Ando pouco por estas ruelas virtuais da modernice
facebookeira, sem que esse relativo distanciamento represente desestimação por
este meio informático disponibilizado pelo progresso tecnológico, antes pelo
contrário. Apenas temo a dispersão que possa gerar -- factor inimigo do
autêntico filosofar, por mim obrigatoriamente estimado. Só que desta vez, na
minha breve passagem por aqui, topei a discordância entre dois distintos Amigos:
o Eduardo e o Mário. O Eduardo Cintra Torres e o Mário Carvalho. Essa real, e
já não virtual, proximidade afectiva que, confesso, se estende ao objecto da vossa
desinteligência, acende em mim a vontade de meter a colher, opinando também.
Será que posso? Supondo dada a permissão, salto para dentro da vossa
controvérsia por me apetecer dizer-vos duas coisas que são, no fundo, duas
confissões que talvez venham a propósito no centenário de Cunhal agora em comemoração.
Primeira: lembram-se do livro “O Partido com paredes de vidro”? Quando foi
publicado, no Verão de 1985, o mundo ainda estava dividido, física e
simbolicamente, por um muro situado (cravado) no coração da Alemanha. Não sei
se o leram. Mas se o fizeram, adivinho que o acto de leitura tenha ocorrido do
lado ocidental do citado muro. Tal não foi o meu caso. Li-o do lado de lá. Do
outro lado, o lado leste, dessa histórica divisória do mundo. E li-o com genuíno
entusiasmo, como ainda hoje se pode perceber olhando para o tipo de anotação
que fui inscrevendo nas páginas do meu exemplar. Sabem o porquê desse
entusiasmo? É que essa obra era completamente subversiva naquele contexto
nacional, no seio daquele país germânico entretanto desaparecido sob os
escombros do dito muro de má memória, também dito “da vergonha”. Não exagero na
terminologia, acreditem. Era prosa subversiva, é a exacta adjectivação, por
mais que vos possa causar espanto. O livro só não foi objecto de censura devido
ao nome que transportava na capa. O nome do autor tinha demasiado peso para que
tal fosse possível. Pois é, meus caros Amigos. Não constituirá isto, por si só,
prova inequívoca de uma discordância cunhalista em relação ao socialismo real? Como
combinar esse sério olhar crítico de um homem singularmente inteligente,
sensível e politicamente perspicaz com frases como a do “Sol da Terra”, por vós
referida? Se não erro, isso torna a coisa ainda mais interessante e, por isso
mesmo, digna de atenção de estudioso, concorrendo do mesmo passo para tornar
ainda mais insuportável o sempre medíocre discurso simplista, ou simplificador,
monotonamente gerado ora pelas inesgotáveis fontes do anticomunismo primário,
ora pelas não menos inesgotáveis do proselitismo comunista, correntes que no
fundo se irmanam, desaguando na torrente comum da superficialidade, do
barbarismo, da mediocridade, da desonestidade intelectuais. O José Pacheco
Pereira tem dado nobre exemplo de atitude de sinal contrário; ou seja, de
elevação intelectual. E desse modo tem posto em evidência uma interessantíssima
complexidade. Se não formos capazes de assimilar essa complexidade, nada
conseguiremos perceber sobre a figura histórica, sobre o seu pensamento e
acção. Segunda coisa. Segunda confissão. A vida é feita de cruzamentos
interpessoais, natural efeito da natureza social do bicho humano. E nesse
constante jogo de cruzamentos s de variegada índole sempre desejei, desejo e
desejarei encontrar no meu caminho pessoas (note-se que nem todos os humanos
chegam a adquirir o estatuto de pessoa) pessoas como esse Álvaro que está na
origem da vossa discórdia actual, de Facebook. Porquê? Por serem pessoa extraordinária.
No sentido literal do termo, sem encómio, sem intensão panegírica. Ou seja, o
serem extra-ordinários, não vulgares. Álvaro Cunhal era desde logo isso mesmo,
a negação da vulgaridade. Por isso, jamais conseguia passar despercebido no
meio de uma multidão – exceptuando os casos em que, por imperativo de
clandestinidade ou outro qualquer, recorria ao disfarce. Renovada prova da
veracidade do meu dizer sobre a singularidade da sua presença social. E quem
isto vos confessa guarda privilégio de que nem o principal biógrafo, o historiador,
dedicado e competente estudioso, José Pacheco Pereira, se pode vangloriar: o de
ter podido conhecer pessoalmente, e razoavelmente bem, a pessoa singular que
aos três aqui nos trouxe ao diálogo.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Ser intelectual e combater a confusão
Há assuntos sobre os quais nem sequer me passa pela cabeça
escrever e sobre os quais tenho o hábito de nada ler. Mantendo-me fiel a esta
atitude de vida, não posso, porém, permanecer indiferente à actual enxurrada de
manchetes espalhadas por todos os órgãos de comunicação, com excepção do jornal
Público. O acontecimento motivador de tal celeuma pertencente àquela esfera de conteúdos
que a imprensa cor-de-rosa designa por “vida dos famosos”, “lado negro da vida dos
famosos”, “a vida íntima dos famosos”. Expressões que só por si me impelem a
higiénica fuga. Mas não quero com isto dizer estar contra a opção editorial de
órgãos de comunicação de referência como o Expresso, o DN ou a Visão. Muito
pelo contrário. Para mais quando no caso vertente existe alegado comportamento
criminoso protagonizado por figura pública que não se inibiu de trazer para a
ribalta a sua própria vida privada, tornando-a, portanto, necessariamente pública.
A este propósito a revista Visão enunciou uma pertinente interrogativa: «até
onde é legítimo alguém usar a sua privacidade para se promover social e
politicamente?»
Neste caso, o que para já me impede de ficar em silêncio é tão
só a confusão que mais uma vez vejo triunfar na nossa hodierna sociedade e o
meu militante desejo de lhe oferecer resistência intelectual. Como sabem os que
têm a generosidade de ler o que escrevo, tenho desenvolvido o conceito de
confusão alertando para a sua função ideológica e histórica (v. o meu ensaio, consultável
neste blog, intitulado “Racionalidade: confusão e anticonfusão”). Vivemos
mergulhados na confusão. Habitamos um mundo confuso. E a confusão é inimiga da
Liberdade; ela semeia dependências. Daí a necessidade inalienável de investir
em esforço de dilucidação. É isso o que aqui faço.
Nos referidos trabalhos jornalísticos tenho visto
sistematicamente associadas duas coisas que jamais podem coabitar no mesmo ser
humano, uma vez que se excluem mutuamente. Refiro-me ao carácter e à condição
de intelectual. Dizer de uma pessoa que é um “intelectual reputado” e ao mesmo
tempo pôr em evidência a sua falta de carácter é espalhar confusão.
Superemos então o estado de confusão e clarifiquemos.
Qual a primeira condição para se ser um intelectual? A
principal condição para que alguém possa ser considerado um intelectual é o
carácter. Quem não tiver carácter não é nem pode ser um autêntico intelectual.
Pouco ou nada importa que exiba títulos universitários ou bibliografia pessoal.
Sem carácter não se é intelectual verdadeiro. Tenho dito.
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João Maria de Freitas-Branco
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10:23
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terça-feira, 5 de novembro de 2013
Entrevista
Dei uma entrevista ao jornal PÚBLICO que foi dada à estampa na edição do passado Domingo, dia 3 de Novembro. A entrevista foi conduzida pelos jornalistas São José Almeida e Nuno Ribeiro. Aqui fica o texto introdutório, da responsabilidade dos citados jornalistas.
Entrevista
João Maria de Freitas-Branco
"Toda a representatividade tem que ser repensada e alterada" e o actual sistema eleitoral tem de mudar, pois induz os revoltados à abstenção, defende o filósofo, que propõe a criação de "partidos temporários". De esquerda, embora ache indispensável haver expressão à direita, considera que se vive em "semidemocracia", já que as eleições estão transformadas em "farsa", pois o Governo não cumpre o programa eleitoral e não respeita a Constituição.
Filósofo, autor, professor e investigador universitário, João Maria de Freitas-Branco é um dos fundadores do Movimento para a Democratização do Regime. Considera que se vivem tempos em que a velocidade das mudanças ultrapassa a capacidade cognitiva do ser humano, mas defende que "continua a ser uma obrigação da esquerda cumprir o programa iluminista. Perante uma sociedade em que alastra "uma espantosa banalização da imoralidade", sublinha que "o fundamento da necessidade de defender o Estado social radica no conceito darwinista de simpatia".
Texto completo da entrevista no site do PÚBLICO.
Também pode ser solicitado através de mensagem na página de João Maria de Freitas-Branco no Facebook. Será enviado aos interessados ficheiro pdf.
«Estamos a viver uma revolução tão profunda como a do neolítico»
JMFB
Jornal PÚBLICO, edição de 3 de Novembro de 2013, 1ª página e pp.14, 15 e 16.
Entrevista
João Maria de Freitas-Branco
"Toda a representatividade tem que ser repensada e alterada" e o actual sistema eleitoral tem de mudar, pois induz os revoltados à abstenção, defende o filósofo, que propõe a criação de "partidos temporários". De esquerda, embora ache indispensável haver expressão à direita, considera que se vive em "semidemocracia", já que as eleições estão transformadas em "farsa", pois o Governo não cumpre o programa eleitoral e não respeita a Constituição.
Filósofo, autor, professor e investigador universitário, João Maria de Freitas-Branco é um dos fundadores do Movimento para a Democratização do Regime. Considera que se vivem tempos em que a velocidade das mudanças ultrapassa a capacidade cognitiva do ser humano, mas defende que "continua a ser uma obrigação da esquerda cumprir o programa iluminista. Perante uma sociedade em que alastra "uma espantosa banalização da imoralidade", sublinha que "o fundamento da necessidade de defender o Estado social radica no conceito darwinista de simpatia".
Texto completo da entrevista no site do PÚBLICO.
Também pode ser solicitado através de mensagem na página de João Maria de Freitas-Branco no Facebook. Será enviado aos interessados ficheiro pdf.
«Estamos a viver uma revolução tão profunda como a do neolítico»
JMFB
Jornal PÚBLICO, edição de 3 de Novembro de 2013, 1ª página e pp.14, 15 e 16.
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João Maria de Freitas-Branco
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11:55
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Os ensinamentos das Autárquicas
Se excluirmos,
desde logo pelo seu especial significado simbólico, as primeiras eleições
autárquicas, julgo dever-se concluir que as autárquicas do passado
fim-de-semana foram as mais importantes que se realizaram em Portugal desde a
fundação do actual regime democrático.
Elas representam um ponto de
viragem. Porquê? Porque o seu resultado global traduz de modo inequívoco a
vontade popular de acabar com a partidocracia. Uma partidocracia que se tem
revelado essencial factor de empobrecimento da democraticidade do regime. Os
cidadãos eleitores decidiram que o processo de representação não pode estar
confinado à candidatura partidária, aos partidos políticos.
Mas a voz do eleitorado
transporta declaração política ainda mais relevante e profunda: a não-aceitação
do actual sistema de representação. Mais de 50% do eleitorado não se considera
bem representado pelas candidaturas apresentadas. Os cidadãos reivindicam,
através do voto, nova forma de representação que lhes dê garantias,
permitindo-lhes controlar a acção efectiva do eleito durante todo o exercício
do mandato e não apenas de 4 em 4 anos, no acto isolado do voto. Dito de outro
modo, os cidadãos exigem uma democracia mais participativa e menos
representativa. Ou seja, em que se afirma o primado da participação, com a
subordinação da representação à participação.
Este último acto eleitoral
efectuou-se em momento histórico muito singular, com o país mergulhado na maior
crise económico-financeira do pós-25 de Abril e com um Governo que se
ilegitimou através do completo desrespeito do programa eleitoral e governativo,
bem como pelo recurso a uma governação sistematicamente anticonstitucional.
Factos que, em minha opinião, marcam o fim da nossa 2ª República. É à luz desta
forte singularidade que os resultados têm que ser lidos.
Analisemos então os resultados
eleitorais.
Há dois aspectos essenciais a
reter: em primeiro lugar, a denúncia do próprio acto eleitoral e a recusa de
participar numa fraude política semelhante à que se verificou nas últimas
legislativas, o não querer ser protagonista de uma farsa eleitoral; em segundo
lugar, a condenação da partidocracia e do tipo de representação que lhe está
associado.
Neste singular momento histórico
em que seria natural haver um acréscimo de mobilização política traduzido na
afluência às urnas, o que se passou foi exactamente o inverso. A abstenção
aumentou de forma muito significativa, o mesmo acontecendo com os votos em
branco e nulos (sendo que estes já não podem ser interpretados como mero
engano). A abstenção aumentou em mais de 6 pontos percentuais. Os brancos e
nulos correspondem a quase 7%. Em ambos os casos estamos a falar de um número
superior ao da soma dos votos obtidos por dois partidos com assento
parlamentar, os do CDS/PP e do BE. Em alguns concelhos, nomeadamente naqueles
em que o resultado era mais incerto e se travava uma renhida batalha eleitoral,
como em Oeiras ou Loures, a abstenção esteve acima dos 50% (ultrapassou os 53%
em Oeiras); e num concelho tão importante como Cascais a abstenção foi de 62% e
os votos brancos e nulos atingiram os 9%! Repare-se que os exemplos dados têm a
“agravante” de serem do distrito da capital, região onde se situa o eleitorado
com níveis de escolaridade mais elevados, sendo igualmente, pelo menos em
teoria, um eleitorado, em média, politicamente mais informado.
Há ainda um outro aspecto
muitíssimo relevante. A comparação entre a oscilação da votação nos partidos e
a dos votos em branco e nulos. Apenas um partido obteve mais votos do que em 2009.
Foi o PCP/CDU. É por isso a excepção que confirma a regra da perda de votos.
Até o PS, partido dito vencedor, registou significativa perda de votos. Mas se
olharmos para o número de nulos e brancos a regra é exactamente a oposta. Isto
é, o eleitorado nulo/branco foi o que cresceu mais. Teve (como agora está em
voga dizer-se) um colossal aumento. Passou de 2,9% para 6,8%! Mais que duplicou
o seu peso eleitoral. Que partido pode gabar-se de ter tido tão grande aumento?
Tão grande vitória? Sim, há uma peculiar vitória de quem quis afirmar a sua
desconsideração pelo sistema. 344.566 Cidadãos deram-se ao incómodo de sair de
casa para afirmarem nas urnas, expressamente, esse seu sentimento; mas muitos
mais fizeram-no abstendo-se. A abstenção não pode continuar a ser olhada displicentemente
como mero efeito de um desinteresse inculto e estúpido. Há nela outro peso
político, pelo que não pode ser ignorada pelos analistas. E os nulos/brancos
foram, na comparação com 2009, os grandes vencedores. Enquanto os partidos
perderam milhares de apoiantes os nulos/brancos ganharam milhares e foram,
nessa precisa medida, os vencedores destas eleições.
Como é possível que os
comentadores de serviço não comentem isto? Como se pode aceitar que no debate
parlamentar desta semana sobre as eleições nada disto tenha merecido a atenção
dos deputados?
Estes números são, por si só, e de
igual modo, demonstrativos da condenação eleitoral da partidocracia. Mas há
mais: estas Autárquicas 2013 assumem-se como marco histórico no nosso percurso
democrático também porque representam a entrada na ribalta política das
candidaturas independentes, entendendo-se por tal a não vinculação a direcções
partidárias. Importantíssima novidade. Símbolo maior desta mudança é a vitória
de Rui Moreira no Porto. Acontecimento eleitoral não por acaso destacado em
manchetes de vários jornais estrangeiros, como por exemplo o conceituado El País. Pela primeira vez, o poder
local numa das mais importantes cidades do país deixa de estar na mão de um
partido. Os números falam por si: o independente Rui Moreira ganhou com 39,2% e
6 eleitos para a câmara, enquanto o partido mais votado (o PS) ficou pelos 22,6%
e com apenas 3 eleitos. A nível nacional os independentes obtiveram mais votos
do que o CDS/PP e do que o BE: 344.566 votos, correspondendo a cerca de 7%. Só
PS, PSD e CDU ficaram à frente dos independentes, sendo que estes, ao contrário
daqueles, não marcaram presença em todos os concelhos. Mostrando não estar a
perceber a mudança que se está a operar, um destacado deputado da esquerda
parlamentar afirmou triunfalmente que a esmagadora maioria dos eleitores tinha
votado nos partidos e não nas candidaturas independentes, depreciando assim os
resultados obtidos pelas candidaturas independentes. Puro engano. A maioria do
eleitorado, 61,12%, não votou em partidos.
Perante estes resultados e as
claras mensagens que transportam deixa de ser legítimo realizar eleições
legislativas na base do monopólio dos partidos. As candidaturas à Assembleia da
República não podem ser exclusivamente partidárias. Significa isto que a lei
eleitoral tem que ser alterada de imediato de forma a permitir candidaturas não
submetidas ao controlo das cúpulas partidárias. Se a vontade popular for
democraticamente respeitada, e tem que ser, a mudança da lei eleitoral
tornou-se, a partir do escrutínio de Domingo passado, uma urgência ainda maior.
A luta que tem vindo a ser desenvolvida pelo Movimento para a Democratização do
Regime, bem como por outros agentes políticos e sociais, ganha agora ainda
maior pertinência, uma vez que passou a estar legitimada pela vontade
livremente expressa pelos cidadãos eleitores.
A nova lei tem que introduzir
elementos de controlo da ética eleitoral impedindo a continuação da fraude
eleitoral que atingiu o auge nas últimas Legislativas, com a completa
dessintonia entre o programa eleitoral votado e o programa executado, anulando
assim a utilidade do voto e destituindo-o de sentido. A “ arma do povo”, o
voto, deixou de ter munições e deveio ineficaz. Embora formalmente legitimado
por eleições livres, o actual Governo da República ilegitimou-se por efeito do total
incumprimento dos pontos essenciais dos programas com que se apresentou ao
eleitorado e depois ao Parlamento. Face a esta realidade assassina da
democracia, perversora dos mais elementares princípios em que esta se estriba,
realizar novas eleições legislativas só faz sentido depois de conferir ao
cidadão garantias de que a farsa não se pode repetir. Como já em outras
ocasiões de intervenção pública tenho vindo a afirmar, a nova legislação que,
agora mais do que nunca, urge realizar tem que instituir um órgão de soberania
(suprapartidário, um conselho de homens bons), eleito e articulado com o
Presidente da República, com poder para avaliar o efectivo cumprimento dos
programas eleitorais por parte dos eleitos, podendo despoletar um processo
conducente à demissão daquele ou daqueles que notoriamente não honrem os compromissos
assumidos perante os cidadãos no acto eleitoral. A abstenção não pode ser
ignorada ou tratada como mera manifestação de desinteresse estúpido. A
crescente abstenção, bem como o enorme aumento dos votos brancos e nulos é um
relevante fenómeno político, expressão de indignação cívica perante o decaimento
da democracia real.
Há que continuar a reflectir seriamente
sobre os resultados das Autárquicas 2013 de modo a conseguirmos assimilar os importantes
ensinamentos que elas nos legam. A melhoria da qualidade da nossa vida política
passa por aí.
João Maria de Freitas-Branco
Caxias, 3 de Outubro de 2013
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João Maria de Freitas-Branco
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12:36
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quarta-feira, 3 de julho de 2013
A crise: festejar e lutar
Foi alcançado nas últimas horas um primeiro objectivo
político: a queda do Governo. Finalmente! É uma vitória de todos aqueles que se
têm manifestado nas ruas e que têm utilizado a greve como forma de combater uma
política desastrosa. O primeiro-ministro diz que fica. Mas fica onde? Será que
este político imberbe, mergulhado como está na irracionalidade e na
inconsciência política, nem sequer se apercebe de que o seu lindo Governo já
não existe?
Temos a sorte de ver desaparecer o governo que conduzia o País
para o abismo, mas temos pela frente o tremendo azar de em momento de profunda
crise termos o mais medíocre conjunto de responsáveis políticos das últimas
quatro décadas da história de Portugal. O pior governo, o pior líder do PSD, o
pior líder do maior partido da oposição e o pior Presidente da República.
Assim termina a 2ªRepública portuguesa. Mobilize-se o escol
da Nação para que se inaugure a 3ºRepública com outra qualidade política e
moral, com verdadeira elevação.
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João Maria de Freitas-Branco
à(s)
04:55
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segunda-feira, 17 de junho de 2013
Nasceu o MDR
Novo movimento político de resistência
Tive ontem o grato prazer de, uma
vez mais na vida, participar directamente na criação de uma organização
política de utilidade cívica para a nossa grei, assumindo assim, na sã
companhia de ilustres companheiros e amigos, o estatuto de co-fundador do
Movimento para a Democratização do Regime (MDR). Todos esperamos que tenha bom futuro
e sirva o objectivo a que se propôs.
Para que se percebam os desígnios
dos fundadores, mas também com a preocupação de dissipar eventuais equívocos
resultantes do debate que antecedeu e preparou o gesto fundador de ontem, quero
aqui afirmar que não me passa, nem nunca me passou pela cabeça a ideia de que o
MDR, enquanto tal, se venha a transformar num partido político. Seria néscio
colocar sequer tal hipótese. Entendo, porém, que a extrema gravidade do momento
político que atravessamos impõe a urgência de agir no plano da disputa do poder,
oferecendo assim a necessária resistência àquilo que é, em Portugal, na última
meia centúria, a maior ofensiva contra o Estado social, tendo como consequência
um retrocesso civilizacional. Forças inimigas, internas e externas, daquilo a
que António Sérgio chamava a Democracia autêntica, e inimigas também do
progresso civilizacional fundado no programa iluminista já estão hoje no poder,
exercendo-o de uma forma imoral ou amoral. Isto impõe urgências. Sabem aqueles
que se esforçam por aprender com a História que as forças do totalitarismo
populista, sempre à espreita, não incorrem no vício da demora. A democracia
está gravemente enferma, necessitando de premente cuidar intensivo. Os actos eleitorais,
elemento basilar na determinação da chamada “vontade popular”, tornaram-se uma
completa fraude.
Deixo à consideração de todos, no
seguimento da opinião que sistematicamente tenho publicado através de artigos e
ensaios, os seguintes factos: a) a abstenção é maioritária em comparação com
qualquer escolha partidária; b) os votos brancos e nulos correspondem a uma
percentagem eleitoral muito superior à dos resultados obtidos pela maioria dos
partidos; c) a consideração do somatório da abstenção, dos votos brancos e dos
nulos impõe a conclusão de que a clara maioria dos cidadãos eleitores está
insatisfeita com a oferta e não se reconhece representada; d) o eleitor vota
sem a menor garantia de ver respeitada a vontade que expressa, dada a
inexistência de mecanismo eficaz impeditivo da discrepância de conteúdos entre
programa eleitoral e programa governamental executado; e) o partido que vence
as eleições representa uma magra minoria e, consequentemente, institui o governo
de uma minoria, subvertendo por completo um princípio básico da democracia: o
do primado da vontade maioritária; f) a descrença no sistema democrático é cada
vez mais profunda e ampla, deixando o cidadão menos imune a propostas não
democráticas, mais debilitado face a hipotéticas alternativas totalitárias.
Na minha óptica, este conjunto de
factos (bem como outros aqui não evocados), com as exuberantes evidências que
transporta impõe, a toda e qualquer organização política que se posicione na
barricada da resistência aos inimigos acima referidos (sejam eles os que já
estão no poder ou os que o espreitam munidos da poderosa arma do populismo
totalitário), impõe a urgência do combate pelo poder. O MDR não deve nem pode
colocar-se à margem desse combate instante. Deve estabelecer imediatamente
alianças com outros movimentos, instituições, organizações que se mostrem disponíveis
para travar esse combate, integrando a barricada da resistência. Numa óptica
democrática, essa luta passa pela ampliação da oferta eleitoral. Um alargamento
que tem que ser esforçadamente construído, sendo tarefa deste aqui e agora, e
não de distante tempo.
Sem beliscar o empenho com que me
envolvi neste processo fundador, não posso também deixar de expressar a minha
convicção de que neste gravíssimo momento histórico toda e qualquer nova
organização política deve ter como primeira prioridade injectar moral e ética
no corpo político, assim como, em geral, no corpo societal. Lamento por isso
que o MDR não tenha definido expressamente como seu outro objectivo a feitura
de uma Lei Anticorrupção que altere a ineficaz legislação em vigor. A
quantidade de imoralidade à solta na sociedade e a banalização do acto imoral
ou eticamente reprovável corrói vorazmente o corpo da nossa debilitada
democracia. Os perigos e ameaças multiplicam-se. Agigantam-se. Impõe-se
derrotar o inimigo.
João Maria de Freitas Branco
Caxias, 16 de Junho de 2013
Publicada por
João Maria de Freitas-Branco
à(s)
12:59
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sábado, 20 de abril de 2013
Austeridade
A última página da revista “Visão” tem vindo a criar em mim
o hábito de leitura iniciada de trás para a frente. Nela deparamos com a “Boca
do Inferno”, invariável manifestação de um denso humor inteligente, qualidade incomum
entre os nossos escreventes. Fenómeno reconfortante. Mas a crónica desta semana
é de singular qualidade, porque combina o dito humor inteligente com a ironia,
a lucidez política, a sensibilidade humanística e a tragédia. Óptimo cocktail. Razão
para não querer deixar de vir aqui recomendá-la a todos os Amigos do Facebook. Só
para abrir o apetite de leitura aqui ficam estas linhas da crónica assinada
pelo Ricardo Araújo Pereira: «Quando eu for grande quero ser teórico da
austeridade. […] A austeridade destaca-se, na história das ideias, por uma
característica original: não tem alternativa. […] é um sossego. A austeridade
pretende controlar o défice mas não consegue. Paciência: não há alternativa. A austeridade
aprofunda a recessão e gera desemprego. Paciência: não há alternativa. A austeridade,
enfim, não está a funcionar. Nada a fazer: não há alternativa. […] Imagine que
vai ser devorado por um tigre. Fugir do tigre não vale a pena. Não seja lírico.
Já lhe disseram que não há alternativa. Lutar com o tigre é inútil (recordo que
não há alternativa). O melhor é ficar quieto e deixar-se devorar. E, já agora,
deitar uma pitada de sal no lombo, que o tigre gosta da carne apaladada. O trabalho
do Governo é tratar deste tempero. Não se preocupe com nada.»
Parabéns Ricardo. Caros Amigos, leiam a crónica completa, on
line ou em papel, mas não fiquem quietos a deixarem-se devorar pela poderosa cambada
que por aí anda à solta. Bom fim-de-semana.
Publicada por
João Maria de Freitas-Branco
à(s)
04:48
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