese que volta a ser reafirmada na edição de hoje do jornal PÚBLICO, num extenso trabalho jornalístico não assinado, deixando supor que é a posição da direcção editorial desse periódico de referência no quadro da nossa comunicação social. A dita tese, subscrita por muitos comentadores, por fazedores de opinião e até por membros da própria candidatura de Nóvoa, pode enunciar-se nos seguintes termos: só pode ganhar uma eleição presidencial quem tiver o apoio de um grande partido político representativo da tradição do regime; assim sendo, dada a tese como demonstrada, Sampaio da Nóvoa jamais será Presidente da República se não contar com o apoio do PS. Quem advoga esta visão parece-me não estar a percepcionar a quantidade de mudança que está a ocorrer no universo político e na generalidade das sociedades europeias. Os partidos tradicionais são realidades cada vez mais tóxicas. Eleitoralmente tóxicas. As próximas eleições presidenciais representam uma mudança profunda, aliás já sinalizada em eleições anteriores (os casos Nobre e Alegre, na primeira candidatura, foram os primeiros sintomas nítidos). Que mudança é essa? Em que consiste? No seguinte: a emergência da figura do candidato independente como elemento visivelmente dominante. Dito de forma mais prosaica, é o fim ou a decadência do cozinhado partidário de candidatos, da panela condimentada, bem temperada e aquentada, com maior ou menor brandura, num qualquer largo, seja o do Rato ou outro. Até o putativo candidato Marcelo Rebelo de Sousa é, no fundamental, uma figura que se apresenta como sendo independente, mesmo sabendo-se da sua filiação e mesmo que venha, ou viesse, a ser formalmente apoiado pelo PSD e pelo CDS. Na realidade, ele é olhado pelo eleitor como candidato não partidário e, se calhar, pelas características idiossincráticas do ser humano em questão, até será sujeito não partidarizável, ou seja, impossível de partidarizar. Causa maior do evidente distanciamento que as actuais direcções partidárias direitistas têm cultivado com abundância em relação ao Professor. O clássico horror ao vazio não afecta os partidos, mas o horror à imprevisibilidade e à indocilidade é-lhes endógeno.

Para além do que acabo de afirmar, seja-me permitido alertar para o facto de a enunciada tese estar carenciada de autêntica demonstração, racionalmente fundada. Nisso reside o primeiro motivo da minha discórdia ou, no mínimo, da minha forte desconfiança em relação à sua efectiva validade. Seja-me permitido recordar que Manuel Alegre obteve melhor resultado eleitoral quando se candidatou sem apoios partidários do que quando contou com o apoio expresso de dois partidos com assento parlamentar (PS e BE). Agora, após todos estes anos em que o inquilino do Palácio presidencial foi um servo da indecente governação austeritária, é natural e bem provável que o cidadão eleitor tenha ainda maior apetite de independência. Além do mais, e não menos relevante, na minha óptica, é o facto de qualquer candidato honesto sentir o imperativo inadiável de reconquistar a participação cidadã, fazendo de cada adulto português um autêntico cidadão praticante, como gosto de dizer. Por outras palavras: qualquer candidato que, como António Sampaio da Nóvoa, se distinga pela sua seriedade, deseja trabalhar incansavelmente para trazer de volta à vida política, à acção cívica interventiva e consequente, todos aqueles milhões de cidadãos abstencionistas que nas últimas presidenciais constituíram a maioria absoluta (52%!). Esse esforço, que é obrigação ética do candidato, ao que tudo indica não tem muito a ganhar com a proximidade de coisas que não expedem confiança. Partidos, como o PS, que têm frequentado os corredores do poder nas últimas décadas incluem-se nesse grupo de coisas. Infelizmente. Daí que a independência seja um factor de higiene muitíssimo aconselhável, para já não dizer desejável. E é com independência que «precisamos de construir a participação de todos na vida pública» como, por feliz coincidência, acabou de dizer o meu candidato, António Nóvoa, em intervenção pública feita enquanto eu já estava entregue a este labor de escrita.

Também não vejo que haja motivo para as ansiedades referidas na análise jornalística hoje publicada, quando no próprio texto opinativo se dá a conhecer que no interior da direcção do Partido Socialista há significativo número de indivíduos defensores de um apoio oculto à candidatura de Rui Rio (!). Terá um candidato assumidamente de esquerda que se preocupar com o apoio de gente de direita que por equívoco ou oportunismo persiste em estar inscrito num partido que ostenta no nome o vínculo ao Socialismo? Para entender estas desavergonhadas contradições, para perceber o escandaloso silêncio do SPD perante a prática antidemocrática de Schäuble, o decaimento dos partidos socialistas/sociais-democratas/trabalhistas, ou a falta de nervo do PS cá da casa, deploravelmente ancorado na inacção perante gestos democraticamente inadmissíveis como o do Sr. Martin Schulz na véspera do referendo na Grécia, se quiserem perceber o que se passou e nos conduziu a este lamentável estado de empobrecimento (cultural, moral, político, intelectual, económico), recomendo que vejam o magnífico filme-documentário “O espírito de 45”, realizado por Ken Loach e posto ontem à venda no mercado português (edição em DVD).

Espero que a candidatura de António Sampaio da Nóvoa possa contribuir para puxar para o terreno da verdadeira alternativa política ao austeritarismo antidemocrático um partido como o PS, com a importância que inegavelmente tem na nossa sociedade. Cabe aos partidos que se opõem à actual política governamental, ao austeritarismo imoral, decidirem livremente quem são os candidatos que desejam apoiar nas eleições presidenciais. O candidato António Sampaio da Nóvoa nunca irá bater à porta de nenhum partido com um pedido de apoio. A independência é e será sempre um pilar essencial desta candidatura. 

«Eu nunca, em momento nenhum, fiz apelos ou desafios a quem quer que seja, ao partido, seja qual for, para que se pronuncie ou deixe de se pronunciar. Eu respeito o tempo dos partidos, têm a sua lógica própria, as suas estratégias, as suas dinâmicas",
António Sampaio da Nóvoa, declaração proferida em Tomar, no passado mês de Julho.

 

João Maria de Freitas-Branco

Caxias, 7 de Agosto de 2015

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Militância antidogmática

Não foi por mera casualidade que aqui coloquei (Facebook), no agora já findo mês de Julho, um curto mas precioso documento audiovisual em que o filósofo inglês Bertrand Russell nos lega dois sábios recados, um de natureza intelectual outro de teor moral. O actual “caso Grécia”, de que tanto do nosso existir depende, tem trazido à ribalta variegadas utilidades, sendo uma delas o tornar evidente, mais nítido ou, na pior das hipóteses, menos disfarçado um conjunto de fenómenos/verdades que nos afectam enquanto andamos nesta azáfama do viver. Anoto aqui dois deles, por estarem inter-relacionados: 1) a extinção da Democracia, da autêntica, no interior da ainda chamada União Europeia, visivelmente governada por inimigos dela – Democracia autêntica –, dominada por gente consequentemente hostil à racionalidade crítica, à atitude céptica e crítico-tolerante caracterizadora do espírito científico; 2) o dogmatismo e o sectarismo de esquerda são os melhores aliados da governação de direita e do esforço para a sua perpetuação, semeando compreensível sorriso no rosto dos agentes do poderio. Por cá, os senhores do pensamento político e da prática (des)governativa-sem alternativa, que encabeçam a coligação eleitoral PSD/CDS, adoram esses seres que encarnam a esquerda imaculada, a pureza comunista, que são os sacerdotes laicos do cânone político de esquerda. Tenho observado a franca alegria com que os cidadãos direitistas têm acolhido o recente fenómeno, espoletado pelo “caso Grécia”, da renovada proliferação dessa “pureza” dogmática. Dito isto, e com a memória posta nas lúcidas recomendações de Russell que aqui depositei no passado dia 27, apetece-me citar uma frase do grande Tchékhov que me foi trazida há bem pouco pelo meu muito estimado amigo-escritor Mário Carvalho (Amigo solidamente real, embora também aqui virtual, neste espaço do Face). Cito dando-me à liberdade de fazer pequeno acrescento assinalado com o auxílio do itálico. Então, aqui vai a frase do grande russo: «A arrogância dogmática e sectária é uma qualidade que fica bem aos perus».

[Texto inicialmente publicado na minha página do Facebook, no dia 5 de Agosto de 2015]

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ditadura Financeira


Será que a madrugada do dia 13 de Julho de 2015 vai ficar na história como o momento da criação de uma nova ditadura europeia? Temo que sim. Parece-me estar instituída a ditadura financeira. A Europa está a ser governada por inimigos da Democracia. As eleições tornaram-se uma fraude, um ritual fraudulento, e a esquerda europeia e mundial terá que repensar a sua forma de intervenção política.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Discurso


DISCURSO DE JOÃO MARIA DE FREITAS-BRANCO

NA

INICIATIVA DE SOLIDARIEDADE COM A GRÉCIA

Fórum Lisboa, 8 de Maio de 2015

 

 

Caros Amigos,

O que se está a passar na Grécia – após a vitória eleitoral do Syriza e o início de uma acção governativa contra a imoralidade política baptizada de austeridade -- não é assunto que apenas diga respeito aos gregos. Não. A luta deles é a nossa luta. É o combate dos homens de carácter que se recusam a aceitar uma sociedade em que o direito a viver de forma humanamente digna é vedado a milhões de cidadãos-pessoas. É uma luta em que se decide o nosso futuro.

Os gregos progressistas transportam, bem erguida, a bandeira da Esperança e do combate pela construção de uma vida decente, em que a igualdade se afirme em detrimento da desigualdade causadora de injustiça.

 

Quero aqui, de forma necessariamente muito sucinta, focar quatro aspectos: são três negações para uma afirmação.

 

Primeira negação: a negação dos políticos kitsch -- estes que temos no poder, aqui no nosso torrão, bem como em grande parte da Europa.

A essência do kitsch consiste na negação da Verdade, no existir na mentira. O governante kitsch é aquele que cultiva a cosmética política, a farsa, o ilusionismo ideológico, a arte da prestidigitação do verbo, valorizando o discurso publicitário, os slogans, a superficialidade lúdica, a infantilização. É um ser que tem horror à gravitas, advogando a acanhada cultura da facilidade. O político kitsch, chame-se ele Silva ou Coelho, é um agente da cretinização, da massificação mediocrizante, do abaixamento, da negação dos mais nobres valores da nossa civilização, da anulação da vida na verdade (do viver na verdade).

Por isso, é preciso varrer esse tipo de político da nossa sociedade.

Os gregos já começaram a varrer. Já iniciaram esse trabalho de limpeza. Obrigado! Obrigado Grécia!

 

Segunda negação: a negação da imoralidade; a negação da política divorciada da Moral.

Urge pôr termo a uma política que conduziu a sociedade a um estado de saturação moral por efeito da banalização da imoralidade – tendo tornado o corpo societal, assim como o indivíduo cidadão que o compõe, apático, incapaz de reagir, incapaz de dissolver novas agressões. É como na química, quando temos um líquido saturado e nele depositamos mais uma porção da mesma substância. Também nas sociedades há uma espécie de lei química, uma lei da saturação psicossocial que define um ponto a partir do qual o cidadão comum deixa de reagir a um novo escândalo ou agressão moral, seja a revelação de mais um acto de corrupção lesivo do interesse público, o vergonhoso elogio solene de um prevaricador feito pela boca do chefe do Governo, ou o simples despautério da edição de uma falseada biografia propagandística do primeiro-ministro.

A prioridade racional é o pagamento dos salários e das pensões e não o pagamento aos credores. Urgente é defender os necessitados e não os abastados. A prioridade é o trabalho e não o lucro privado dos grandes accionistas da banca; é dar emprego a quem não o tem, pagar salários justos a quem não os tem, dar às pessoas condições para que possam ter uma vida decente, verdadeiramente humana.

É isso a LIBERDADE. A autêntica.

Bento Espinosa, esse grande filósofo semiportuguês, dizia já nos recuados anos Seiscentos que a Liberdade é a capacidade de não vivermos dependentes do medo, da estupidez e do desejo fútil. Ou seja, se assimilarmos este lúcido pensamento espinosista, a Liberdade é precisamente o contrário daquilo que tem vindo a acontecer nas nossas vidas, na existência concreta dos seres humanos cidadãos de uma Europa em processo de decomposição e de decaimento ético-político.

Os gregos progressistas já iniciaram esta acção reconciliadora da política com a moral. Obrigado! Obrigado Grécia!

 

Terceira negação: a negação do aventureirismo político – de que o Syriza tem dado magnífico exemplo.

A compreensão racional e realista de que este não é o tempo da Revolução. Da grande ruptura que nos faça sair de um modo de produção necessariamente causador de Desigualdade, de injustiça social.

A defesa e preservação de um capitalismo regrado, devidamente regulado, que não seja o obsceno casino que agora de novo temos, trazido pela mão da imoralidade política do neoliberalismo à solta, são, neste aqui e agora, gesto mais progressista do que a tentativa de ruptura, por mais paradoxal que possa parecer aos olhos de muitos dos que pensam o mundo olhando-o a partir da esquerda. O tempo presente transporta ameaças tão graves que tornam natural a união dos homens de bom senso, das pessoas decentes e de carácter, independentemente do seu posicionamento no espectro político-partidário democrático – o que não implicando a anulação nem a perda de sentido da dualidade esquerda/direita não deixa, porém, de promover uma relativização conjuntural e um atenuar das contradições em torno de certos objectivos concretos que possuem valor civilizacional largamente consensual. O actual governo grego, na sua forma de coligação, é exemplo do que aqui advogo.

As ameaças que se perfilam diante de nós fazem com que neste momento seja muito perigoso desestabilizar o capitalismo. Porque isso pode facilitar o regresso da Peste, de que sabiamente falava Albert Camus logo após a vitória sobre o nazismo e o encerramento de Auschwitz, projectando um grito de alerta para as gerações futuras. (Deixem-me recordar-vos que, por pertinente coincidência, hoje mesmo, dia 8 de Maio, celebramos o 70º aniversário da histórica vitória sobre o nazismo). Pode abrir a porta ao grande Mal, ao Mal extremo conceptualizado por Hannah Arendt em gesto de reflexão autocrítica sobre o Holocausto. Sim, porque “o bacilo da peste nunca morre nem desaparece”. Permitam-me que deixe este alerta camusiano aos mais jovens, pois não me parece estarem ainda conscientes da proximidade da ameaça do Mal que se tem vindo a reestruturar.

Obrigado Syriza pelo exemplo de racionalidade e de sensatez política!

 

Três negações para uma afirmação; a seguinte:

A afirmação de sentido. A urgência de dar sentido à nossa existência é a questão central do nosso tempo. Porque, como avisava F. Nietzsche já no fim da sua vida criativa, o maior perigo é a ausência de sentido existencial; uma ausência que continuamente alimenta a pulsão de morte.

 

Na Grécia, as forças progressistas, agora finalmente no poder, têm sido exemplo de doação de sentido. Obrigado Grécia!

 

Para que os actos eleitorais não sejam uma farsa, um mero ritual folclórico de conservação do mesmo, actos esvaziados de sentido e inconsequentes enquanto factor de transformação; para que a Democracia não deixe de fazer sentido, para que não se extinga na espiral da auto-negação e sob a asfixia da chantagem do Poderio, das superiores instâncias europeias e de governos de países supostamente aliados, para que nada disto aconteça, é indispensável que a vontade do povo grego seja respeitada e que o governo do Syriza possa cumprir o programa sufragado pondo fim à indecente política de austeridade que empobreceu o país, humilhou o povo e destruiu o Estado social derramando injustiça.

O problema maior com que nos debatemos hoje não é de natureza financeira ou económico-financeira, como a todo o instante nos querem fazer acreditar. O grande problema do nosso tempo é de natureza cultural; é o problema da cultura.

Há crise financeira? Claro que sim; há crise económica? Sim, há; mas a crise maior é a crise cultural, traduzida numa perda geral de densidade e no primado da superficialidade, do prazer fútil, do imediatismo, da patetice alegre, do facilitismo, de tudo isso que gera abaixamento. É a crise dos valores civilizacionais e morais, causadora da tal perda de sentido existencial. O deficit que verdadeiramente nos deve desassossegar não é aquele de que diariamente nos falam os políticos e os economistas mediatizados, mas sim o deficit de elevação, o deficit de forças que, intelectual e moralmente, nos puxem para cima dando sentido ao nosso existir.

É aí que se trava a grande batalha decisiva: a luta em defesa da pulsão de vida contra a pulsão de morte.

 

VIVA A VIDA!

Viva o Povo grego!

Viva a solidariedade entre Portugal e a Grécia

 

João Maria de Freitas-Branco

Lisboa, 8 de Maio de 2015

 

 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sobre a candidatura de Sampaio da Nóvoa


Ataques ou críticas há que denigrem mais o autor do que o visado. Sabemo-lo. E sabemos também que em tais casos tanto o criticador como o seu discurso crítico, pelo exagero da inconsistência, pelo desequilíbrio, pela embriaguêz romântica do verbo, pela ausência de válida fundamentação racional, acabam por não merecer qualquer reacção que não seja o absoluto silêncio. Disso tivemos exemplo na última página da edição de hoje de um jornal de referência presente nas bancas, em mais um dia de homenagem internacional aos Trabalhadores do mundo inteiro [edição do Público de 1/5/15].

Mas como, no caso vertente, pude verificar ser percutida a mesmíssima tecla já múltiplas vezes usada desde a noite da última quarta-feira por comentadores políticos, colunistas e outros fazedores de opinião – e não sendo nem querendo ser mero apoiante passivo da candidatura de Sampaio da Nóvoa, preferindo assumir o papel de modesto operário da construção política que agora se intenta executar, e vendo na defesa da Verdade uma forma de homenagear os Trabalhadores – volto a este amplo espaço público da blogosfera e das redes sociais com o renovado propósito de reafirmar que a candidatura de Sampaio da Nóvoa germina em solo exterior ao das coutadas partidárias, buscando entrosar dinâmicas sociais conducentes à reformatação da visão política. Uma reformatação da acção política na dupla dimensão do imaterial e do material.

Afirmar que esta candidatura foi “fabricada por meia dúzia de maiorais” de um partido, seja ele qual for, é esgrimir usando a mais pura mentira. Ora, a mentira – questão filosófica maior -, essa sim, qual vírus incontroladamente replicado, é que alastra no interior do corpo da Democracia, causando grave lesão, semeando patologia e dando perigosíssimo e humilhante sinal da degradação da nossa vida pública. Os utilizadores da mentira, como o criticador/comentador que aqui me trouxe, fazem com que a análise política fique despida de moral. 

João Maria de Freitas-Branco

Caxias, 1 de Maio de 2015

quinta-feira, 30 de abril de 2015

1 de Maio de 1975


REVELAÇÕES SOBRE O HISTÓRICO 1º DE MAIO DE 1975

Amanhã [hoje, sexta-feira], dia do Trabalhador, a RTP/Antena 1 vai transmitir, logo após o noticiário das 10h da manhã (com repetição às 23h), um programa de rádio, realizado pela conceituada jornalista Ana Aranha, sobre o 1º de Maio de 1975, data que constituiu um marco na história do Portugal contemporâneo, em virtude dos acontecimentos ocorridos durante essa jornada. Sou um dos participantes no programa, na boa companhia do Joaquim Vieira (biógrafo de Mário Soares) e de Américo Nunes, antigo dirigente da Intersindical. Estava prevista a participação do Dr. Mário Soares, principal protagonista dos acontecimentos que vão ser debatidos, numa perspectiva historiográfica, tendo por objectivo o aprofundamento do conhecimento de alguns acontecimentos que estiveram na base da construção da 2º República. Quatro décadas depois resolvi revelar publicamente um conjunto de factos ainda desconhecidos.

Convido todos os Amigos, principalmente os que se interessam por História, a acompanharem amanhã a referida emissão radiofónica da Antena 1.

Trata-se de uma “Emissão Especial Antena 1: 1º de Maio de 1975”, um programa de Ana Aranha.

 

Publicado no FACEBOOK, no dia 30 de Abril de 2015.

terça-feira, 24 de março de 2015

Esclarecimento sobre a minha posição política nas eleições presidenciais


Quando hoje entrei no Facebook quase me assustei. Não me passou pela cabeça que o simples gesto de reencaminhar a notícia da sessão de apresentação de uma candidatura pudesse motivar as reacções que aqui vim encontrar. A Helena Pato fala do meu “entusiasmo”. Entusiasmo? Desculpa Lena, mas não me parece que a palavra se aplique. Vou tentar esclarecer tudo. Mas apresso-me já a tranquilizar (espero!) a Irene, a Lena, o Rui Nery, o Rui Andrade, queridas(os) Amigas(os) reais e não apenas virtuais (facebookianos) –, e faço-o com a seguinte declaração solene: sou apoiante inequívoco de outro candidato, pessoa que ainda não anunciou a sua candidatura e cujo nome, apenas por isso, aqui não cito nem devo citar. O Henrique Neto tem conhecimento dessa minha clara escolha política desde a primeira hora. Esse facto, no entanto, julgo eu, não me impede de considerar o Henrique Neto um digno candidato. Convirá não confundir coisas distintas. Uma coisa é considerar que fulano é a pessoa mais indicada para ocupar o cadeirão de Belém; outra, totalmente diferente, é achar que sicrano merece ser candidato embora eu não o apoie. Posso ajudar a viabilizar uma candidatura mas não votar nesse candidato, não participar na sua campanha eleitoral, não subscrever o programa político, etc. Posso ser movido, por exemplo, por uma profunda e sincera amizade pessoal, pela consideração que o sujeito em causa me merece, independentemente da quantidade de divergência política que possa existir num quadro de sã convivência democrática. É que, acreditem, não sou mesmo apologista de candidaturas únicas, filhas do pensamento único. Defendo exactamente o oposto: a riqueza da diversidade. Por isso, na base deste raciocínio lógico, até podia ajudar a noticiar e a concretizar a candidatura de alguém que fosse meu claro adversário político mas simultaneamente meu Amigo, merecendo-me o maior respeito e consideração. Posso estimar um ser humano sem estimar o seu ideário político – quem conheça o meu círculo de amigos, no decorrer da vida, não terá dificuldade de encontrar exemplos demonstrativos desta realidade. No entanto, disso não é exacto exemplo o caso vertente.

Isto nos conduz a outra questão.

Pode ser cegueira minha, mas no contacto pessoal que até hoje tive com o Henrique Neto nunca observei o “direitismo” referido pela Irene e pelo Rui… Como é do conhecimento público, sou, tal como o próprio H.Neto, co-fundador do MDR, movimento cívico que tem como único objectivo alterar a lei eleitoral de modo a pôr fim ao despautério da partidocracia, com listas de candidatos impostos de cima para baixo pelas cúpulas partidárias. Tenho trabalhado com ele no âmbito deste movimento e, na base dessa experiência, só posso considerá-lo um homem de esquerda, mas também uma pessoa séria, integra, que ao longo de toda a vida se movimentou politicamente entre o PCP e a chamada “esquerda do PS”. Recordo que o H.Neto começou a trabalhar aos 14 anos(!) como operário, que pertence a uma família de operários da indústria vidreira da Marinha Grande, foi militante do PCP e já depois, aos 40 anos d idade, tornou-se empresário, criando a bem sucedida Iberomoldes (empresa de dimensão internacional, que foi considerada, no seu sector, uma das principais do mundo). Em vários momentos teve a coragem de denunciar o jogo de interesses no interior da Assembleia da República, actos de corrupção, assim como criticou de forma desassombrada a direcção socratista (recuso-me a escrever socrática) do seu próprio partido. Comportamento incomum que me merece consideração.

Última questão: embora não vá votar H.Neto, nem o vá apoiar na campanha eleitoral, aprecio na sua candidatura o esforço para que a Presidência da República não esteja «condenada a ser uma mera extensão da representação partidária». Além disso, como candidato, H.Neto continuará a bater-se por uma causa que em conjunto abraçámos; a já referida mudança da lei eleitoral. Também reconheço nesta candidatura um esforço de moralização da vida política, de combate à corrupção (elemento incompatível com a democracia autêntica). Uma prioridade absoluta. A relação pessoal e este conjunto de concordâncias farão com que eu esteja presente na sessão da próxima quarta-feira, embora seja apoiante de outra candidatura que em devido tempo virá a ser anunciada.

Terei sido claro? Terei conseguido tranquilizar os Amigos comentadores? Espero que sim.

A todos agradeço os comentários aqui deixados. Agradeço principalmente à Irene, à Lena, aos dois Ruis (Nery e Andrade) porque com as suas palavras me ajudaram a consciencializar os equívocos involuntariamente por mim semeados. Se foram levados a ver, a pensar, a sentir o que aqui expressaram, a responsabilidade (a culpa, como é uso dizer-se em espaço de influência católica) só pode ser minha e de mais ninguém.  

Agora, tenho que o dizer já, é inevitável que depois do aqui afirmado fique a pairar uma tremenda dúvida: será que me vão trucidar quando souberem quem é de facto o meu candidato? Quando ficarem a conhecer quem é a pessoa em quem vou votar, que vou apoiar activamente durante a campanha eleitoral e com quem até já estou a colaborar? Será que vou voltar a desiludi-los? Fiquemos por enquanto neste suspense…

Beijos e abraços!