Será que a madrugada do dia 13 de Julho de 2015 vai ficar na
história como o momento da criação de uma nova ditadura europeia? Temo que sim.
Parece-me estar instituída a ditadura
financeira. A Europa está a ser governada por inimigos da Democracia. As
eleições tornaram-se uma fraude, um ritual fraudulento, e a esquerda europeia e
mundial terá que repensar a sua forma de intervenção política.
segunda-feira, 13 de julho de 2015
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Discurso
DISCURSO DE JOÃO MARIA
DE FREITAS-BRANCO
NA
INICIATIVA DE
SOLIDARIEDADE COM A GRÉCIA
Fórum Lisboa, 8 de Maio
de 2015
Caros Amigos,
O que se está a passar na Grécia – após a vitória eleitoral
do Syriza e o início de uma acção governativa contra a imoralidade política
baptizada de austeridade -- não é assunto que apenas diga respeito aos gregos.
Não. A luta deles é a nossa luta. É o combate dos homens de carácter que se
recusam a aceitar uma sociedade em que o direito a viver de forma humanamente
digna é vedado a milhões de cidadãos-pessoas. É uma luta em que se decide o
nosso futuro.
Os gregos progressistas transportam, bem erguida, a bandeira
da Esperança e do combate pela construção de uma vida decente, em que a
igualdade se afirme em detrimento da desigualdade causadora de injustiça.
Quero aqui, de forma necessariamente muito sucinta, focar
quatro aspectos: são três negações para uma afirmação.
Primeira negação: a negação dos políticos kitsch -- estes que temos no poder, aqui
no nosso torrão, bem como em grande parte da Europa.
A essência do kitsch
consiste na negação da Verdade, no existir na
mentira. O governante kitsch é
aquele que cultiva a cosmética política, a farsa, o ilusionismo ideológico, a
arte da prestidigitação do verbo, valorizando o discurso publicitário, os slogans, a superficialidade lúdica, a
infantilização. É um ser que tem horror à gravitas,
advogando a acanhada cultura da facilidade. O político kitsch, chame-se ele Silva ou Coelho, é um agente da cretinização, da
massificação mediocrizante, do abaixamento, da negação dos mais nobres valores
da nossa civilização, da anulação da vida na
verdade (do viver na verdade).
Por isso, é preciso varrer esse tipo de político da nossa
sociedade.
Os gregos já começaram a varrer. Já iniciaram esse trabalho de
limpeza. Obrigado! Obrigado Grécia!
Segunda negação: a negação da imoralidade; a negação da
política divorciada da Moral.
Urge pôr termo a uma política que conduziu a sociedade a um
estado de saturação moral por efeito da banalização da imoralidade – tendo
tornado o corpo societal, assim como o indivíduo cidadão que o compõe, apático,
incapaz de reagir, incapaz de dissolver novas agressões. É como na química, quando
temos um líquido saturado e nele depositamos mais uma porção da mesma
substância. Também nas sociedades há uma espécie de lei química, uma lei da
saturação psicossocial que define um ponto a partir do qual o cidadão comum
deixa de reagir a um novo escândalo ou agressão moral, seja a revelação de mais
um acto de corrupção lesivo do interesse público, o vergonhoso elogio solene de
um prevaricador feito pela boca do chefe do Governo, ou o simples despautério
da edição de uma falseada biografia propagandística do primeiro-ministro.
A prioridade racional é o pagamento dos salários e das
pensões e não o pagamento aos credores. Urgente é defender os necessitados e
não os abastados. A prioridade é o trabalho e não o lucro privado dos grandes
accionistas da banca; é dar emprego a quem não o tem, pagar salários justos a
quem não os tem, dar às pessoas condições para que possam ter uma vida decente,
verdadeiramente humana.
É isso a LIBERDADE. A autêntica.
Bento Espinosa, esse grande filósofo semiportuguês, dizia já
nos recuados anos Seiscentos que a Liberdade é a capacidade de não vivermos
dependentes do medo, da estupidez e do desejo fútil. Ou seja, se assimilarmos
este lúcido pensamento espinosista, a Liberdade é precisamente o contrário
daquilo que tem vindo a acontecer nas nossas vidas, na existência concreta dos
seres humanos cidadãos de uma Europa em processo de decomposição e de
decaimento ético-político.
Os gregos progressistas já iniciaram esta acção
reconciliadora da política com a moral. Obrigado! Obrigado Grécia!
Terceira negação: a negação do aventureirismo político – de
que o Syriza tem dado magnífico exemplo.
A compreensão racional e realista de que este não é o tempo
da Revolução. Da grande ruptura que nos faça sair de um modo de produção
necessariamente causador de Desigualdade, de injustiça social.
A defesa e preservação de um capitalismo regrado, devidamente
regulado, que não seja o obsceno casino que agora de novo temos, trazido pela
mão da imoralidade política do neoliberalismo à solta, são, neste aqui e agora,
gesto mais progressista do que a tentativa de ruptura, por mais paradoxal que
possa parecer aos olhos de muitos dos que pensam o mundo olhando-o a partir da
esquerda. O tempo presente transporta ameaças tão graves que tornam natural a
união dos homens de bom senso, das pessoas decentes e de carácter,
independentemente do seu posicionamento no espectro político-partidário
democrático – o que não implicando a anulação nem a perda de sentido da
dualidade esquerda/direita não deixa, porém, de promover uma relativização
conjuntural e um atenuar das contradições em torno de certos objectivos
concretos que possuem valor civilizacional largamente consensual. O actual
governo grego, na sua forma de coligação, é exemplo do que aqui advogo.
As ameaças que se perfilam diante de nós fazem com que neste
momento seja muito perigoso desestabilizar o capitalismo. Porque isso pode
facilitar o regresso da Peste, de que sabiamente falava Albert Camus logo após
a vitória sobre o nazismo e o encerramento de Auschwitz, projectando um grito
de alerta para as gerações futuras. (Deixem-me recordar-vos que, por pertinente
coincidência, hoje mesmo, dia 8 de Maio, celebramos o 70º aniversário da
histórica vitória sobre o nazismo). Pode abrir a porta ao grande Mal, ao Mal
extremo conceptualizado por Hannah Arendt em gesto de reflexão autocrítica
sobre o Holocausto. Sim, porque “o bacilo da peste nunca morre nem desaparece”.
Permitam-me que deixe este alerta camusiano aos mais jovens, pois não me parece
estarem ainda conscientes da proximidade da ameaça do Mal que se tem vindo a
reestruturar.
Obrigado Syriza pelo exemplo de racionalidade e de sensatez
política!
Três negações para uma afirmação; a seguinte:
A afirmação de sentido.
A urgência de dar sentido à nossa existência é a questão central do nosso
tempo. Porque, como avisava F. Nietzsche já no fim da sua vida criativa, o
maior perigo é a ausência de sentido existencial; uma ausência que continuamente
alimenta a pulsão de morte.
Na Grécia, as forças progressistas, agora finalmente no
poder, têm sido exemplo de doação de
sentido. Obrigado Grécia!
Para que os actos eleitorais não sejam uma farsa, um mero
ritual folclórico de conservação do mesmo, actos esvaziados de sentido e
inconsequentes enquanto factor de transformação; para que a Democracia não deixe
de fazer sentido, para que não se extinga na espiral da auto-negação e sob a
asfixia da chantagem do Poderio, das superiores instâncias europeias e de
governos de países supostamente aliados, para que nada disto aconteça, é
indispensável que a vontade do povo grego seja respeitada e que o governo do
Syriza possa cumprir o programa sufragado pondo fim à indecente política de
austeridade que empobreceu o país, humilhou o povo e destruiu o Estado social
derramando injustiça.
O problema maior com que nos debatemos hoje não é de natureza
financeira ou económico-financeira, como a todo o instante nos querem fazer
acreditar. O grande problema do nosso tempo é de natureza cultural; é o problema da cultura.
Há crise financeira? Claro que sim; há crise económica? Sim,
há; mas a crise maior é a crise cultural, traduzida numa perda
geral de densidade e no primado da superficialidade, do prazer fútil, do imediatismo,
da patetice alegre, do facilitismo, de tudo isso que gera abaixamento. É a crise
dos valores civilizacionais e morais, causadora da tal perda de sentido
existencial. O deficit que
verdadeiramente nos deve desassossegar não é aquele de que diariamente nos
falam os políticos e os economistas mediatizados, mas sim o deficit de elevação, o deficit de forças que, intelectual e
moralmente, nos puxem para cima dando
sentido ao nosso existir.
É aí que se trava a grande batalha decisiva: a luta em defesa
da pulsão
de vida contra a pulsão de morte.
VIVA A VIDA!
Viva o Povo grego!
Viva a solidariedade entre Portugal e a Grécia
João Maria
de Freitas-Branco
Lisboa, 8 de
Maio de 2015
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sexta-feira, 1 de maio de 2015
Sobre a candidatura de Sampaio da Nóvoa
Ataques ou críticas há que denigrem mais o autor do que o
visado. Sabemo-lo. E sabemos também que em tais casos tanto o criticador como o
seu discurso crítico, pelo exagero da inconsistência, pelo desequilíbrio, pela embriaguêz
romântica do verbo, pela ausência de válida fundamentação racional, acabam por
não merecer qualquer reacção que não seja o absoluto silêncio. Disso tivemos exemplo
na última página da edição de hoje de um jornal de referência presente nas
bancas, em mais um dia de homenagem internacional aos Trabalhadores do mundo
inteiro [edição do Público de 1/5/15].
Mas como, no caso vertente, pude verificar ser percutida a
mesmíssima tecla já múltiplas vezes usada desde a noite da última quarta-feira por
comentadores políticos, colunistas e outros fazedores de opinião – e não sendo
nem querendo ser mero apoiante passivo da candidatura de Sampaio da Nóvoa,
preferindo assumir o papel de modesto operário da construção política que agora
se intenta executar, e vendo na defesa da Verdade uma forma de homenagear os
Trabalhadores – volto a este amplo espaço público da blogosfera e das redes
sociais com o renovado propósito de reafirmar que a candidatura de Sampaio da
Nóvoa germina em solo exterior ao das coutadas partidárias, buscando entrosar dinâmicas
sociais conducentes à reformatação da visão política. Uma reformatação da acção
política na dupla dimensão do imaterial e do material.
Afirmar que esta candidatura foi “fabricada por meia dúzia
de maiorais” de um partido, seja ele qual for, é esgrimir usando a mais pura
mentira. Ora, a mentira – questão filosófica maior -, essa sim, qual vírus incontroladamente
replicado, é que alastra no interior do corpo da Democracia, causando grave lesão,
semeando patologia e dando perigosíssimo e humilhante sinal da degradação da
nossa vida pública. Os utilizadores da mentira, como o criticador/comentador
que aqui me trouxe, fazem com que a análise política fique despida de moral.
João Maria de Freitas-Branco
Caxias, 1 de Maio de 2015
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quinta-feira, 30 de abril de 2015
1 de Maio de 1975
REVELAÇÕES SOBRE O HISTÓRICO 1º DE MAIO DE 1975
Amanhã [hoje, sexta-feira], dia do Trabalhador, a RTP/Antena 1 vai transmitir,
logo após o noticiário das 10h da manhã (com repetição às 23h), um programa de
rádio, realizado pela conceituada jornalista Ana Aranha, sobre o 1º de Maio de
1975, data que constituiu um marco na história do Portugal contemporâneo, em
virtude dos acontecimentos ocorridos durante essa jornada. Sou um dos
participantes no programa, na boa companhia do Joaquim Vieira (biógrafo de
Mário Soares) e de Américo Nunes, antigo dirigente da Intersindical. Estava
prevista a participação do Dr. Mário Soares, principal protagonista dos acontecimentos
que vão ser debatidos, numa perspectiva historiográfica, tendo por objectivo o
aprofundamento do conhecimento de alguns acontecimentos que estiveram na base
da construção da 2º República. Quatro décadas depois resolvi revelar
publicamente um conjunto de factos ainda desconhecidos.
Convido todos os Amigos, principalmente os que se interessam
por História, a acompanharem amanhã a referida emissão radiofónica da Antena 1.
Trata-se de uma “Emissão Especial Antena 1: 1º de Maio de
1975”, um programa de Ana Aranha.
Publicado no FACEBOOK, no dia 30 de Abril de 2015.
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João Maria de Freitas-Branco
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terça-feira, 24 de março de 2015
Esclarecimento sobre a minha posição política nas eleições presidenciais
Quando hoje entrei no Facebook
quase me assustei. Não me passou pela cabeça que o simples gesto de
reencaminhar a notícia da sessão de apresentação de uma candidatura pudesse
motivar as reacções que aqui vim encontrar. A Helena Pato fala do meu “entusiasmo”.
Entusiasmo? Desculpa Lena, mas não me parece que a palavra se aplique. Vou
tentar esclarecer tudo. Mas apresso-me já a tranquilizar (espero!) a Irene, a Lena,
o Rui Nery, o Rui Andrade, queridas(os) Amigas(os) reais e não apenas virtuais
(facebookianos) –, e faço-o com a seguinte declaração solene: sou apoiante
inequívoco de outro candidato, pessoa que ainda não anunciou a sua candidatura
e cujo nome, apenas por isso, aqui não cito nem devo citar. O Henrique Neto tem
conhecimento dessa minha clara escolha política desde a primeira hora. Esse
facto, no entanto, julgo eu, não me impede de considerar o Henrique Neto um
digno candidato. Convirá não confundir coisas distintas. Uma coisa é considerar
que fulano é a pessoa mais indicada para ocupar o cadeirão de Belém; outra,
totalmente diferente, é achar que sicrano merece ser candidato embora eu não o
apoie. Posso ajudar a viabilizar uma candidatura mas não votar nesse candidato,
não participar na sua campanha eleitoral, não subscrever o programa político,
etc. Posso ser movido, por exemplo, por uma profunda e sincera amizade pessoal,
pela consideração que o sujeito em causa me merece, independentemente da quantidade
de divergência política que possa existir num quadro de sã convivência
democrática. É que, acreditem, não sou mesmo apologista de candidaturas únicas,
filhas do pensamento único. Defendo exactamente o oposto: a riqueza da
diversidade. Por isso, na base deste raciocínio lógico, até podia ajudar a noticiar
e a concretizar a candidatura de alguém que fosse meu claro adversário político
mas simultaneamente meu Amigo, merecendo-me o maior respeito e consideração. Posso
estimar um ser humano sem estimar o seu ideário político – quem conheça o meu
círculo de amigos, no decorrer da vida, não terá dificuldade de encontrar
exemplos demonstrativos desta realidade. No entanto, disso não é exacto exemplo
o caso vertente.
Isto nos conduz a outra questão.
Pode ser cegueira minha, mas no
contacto pessoal que até hoje tive com o Henrique Neto nunca observei o “direitismo”
referido pela Irene e pelo Rui… Como é do conhecimento público, sou, tal como o
próprio H.Neto, co-fundador do MDR, movimento cívico que tem como único
objectivo alterar a lei eleitoral de modo a pôr fim ao despautério da
partidocracia, com listas de candidatos impostos de cima para baixo pelas cúpulas
partidárias. Tenho trabalhado com ele no âmbito deste movimento e, na base
dessa experiência, só posso considerá-lo um homem de esquerda, mas também uma
pessoa séria, integra, que ao longo de toda a vida se movimentou politicamente
entre o PCP e a chamada “esquerda do PS”. Recordo que o H.Neto começou a trabalhar
aos 14 anos(!) como operário, que pertence a uma família de operários da
indústria vidreira da Marinha Grande, foi militante do PCP e já depois, aos 40
anos d idade, tornou-se empresário, criando a bem sucedida Iberomoldes (empresa
de dimensão internacional, que foi considerada, no seu sector, uma das principais
do mundo). Em vários momentos teve a coragem de denunciar o jogo de interesses
no interior da Assembleia da República, actos de corrupção, assim como criticou
de forma desassombrada a direcção socratista (recuso-me a escrever socrática) do
seu próprio partido. Comportamento incomum que me merece consideração.
Última questão: embora não vá
votar H.Neto, nem o vá apoiar na campanha eleitoral, aprecio na sua candidatura
o esforço para que a Presidência da República não esteja «condenada a ser uma
mera extensão da representação partidária». Além disso, como candidato, H.Neto
continuará a bater-se por uma causa que em conjunto abraçámos; a já referida mudança
da lei eleitoral. Também reconheço nesta candidatura um esforço de moralização
da vida política, de combate à corrupção (elemento incompatível com a
democracia autêntica). Uma prioridade absoluta. A relação pessoal e este
conjunto de concordâncias farão com que eu esteja presente na sessão da próxima
quarta-feira, embora seja apoiante de outra candidatura que em devido tempo
virá a ser anunciada.
Terei sido claro? Terei
conseguido tranquilizar os Amigos comentadores? Espero que sim.
A todos agradeço os comentários
aqui deixados. Agradeço principalmente à Irene, à Lena, aos dois Ruis (Nery e Andrade)
porque com as suas palavras me ajudaram a consciencializar os equívocos
involuntariamente por mim semeados. Se foram levados a ver, a pensar, a sentir
o que aqui expressaram, a responsabilidade (a culpa, como é uso dizer-se em
espaço de influência católica) só pode ser minha e de mais ninguém.
Agora, tenho que o dizer já, é
inevitável que depois do aqui afirmado fique a pairar uma tremenda dúvida: será
que me vão trucidar quando souberem quem é de facto o meu candidato? Quando
ficarem a conhecer quem é a pessoa em quem vou votar, que vou apoiar
activamente durante a campanha eleitoral e com quem até já estou a colaborar? Será
que vou voltar a desiludi-los? Fiquemos por enquanto neste suspense…
Beijos e abraços!
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João Maria de Freitas-Branco
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02:12
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
O meu ministro das finanças
Nunca pensei que a leitura de um texto redigido por um
ministro das finanças me pudesse despertar sentimento de verdadeira felicidade,
me pudesse empolgar e até comover. Mas aconteceu. Foi quando há poucos
instantes li o artigo de Yanis Varoufakis publicado no New York Times e que me foi enviado, já traduzido, pelo meu
esplêndido Amigo António Gomes Marques. Aqui o deixo agora aos meus amigos do Facebook
na esperança que sintam o que eu senti: satisfação, entusiasmo, comoção,
admiração. Sinto-me cada vez mais SYRIZA. Será que um cidadão português se pode
inscrever neste partido grego? Sugiro à Direcção do Syriza que crie a
possibilidade estatutária de acolher a inscrição de membros-simpatizantes de
todas as nacionalidades, com cotização voluntária. Julgo que seria uma boa
forma de financiamento. Estou em crer que, como eu, existam milhares de
cidadãos europeus desejosos de acudir ao Syriza, porque ajudar essa audaz força
política é ajudar a salvar a Europa, a União Europeia solidária, progressista,
civilizadora. É a solução racional do grande Imannuel Kant!, tão oportunamente
referenciado por Yanis Varoufakis, cujo artigo total e entusiasticamente
subscrevo. Quando é que na minha Pátria poderei aplaudir um ministro das
finanças com o entusiasmo com que hoje aplaudo este lúcido grego? Um ministro
das finanças com cultura filosófica, que lê e admira o Kant! Obrigado Yanis, e
coragem!
Viva o SYRIZA!
João Maria de Freitas-Branco
18 de Fevereiro de 2015
ARTIGO DO NEW YORK TIMES:
Não há tempo para jogos na Europa
ATENAS— Escrevo este artigo à margem
de uma negociação crucial com os credores do meu país — uma negociação cujo
resultado poderá marcar uma geração, e tornar-se mesmo um ponto de viragem
quanto aos efeitos da experiência da Europa com a união monetária.
Teóricos dos jogos analisam
negociações como se elas fossem jogos de divisão de bolos em que participam
jogadores egoístas. Por ter, na minha vida anterior, na qualidade de académico,
estudado durante muitos anos a Teoria dos Jogos, alguns comentadores
precipitaram-se a concluir que, na qualidade de ministro das Finanças grego,
estava a conceber bluffs, estratagemas e outras opções, tentando obter
uma posição de vantagem apesar de dispor de um jogo fraco.
Quando muito, o meu passado de
Teoria dos Jogos convenceu-me de que seria uma completa loucura pensar nas
actuais deliberações entre a Grécia e os nossos parceiros como um jogo de
regateio a ser ganho ou perdido através de bluffs e subterfúgios
tácticos.
O problema da Teoria dos Jogos, como
eu costumava contar aos meus alunos, é o de assumir como dado adquirido os
motivos dos jogadores. No poker ou no blackjack, esta premissa não é
problemática. Contudo, nas actuais deliberações entre os nossos parceiros
europeus e o novo governo grego, aquilo que se pretende no fim de contas é
forjar novos motivos. Criar uma nova mentalidade que transcenda divisões
nacionais, dilua a distinção credor-devedor em prol de uma perspectiva pan-europeia
e que ponha o bem comum europeu acima da mesquinhez política, dogma nocivo se
generalizado, e da mentalidade nós-contra-eles.
Como ministro das Finanças de uma
pequena nação, com enormes restrições orçamentais, sem um banco central próprio
e vista por muitos dos nossos parceiros como devedor problemático, estou
convencido de que temos uma única opção: afastar qualquer tentação de tratar
este momento decisivo como um ensaio estratégico e, em vez disso, apresentar
honestamente os factos da economia social grega, apresentar as nossas propostas
para que a Grécia volte a crescer, explicando os motivos pelos quais elas são
do interesse da Europa, e revelar as linhas vermelhas que a lógica e o dever
nos impedem de ultrapassar.
A grande diferença entre este governo
grego e o anterior tem duas vertentes: estamos determinados a combater
interesses para dar um novo impulso à Grécia e conquistar a confiança dos
nossos parceiros e estamos determinados a não ser tratados como uma colónia
da dívida que deve sofrer aquilo que for necessário. O princípio da maior
austeridade para a economia mais deprimida seria pitoresco, se não causasse
tanto sofrimento desnecessário.
Frequentemente, perguntam-me: e se a
única forma de assegurar financiamento for ultrapassar as linhas vermelhas que
estabeleceu e aceitar medidas que considera serem parte do problema e não da
solução? Fiel ao princípio de que não tenho direito a fazer bluff, a
minha resposta é: as linhas vermelhas não serão ultrapassadas. De outra forma,
não seriam verdadeiramente vermelhas, seriam um mero bluff.
E se tudo isto trouxer muito
sofrimento ao seu povo? Perguntam-me. Está, certamente, a fazer bluff.
O problema desta linha argumentativa
é o de partir do princípio, de acordo com a Teoria dos Jogos, de que vivemos
numa tirania de consequências. Que não há circunstâncias nas quais devemos
fazer o que é correcto, não como estratégia, mas por ser…correcto.
Contra este cinismo, o novo governo
grego irá inovar. Iremos cessar, independentemente das consequências, acordos
que são errados para a Grécia e errados para a Europa. O jogo do “adiar e
fingir”, que começou depois de o serviço da dívida pública grega não poder ter
sido cumprido em 2010, vai acabar. Acabaram-se os empréstimos – pelo menos, até
termos um plano credível de crescimento da economia para pagar esses
empréstimos, ajudar a classe média a recuperar e resolver as terríveis crises
humanitárias. Acabaram-se os programas de “reforma” que se dirigem aos
pobres pensionistas e a farmácias familiares e mantém intocável a corrupção em
grande escala
O nosso governo não está a pedir aos
nossos parceiros uma solução para pagar as dívidas. Estamos a pedir alguns
meses de estabilidade financeira que nos permita criar reformas que uma extensa
camada da população grega possa assumir e apoiar, para podermos voltar a
ter crescimento e acabar com a nossa falta de capacidade de pagar as nossas
dívidas.
Pode pensar-se que esta retirada da
Teoria dos Jogos é motivada por uma qualquer agenda de esquerda radical. Nem
por isso. Aqui, a maior influência é Imannuel Kant, o filósofo alemão que nos
ensinou que a saída racional e livre do império da conveniência é fazer aquilo
que é correcto.
Como sabemos que a nossa modesta
agenda política, afinal de contas a nossa linha vermelha, em termos kantianos,
é a correcta? Sabemos, olhando nos olhos dos esfomeados nas ruas ou
contemplando a pressão sobre a nossa classe média, ou considerando os
interesses dos diligentes trabalhadores de cada aldeia, vila e cidade na nossa
união monetária. No fim de contas, a Europa só recuperará a sua alma quando
recuperar a confiança das pessoas, pondo os interesses delas na linha da
frente.
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João Maria de Freitas-Branco
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Carnaval dos desmascarados
De dia para dia a vitória do
Syriza nas eleições gregas do passado mês de Janeiro foi-me dando maior
satisfação. Seja qual for o desfecho do combate agora travado pelo novo governo
grego, a chegada do Syriza ao poder já teve o enorme mérito de fazer cair a
máscara com que os actuais políticos kitsch
que mandam na Europa se disfarçavam de democratas convictos. Caricata ironia:
os senhores do poder desmascarados em pleno carnaval, deixando exposta, em toda
a sua grotesca nudez, a obscena forma essencial da sua fácies política. Traduz-se
ela no exuberante desprezo pelo resultado das eleições, higienicamente reduzidas
à dimensão de ritual irrelevante e fraudulento em que só se admite um único
resultado – ou votam em mim ou o voto não vale, austeridade ou exclusão. Para o
Poderio o que importa é garantir a operacionalidade dos mecanismos de
subjugação dos povos. Só assim se consegue que a acumulação de riqueza continue
a fluir no mesmo sentido. Mas a engenhosa higiene eleitoral, tão cuidadosamente
implementada ao longo de décadas, destinada a prevenir contra a eventual
erupção de alternativas emancipadoras, contra o surgimento de transformações perturbadoras
da tranquilidade do sistema de dominação, do status quo, parece estar a perder eficácia, deixando estalar o
verniz. Isso tem feito disparar todos os alarmes do sistema. As eleições podem
servir para mudar, mas nunca para transformar.
Podem admitir-se alterações no sistema
mas jamais mutações do sistema. Na
óptica do Poderio, as eleições, no essencial, têm que ser instrumento de conservação. Só assim são aceitáveis.
Outro efeito Syriza de
desmascaramento, se bem observo, incide sobre o sofisticado sistema de
construção e disseminação da confusão,
elemento chave na arquitectura do sistema de domínio, de influência ideológica.
Estou em crer que o furacão Syriza, bem como as inflamadas reacções de
antagonismo que desencadeou (antídotos imateriais), concorre para facilitar a
compreensão do hodierno modo de produção do pensamento político. Proporciona a
dilucidação do como se opera a produção e comercialização da opinião que se vai
cristalizando como Verdade absoluta comum, como certeza ideológica de um tempo
e de um espaço societal, que até o passado dia 25 de Janeiro se supunha poder garantir
a perpetuação de resultados eleitorais convenientes, aceitáveis, moderados,
respeitadores da ordem estabelecida e, por isso mesmo, inócuos. Trata-se do
essencial mecanismo de produção de bens imateriais de carácter
ideativo-simbólico-ideológico. Decisivo factor de dominação. Os agentes dessa produção
(empreendedores do imaterial) são les
doxosophes que Pierre Bourdieu lucidamente caracterizava já na recuada
década de 70 do século passado. Personagens que desfilam em écrans, em páginas
de jornais, revistas, livros ou sobre a forma de ondas hertzianas actuando a uma
só voz. Constituem o imenso coro dos comentadores, dos fazedores de opinião,
dos “especialistas”, dos “pensadores” em voga. Carnavalesco morganho de criadores
de máscaras. Le doxosophe (o doxosofo) é o malabarista das meias
verdades com que se constroem as mais puras mentiras; é, como bem escreveu
Bourdieu, o especialista da aparência, «erudito aparente e erudito da
aparência», actuando em terreno «onde a aparência serve sempre as aparências».
É o instituir do primado da mentira em que se alicerça a confusão “legitimadora” e garante essencial de uma dominação, de um
sistema de pensamento único, do “não há alternativa”, de uma farsa democrática
que mascara uma real oligarquia.
Mais grave do que tudo é o menosprezo
pela Vida, atitude que é primeira fonte do Mal, maiusculizado por ser extremo.
A frase “sinto muito pelos gregos;
elegeram um governo que se comporta de modo irresponsável”, ontem proferida
por Wolfgang Schäuble, constitui um marco ético-político histórico, ficando na
memória colectiva como expressão simbólica desse desamor à Vida protagonizado
por um bando de líderes europeus responsáveis pela política que deixou mais de
um milhão de cidadãos gregos sem assistência médica, que deixou 300 mil
famílias a viverem sem electricidade no meio da grande civilização do velho
continente – assim transformada em selva --, que sem escrúpulos lançou na
pobreza milhões de seres humanos e que face à evidência dos danos tem o supremo
descaramento imoral de querer prosseguir com a política semeadora de sofrimento
humano.
O vergonhoso ultimato de ontem,
feito com a cumplicidade dos governantes socialistas (note-se bem), é o prenúncio
do fim da União Europeia assente nos princípios do humanismo, na democracia, na
solidariedade entre os povos. Para quem neste momento detém a vara do mando, na
cúpula da EU, a prioridade máxima é garantir a perpetuação das estruturas de
dominação geradoras de uma distribuição desigual da riqueza. Um eventual sucesso
do Syriza seria demonstrativo da existência de alternativas emancipadoras.
Verdade insuportável.
Se o governo do Syriza for
derrotado e não conseguir pôr fim à política austeritária de regressão civilizacional, a extrema-direita neonazi
irá mudar a Europa.
Avizinham-se tempos
perigosíssimos. Avoluma-se a ameaça de nova vaga totalitária.
João Maria de Freitas-Branco
Caxias, 17 de Fevereiro,
terça-feira de Carnaval, de 2015
Publicada por
João Maria de Freitas-Branco
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07:16
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