As propostas do novo governo
grego relativamente à dívida externa da Grécia são exemplo modelar do mais cristalino
bom senso. São também a mais evidente prova da vontade de pagar aos credores.
Insistir no austeritarismo asfixiante
e imoral é que conduz ao não-pagamento da dívida da Grécia, como muito bem
evidenciou Yanis Varoufakis (ministro grego das finanças) hoje em Paris,
estabelecendo pedagógica analogia com os toxicodependentes. A ideia de que o governo
do Syriza exige um perdão da dívida só existe na cabeça dos políticos malfeitores
que implementaram a política austeritária
ou na dos comentadores ao serviço do status
quo. A conferência de imprensa dada hoje, às 18h., em Paris, pelos
ministros das finanças da França e da Grécia, a que assisti em directo através
do canal televisivo France24, foi a mais clara concretização do discurso
político do bom senso. Recomendo a todos que oiçam ou leiam com atenção o que
aí foi dito de forma muitíssimo clara pelos dois governantes que evidenciaram
estar em perfeita sintonia política. É pelo caminho ali descrito que também
nós, Portugal, teremos que seguir. O primeiro passo a dar, já com lamentável atraso,
é tirar os malfeitores do Governo da Pátria.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Syriza
Saúdo a histórica vitória do Syriza!
Na Grécia (pelo menos nesse país) acabou, finalmente, a
monótona, estéril e já insuportável dança da alternância bipartidária, bem como
o poder do “centrão”. Finalmente, também, a tomada de posse de um
primeiro-ministro grego realizada como acto puramente laico, expurgada do
inadmissível apadrinhamento da Igreja – uma mudança de que não se tem falado
O momento que vivemos é óptimo para determinar quem são os
homens bons e quem são os maus. Sempre que ouvirmos alguém pronunciar frases do
tipo “a renegociação da dívida é impossível e inaceitável”, “a ideia de que é
possível um país não cumprir é conto de crianças”, ficamos logo a saber que
esse alguém não pertence ao grupo dos homens bons. Porque só pode ser mau quem
coloca a questão do pagamento dos juros da dívida do Estado grego acima da
necessidade de solucionar a tragédia humanitária de milhares de seres humanos
tombados no desemprego e a quem por isso foi retirado o direito à assistência
médica.
Alexis Tsipras parece ser um homem bom.
Será que a Grécia vai ser outra vez o berço civilizacional,
inaugurando um novo ciclo da história da civilização europeia?
João Maria de Freitas-Branco
26 de Janeiro de 2015
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João Maria de Freitas-Branco
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terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Os incómodos da liberdade de expressão
Afinal não são só os terroristas
islâmicos que assassinaram jornalistas em Paris que são inimigos da liberdade
de expressão. A cada dia que passa aparecem inesperados defensores da restrição
da liberdade de expressão. Alguns líderes religiosos, como o clérigo muçulmano Angem
Choudary, têm declarado com veemência a necessidade de estabelecer limites,
desde logo porque não é aceitável que se desrespeitem as religiões e as suas divindades
sobrenaturais, mesmo não havendo prova objectiva da sua existência. Disse ele o
seguinte perante as câmaras da CNN e da FOX: «Liberdade de expressão não se
estende a isso de se poder insultar os Profetas de Alá, seja qual for a nossa
opinião sobre o atentado de Paris».
No essencial, o Papa Francisco
reafirmou esta mesma ideia quando respondeu à pergunta de um jornalista sobre a
liberdade de imprensa: «Você não pode provocar, não pode insultar a religião
dos outros». Opinião que tem vindo a ser reproduzida por variadíssimos líderes
religiosos e por outros comentadores. Por que será que isto me traz à memória a
típica atitude dos Senhores das ditaduras e dos agentes de todos os
totalitarismos que sempre consideraram e consideram ser uma provocação aquilo
que não lhes convém que seja dito?
Fico confuso. Se estas
individualidades religiosas (católicas, muçulmanas, etc.) têm razão no que
afirmam, então dizer que os incréus vão arder eternamente no fogo do inferno ou
que vão ser castigados sem fim, sofrendo infinitamente, não é ofensivo? Afirmar
que aqueles que não seguem o caminho indicado por Deus vivem no pecado não é insultuoso
para as pessoas visadas? Declarar que quem não acata a “Verdade” da minha
religião é um ser imoral que labora no erro, devendo por isso ser punido com severidade,
não é afrontoso? Obviamente que é! E sendo, que propõem então estas autoridades
religiosas? Que se proíbam as instituições religiosas que produzem esses
discursos injuriosos? Sendo assim, estarão a insurgir-se contra as suas próprias
instituições e a negar a legitimidade do seu próprio afirmar. Ou será que não
se pode insultar a religião dos outros mas pode-se insultar o ateísmo dos
outros?
No mesmo registo das citadas
autoridades religiosas, o jornalista e comentador Miguel Sousa Tavares apareceu
ontem diante das câmaras da SIC a dizer que uma coisa é criticar, procedimento
legítimo, e outra é ofender, algo que é inaceitável. Em sua opinião as
caricaturas do Charlie Hebdo são exemplo de inadmissível atitude ofensiva,
desrespeitosa, repugnante; e deu o exemplo de um cartoon publicado no Charlie Hebdo em que o Profeta Maomé é
representado a ser sodomizado. Mas então a liberdade de expressão não é isso
mesmo? Ou seja, não é a possibilidade de dizer coisas que chocam outros, que
motivam desacordo, indignação, repúdio? Como se pode exercer a liberdade de
expressão sem melindrar ninguém? Gostava que me explicassem.
Gostava também que as pessoas que
pensam dever limitar-se a liberdade de expressão me explicassem o que entendem
que se deve fazer contra os actos ofensivos de jornalistas satíricos como os do
Charlie Hebdo. A receita dos terroristas islâmicos já conheço. Mas qual é a de
pessoas como o também jornalista Miguel Sousa Tavares? Que propõe ele que se
faça a uma publicação satírica como o Charlie Hebdo que tanto despreza? Que se
crie nova legislação, permitindo que os tribunais interditem a publicação de
jornais que veiculem opiniões passíveis de ofender alguém? Pena não nos ter dado
a conhecer a sua proposta durante o surpreendente comentário de ontem na SIC.
Fiquei com muita curiosidade. Até porque Sousa Tavares foi mais longe, acusando
os agnósticos/ateus do Charlie Hebdo de serem tão fanáticos como os seus
assassinos, os fundamentalistas islâmicos que perpetraram o acto terrorista do
passado dia 7. Pondo em equação, fica assim: Wolinski e Co. = a irmãos Kouachi.
Extraordinária opinião! Afinal os criminosos islamitas mataram outros
criminosos, os facinorosos ateus. Talvez, por isso, como o ladrão que rouba a ladrão,
mereçam cem anos de perdão. O Miguel não nos informou a esse respeito.
A gravidade do que ontem foi publicamente
afirmado no Jornal da Noite da SIC justifica citação mais extensa. Aqui vai:
«Eu não sou Charlie Hebdo […]
porque não subscrevo aquele jornalismo […] que não presta para nada. Nem sequer
as caricaturas têm algum valor. O Charlie Hebdo é um jornal que espalha outra
forma de fanatismo que é um fanatismo ateu. Não é crítica é provocação. O
Charlie Hebdo não faz uma crítica faz provocações, faz ofensas. A liberdade de
expressão não é igual à liberdade de ofensa. Não é! Não é! O Charlie Hebdo é
uma forma de fanatismo[ateu] igual às outras [fanatismo religioso]. Acho que é
inútil criticar a fé dos outros.» -- Miguel Sousa Tavares, SIC, Jornal da
Noite, 19/1/15.
Eis aqui a opinião de um
destacado jornalista, opinion maker, escritor reconhecido,
filho de Sofia. Será que esta opinião concorre para a defesa da liberdade de
expressão ou, pelo contrário, abre caminho à liquidação dessa liberdade
essencial? Não semeará ela confusão sobre a linha delimitativa da liberdade de
expressão, deslocando-a para terrenos pantanosos que fragilizam ? Não será este
o discurso que convém aos inimigos da liberdade? E a fé dos outros, como a
nossa, existindo, não se reflecte no comportamento social, não tem repercussões
de natureza cultural, societal, política? Se tem, como me parece evidente, como
justificar a inutilidade de a tomar como objecto de crítica? A crença, a fé
habita um espaço estanque, isolado do mundo real, espécie de campânula
espiritual hermeticamente fechada? É inquietante ouvir este opinar suscitador
destas e de outas dúvidas. Como se percebe, nunca podemos dar como
definitivamente adquirida uma conquista civilizacional. O combate em sua defesa
é permanente. Jamais termina. Daí que, como faz notar Alain de Botton em Religião para ateus, talvez se devesse
aprender com as religiões a utilidade, ou até mesmo a necessidade do
agendamento diário do reafirmar, da releitura, da revisitação cíclica do que,
de modo racionalmente fundamentado, se estabelece como valor civilizacional. Porque
«para além de terem de ser transmitidas com eloquência, as ideias também têm de
nos ser repetidas constantemente».
Perante o citado discurso do
comentador da SIC, é bem curioso registar que algo do mesmo quilate foi dito
por um personagem menor da nossa comunicação social, alguém que julgo ser
habitual protagonista do lixo televisivo quotidianamente despejado sobre a população:
«liberdade de expressão é uma coisa, desrespeito gratuito e egóico pelas mais
altas crenças dos outros é outra»; «o Charlie Hebdo é libertinagem de
expressão».
Esquisita convergência de opinião,
esta, entre seres humanos que supúnhamos não serem do mesmo nível cultural,
intelectual e moral. Saúdo a digna reacção do pivot do noticiário da SIC, Rodrigo
Guedes de Carvalho que, visivelmente incomodado com o que estava a ouvir, teve
o pertinente gesto jornalístico de solicitar clarificação: Achas então que os
jornalistas do Charlie Hebdo se puseram a jeito? Atrapalhado, Miguel Sousa
Tavares balbuciou um não, mas a negativa entrava em clara contradição com o que
antes tinha afirmado e persistiu em afirmar, ou seja, a equivalência
estabelecida entre os cartoonistas e os terroristas – na óptica do opinante, dois
exemplos de fanatismo inaceitável.
Será que os familiares dos mortos
do Charlie Hebdo vão sentir que esta opinião de um conhecido jornalista e
escritor português ofende a memória dos seus entes queridos, vítimas da moderna
barbárie? Será que os amigos, os admiradores, os leitores dos jornalistas assassinados
vão ficar ofendidos? Suspeito que sim. E se for esse o caso, deverá ser
restringido o direito de expressar uma opinião como a agora citada? A proibição
pode ou deve ser o efeito imediato da declaração de um sentimento de ofensa? Que
atitude se deve assumir? Excluindo a “solução” imoral do terrorismo, que devem
fazer aqueles que se sintam ofendidos pela expressão pública de uma opinião, de
uma tese, de uma teoria, etc.? Devem contra-argumentar ou silenciar quem dizem
ofendê-los? Deve instituir-se um qualquer mecanismo de censura prévia? Ou será
que no seio de um Estado de Direito democrático a avaliação do carácter eventualmente
criminoso de um alegado insulto deve ser olhado à luz da Lei liberal, da
legislação democrática, deixando aos tribunais a responsabilidade de
acusar/condenar em função dos danos comprovados que possam ter sido causados? Quanto
a Wolinsky, Cabu, Clarb, Tignous, alvos preferenciais das balas assassinas dos
terroristas islâmicos, sabemos exactamente o que pensavam sobre isto. Esse
pensamento, bem como a coerência do agir em conformidade com ele, custou-lhes a
própria vida.
Já agora uma curta nota sobre o demolidor
juízo valorativo expresso no comentário da SIC: em total contraste com a
opinião do jornalista escritor, autor de Equador
, os especialistas em caricatura e cartoon, dentro e fora da França
(nomeadamente em Portugal), desde há muito consideram que Wolinski, Cabu,
Clarb, Tignous são, ou eram, quatro dos melhores cartoonistas franceses deste
nosso agitado tempo. O que, obviamente, não coage ninguém a ter de gostar; mas
talvez aconselhe a não os classificar como fanáticos medíocres, como gentalha desmerecedora
de respeito, como equivalentes, de sinal contrário, dos Chérifs e Saids
Kouachis que por aí pululam aterrorizando-nos.
Outras dúvidas me assaltam: como
podem os crentes ter tão pouco respeito pelas divindades em que acreditam? Em
que confiam, segundo dizem, com profunda e absoluta devoção? Então acham que os
seus Deuses demiúrgicos, cada um deles considerado, pelos respectivos
seguidores, como sendo o criador do céu e da terra, único criador do Universo, se
deixam afectar pelos insignificantes rabiscos de uns mortais cartoonistas de um
exíguo jornal parisiense? Então Deus não é grande? Então os Profetas não são
grandes? Como pode a sua infinita grandeza coabitar com a pequenez mesquinha dessa
zanga, dessa embirração com os modestos cartoonistas parisienses? E sendo
providos de omnipotência e outros pasmosos poderes sobrenaturais, por que
precisam essas divindades da ajuda de simples mortais para conseguirem pôr na
ordem os jornalistas ofendedores? E não chegava o castigo eterno na profundeza
dos infernos? O castigo pós-morte? Também sempre me causaram espanto os
constantes pedidos de ajuda e protecção endereçados pelos crentes ao seu Deus;
uma estranha suspeição relativamente à atenção divina, parecendo temerem que a
divindade, dita omnisciente, possa estar, por algum motivo, distraída,
ignorando as suas necessidades, urgências e padecimentos. Não será isto também
insultuoso? Outro insulto a Deus? Agravo, neste caso, insolitamente produzido
pelos próprios adoradores incondicionais que tão melindrados dizem ficar com
outros alegados insultos, provenientes das ímpias hostes ateias. Então afinal,
descrentes e crentes, todos injuriam? Pobres deuses! Não percebo nada. Há um
excesso de irracionalidade que tolda o meu entendimento. Ou será tudo efeito
natural da única coisa que Einstein tinha a certeza de ser infinita? Ou seja, a
estupidez humana.
João Maria de Freitas-Branco
20 de Janeiro de 2015
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Je suis Charlie
Je suis Charlie.
É necessário dar uma resposta. Resposta urgente da
civilização contra a barbárie. Resposta em defesa dos valores republicanos da Racionalidade,
da Liberdade, da Amizade tolerante ou da Simpatia, para utilizar sábia
terminologia darwínica.
Mas a resposta, sendo urgente, não pode ser uma reacção
alimentadora do ovo da serpente. Esse é um gravíssimo risco que de imediato
corremos. Não pode ser uma resposta que nos vitime ainda mais, que redunde em
renovado ataque ao que urge defender. Impõe-se que consigamos racionalizar os nossos
sentimentos em face do atentado terrorista ocorrido ontem no coração de Paris,
cidade Luz, das Luzes, e, por isso mesmo, ela própria símbolo maior da Razão
emancipadora, símbolo da atitude que devemos, colectiva e individualmente, enquanto
sociedade (comunidade civilizada) e enquanto cidadãos, assumir e cultivar
ininterruptamente.
Escrevo estas linhas diante da notícia, acabada de chegar, de
uma explosão de origem criminosa numa mesquita, em Lyon, hoje de manhã. Escrevo
também ouvindo opiniões várias em favor de uma resposta policial, militar, e
apoquento-me ainda mais. Será possível que esta barbárie islâmica abra caminho
a outra, a do neofascismo ocidental? Será que os acontecimentos de ontem em
Paris vão fortalecer a Frente Nacional de Marine Le Pene? É isso admissível?
A grande resposta, a resposta premente e absolutamente necessária
tem de ser e só pode ser uma resposta CULTURAL. O terror não se combate com o
terror. E o terror a que ontem assistimos guarda umbilical relação com o terror
semeado pela política externa do ocidente (europeia e americana) no Iraque, na
Síria, na Líbia, etc., com o terror da pobreza, da miséria, do desemprego, da
indecência poderosa ou dos poderes indecentes e imorais, do desprezo pela
cultura. No cerne de tudo está o menosprezo pela Vida. O mal, o grande Mal, estrutura-se
em função e a partir do decaimento do Amor à Vida. O antídoto é a CULTURA – a Escola,
a educação/formação, o conhecimento, o contínuo espalhar de factores de
elevação moral e intelectual.
Je suis Charlie.
João Maria de Freitas-Branco
Caxias, às 11 horas do dia 8 de Janeiro de 2015
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João Maria de Freitas-Branco
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
A saúde da Igreja Católica
Neste actual período natalício,
escolhido pelo Papa Francisco para endereçar uma duríssima censura à hierarquia
da sua Igreja, não resisto à vontade de deixar aqui um brevíssimo comentário
que é também desabafo: verifico, não sem algum orgulho, que o Papa me vem agora
dar razão em muito do que publicamente afirmei sobre o estado de saúde da
Igreja Católica. Seja-me permitido recordar em particular o artigo de opinião
que publiquei em Março deste ano (2014), sob o título “Eleição papal: um
convite à meditação “, e que suscitou a discordância de alguns leitores católicos
que nele viram a mera expressão da oposição ateísta. Afinal, se quisermos
acreditar na autorizada voz papal, a minha crítica pecava por defeito. As “doenças”
(termo papal) não só existem como são ainda mais numerosas. São 15! Não é o
ateu João que o diz, mas sim o católico Francisco, chefe da Igreja, líder do
Estado religioso do Vaticano. Interrogo-me sobre qual será agora a opinião desses
católicos sobre o meu texto. Que leituras dele fazem, neste momento, depois do
último discurso do Papa contra os pecados da hierarquia católica? Mantêm as
anteriores reticências? Esse meu artigo de opinião terminava com as seguintes
palavras:
Desejoso de ver a Igreja Católica expurgada de pecados, deposito aqui os
meus mais sinceros votos de que o novo Papa e a Cúria renovada consigam
edificar uma religiosidade genuína, despida de bullshits, para usar o termo que o filósofo americano Harry
Frankfurt trouxe para o léxico filosófico. Uma religiosidade favorecedora da
elevação, da honestidade intelectual e da matura acção civilizatória. É este o franco
e são desejo deste confesso ateu religioso. (Jornal “Público”, edição de 13
de Março de 2013, p.47; também ode ser integralmente lido online, em razaojmfb.blogspot.pt ).
Talvez o ano de 2015 traga boas
novidades no sentido da satisfação deste desejo. Se o Papa Francisco tiver suficiente
força, engenho e arte, talvez o novo ano abra caminho para o Novo Concílio e promova,
como diz o teólogo católico Javier Monserrat, «a saída do mundo antigo e a
entrada no mundo moderno», «uma mudança hermenêutica necessária para o
cristianismo». O futuro do cristianismo e da sua forma institucionalizada
dependerá da capacidade de abandonar a cultura dogmática.
Natal de 2014
Blog RAZÃO – razaojmfb.blogspot.pt
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João Maria de Freitas-Branco
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09:02
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domingo, 30 de novembro de 2014
EM ESTADO DE DESASSOSSEGO
Não creio que um Estado de Direito democrático possa ter grande
longevidade quando a quantidade de suspeição relativamente à compleição
ético-moral dos seus principais quadros responsáveis é aquela que temos
observado, com crescente espanto e indignação, ao longo dos últimos tempos.
Este risco de sobrevivência de uma conquista civilizacional é, só por si,
extremamente preocupante. Mas não ficamos por aqui. Há preocupações acrescidas.
É igualmente inquietante e causador de perplexidade ver um
vasto conjunto de personalidades do nosso meio político reagir à detenção à
detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates centrando a atenção apenas em
aspectos processuais ou nos formalismos jurídicos. Não se ergue aqui uma
prioritária e essencial questão de natureza política, ética e cultural? A
questão da face do regime e do Estado. Ou seja, a questão do asseio do rosto,
da decência, da dignidade do regime e do Estado.
Como pode então um actual candidato a primeiro-ministro, o
socialista António Costa, afirmar ser este o tempo da justiça, devendo os
políticos permanecer em silêncio em relação ao caso? Então, em face dos
últimos acontecimentos, não sentem os responsáveis políticos, todos eles,
ainda maior urgência de vir a terreiro com medidas imediatas de combate à
corrupção, de modo a estancar a tremenda hemorragia de imoralidade de que
padece o regime e o Estado? Estávamos já perrante um vasto leque de indecências
banalizadas, prolongadas no tempo, que vai da imoralidade legal da acção dos
facilitadores até à corrupção na cúpula do Estado. Nas últimas semanas
assistimos a um crescendo que culminou na detenção de um ex-primeiro-ministro
sob a indiciação de prática de ilícitos da máxima gravidade.
No meio deste abalo, Mário Soares veio declarar que a
detenção de José Sócrates “deixou os democratas imensamente preocupados”. Mas
então não estavam já imensamente preocupados? Não havia já motivos de sobra
para tal, nomeadamente o facto desse mesmo Sócrates, agora detido, ter
governado a nossa Pátria durante mais de sete anos sob contínua suspeição de
prática de ilícitos? Não era isso, só por si, motivo para imensa preocupação
dos democratas?
Há uma óbvia e necessária presunção de inocência. Aceita-se
e compreende-se que amigos de José Sócrates declarem estarem convictos da sua
total inocência. É admissível que se levantem dúvidas relativamente aos métodos
da justiça e até que se discutam as decisões por ela tomadas – particularmente
a medida de coação aplicada. O repúdio do circo mediático e de um certo
pseudojornalismo que se alimenta de fugas ao segredo de justiça (que é prática
criminosa) é um imperativo ético. Mas não havendo sinais indiciadores de agudo
estado de demência do juiz instrutor, impõe o mais elementar bom senso que
todos acreditemos que a ordenação de detenção de um ex-primeiro-ministro, assim
como a subsequente medida que lhe foi aplicada (a mais gravosa de todas as
medidas de coacção), resulta do facto de o juiz decisor ter diante dos seus
olhos, necessariamente, indícios muito fortes ou pré-provas da prática dos
crimes referidos no comunicado oficial do Tribunal Central de Acção Criminal. Essa
conclusão ditada pelo simples bom senso obriga a que se tirem imediatas ilações
políticas. Como se pode afirmar, como hoje mesmo foi afirmado pelo ex-presidente
da República Mário Soares, que este caso não tem “nada a ver com os
socialistas” (leia-se PS)? Então José Sócrates não governou em nome do PS? Não
foi indicado pelo PS para exercer o cargo de primeiro-ministro? António
Vitorino, ontem, na SIC Notícias, com honestidade e frontalidade, afirmou que
este caso tinha tudo a ver com o Partido Socialista, lesando a sua imagem
institucional. Claro!
Como se pode então reduzir todo este complexo caso a uma
“bandalheira”? Quem considera que tudo isto não passa de uma “bandalheira”, e
mais não é do que uma “campanha que é uma infâmia”, está absolutamente
descrente da honestidade da justiça portuguesa, dos seus magistrados, dos
tribunais e das suas restantes instituições. Assustador! É o decretar da total
falência do Estado de Direito que obviamente não pode existir sem justiça que
tenha alguma decência. Mas mais assustador ainda é o facto de esta confissão de
total descrença na nossa justiça ter saído não da boca de um qualquer cidadão
anónimo, eventualmente desinformado, senão que da boca de um ex-presidente da
República e actual conselheiro de Estado: Mário Soares – por acaso, também jurista.
É de enlouquecer! Que fica o pobre cidadão comum a pensar? Como pode dormir,
depois de uma tão alta figura do regime e do Estado ter dito publicamente que o
Tribunal Central português é agente da bandalhice e está ao serviço de
campanhas “orquestradas por malandros”, decidindo de forma desregrada, sem
critérios, sem fundamentos? Que vai fazer o juiz instrutor Carlos Alexandre
perante tamanha acusação à sua pessoa, pondo em causa o seu bom-nome? Que vai
fazer o Tribunal Central de Acção Criminal depois de se ver assim atacada a sua
idoneidade? Que vão dizer os partidos políticos? Que vai dizer António Costa,
candidato a primeiro-ministro pelo partido vítima da “bandalhice” da justiça?
Em crescente estado de desassossego, aguardamos pelas reacções.
Como podem pretender alguns altos dirigentes do PS,
incluindo António Costa, que este não é um momento “nada difícil” para o PS?
Estarei alucinado? Sou eu que não percebo nada de política ou este esconder o
Sol com a peneira é gesto politicamente suicidário?
Se não estou alucinado e se ainda possuo alguma cultura e
sensibilidade política, o que francamente me parece é estarem alguns
socialistas a dar tiros no seu próprio partido, o que neste momento de
acentuada fragilidade do regime e do Estado de Direito democrático, abalado por
uma avalanche de acontecimentos gravíssimos, se me afigura assaz inconveniente.
A crítica que aqui endereço a esses responsáveis políticos
do PS é feita em defesa do PS, pois mesmo não sendo eu militante deste partido,
nem de nenhum outro, desejo ver os partidos da nossa democracia a funcionarem
bem, a portarem-se decentemente, a darem exemplos de elevação. Coisas que têm
escasseado bastante, para mal da nossa comunidade nacional.
Dizer que o PS está a viver um momento “nada difícil” é
tornar o momento actual ainda mais difícil para o PS.
João Maria de Freitas-Branco
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João Maria de Freitas-Branco
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18:13
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domingo, 9 de novembro de 2014
25 ANOS DEPOIS
O breve texto/depoimento sobre o fim do Muro de Berlim que
agora aqui publico foi-me solicitado pelo jornal “I” para ser incluído na sua
edição de ontem – uma vez que o jornal não se publica nos Domingos. A dimensão
do texto resulta dos habituais constrangimentos editoriais. Aqui fica, no dia
de hoje, dia de aniversário, para todos os que
se interessem pelo tema. Mais tarde, apresentarei um esclarecimento
complementar.
25 ANOS DEPOIS
Erguer fronteiras que dividam os humanos, gerando isolamentos,
é gesto indesejável que serve a dependência em detrimento da autonomia.
A queda do Muro que verdadeiramente começou a ser construído
em 1949, com a criação da RFA pelos aliados ocidentais, e não no dia da
colocação da primeira pedra – facto deixado na sombra da história de modo a
ocultar a co-responsabilidade dos EUA, da Inglaterra e da França (poderio
capitalista) – essa queda, saudei-a, mesmo estando consciente de que iria pôr
em risco a boa realidade por mim vivenciada no lado de lá do Muro, na Alemanha
não-capitalista.
No discurso dominante, o uso do termo liberdade é
limitativo, pois procura significar apenas um tipo de liberdade e ocultar
outro: o que conheci na RDA, ou seja, a liberdade de não estar desempregado, de
não passar fome, de não ter que esmolar, de poder viver em segurança, de ter
reforma, de usufruir de ensino e serviço de saúde gratuitos. O Muro indesejável
defendeu essa liberdade, mas aniquilou outras. Complexidades da humanidade…
Quando interrogados (em 1989) sobre qual era o maior problema
que os afectava, a resposta dos cidadãos da RDA foi: não poder viajar para qualquer parte do mundo. Se não diz tudo,
esta réplica diz pelo menos muito sobre a realidade socialista que existia. Que
responderiam os cidadãos portugueses hoje?
Publicada por
João Maria de Freitas-Branco
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08:09
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