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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A homossexualidade do Bispo


O caso do Bispo D.Carlos de Azevedo (mais um caso), que nas últimas horas ganhou grande visibilidade mediática, exemplifica o que escrevi nos meus últimos textos aqui publicados sobre a Igreja católica. Na base deste caso está essa mesma ideologia, de um gritante conservadorismo reaccionário, que tem sido cultivada pelo Vaticano e, em geral, por toda a hierarquia da Igreja. Essa ideologia (pensamento católico oficial) bem como a acção que nela se estriba entram em clara contradição com os Direitos do Homem, ferem os mais elementares princípios da Liberdade, então em conflito com a Civilização e com as suas linhas de progresso, pelo que devem ser denunciadas como factor de obscurantismo, como coisa inaceitável, acintosa e vergonhosa. A interferência da Igreja na liberdade sexual dos seres humanos, a que se adiciona o sistemático encobrimento de actos de prevaricação cometidos pelos seus membros, prefigura a prática de crime.

Faço notar que perante a denúncia interna de um alegado crime de assédio sexual feita por um padre contra um Bispo, a instituição Igreja católica, decorridos que estão mais de dois anos, não apresentou o caso às competentes autoridades judiciais do Estado português para que pudesse ser investigado e, confirmando-se ter havido prática criminosa, ser julgado em tribunal. Atitude de silenciamento bem pouco digna e nada cristã, para além de ser ilegal.

 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Esclarecedora resignação papal


A renúncia papal parece ter tido já o indiscutível mérito de tornar visível para o grande público o que é a realidade interna do Vaticano: um ninho de víboras, um campo de batalha pelo poder em que a mais desavergonhada imoralidade prolifera livremente. A cada dia que passa, vamos percebendo de forma clara quais foram as verdadeiras causas do acto de resignação. O correspondente do El País em Roma, o jornalista Miguel Mora, escreveu o seguinte: «Os lobos ganharam a partida»; Bento XVI resolveu partir «antes de ser devorado pelos abutres». Pudera, ninguém duvidará que o cardeal Joseph Ratzinger, até bem antes de se ter tornado Papa, já conhecia de ginjeira a vasta e truculenta história de mortes misteriosas e assassinatos de Pontífices. O caso de Albino Luciani, Papa por um mês com o título de João Paulo I e cujos discursos pontifícios estranhamente (ou talvez compreensivelmente) não se encontram à venda na livraria do Vaticano (como pude comprovar in loco), está ainda bem presente na memória das pessoas informadas. Como alguém escreveu, «muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres» o Vaticano é «um ninho de hienas enlouquecidas» lutando pelo poder, pela defesa de privilégios. Na cúria não se olha a meios para atingir os inconfessáveis fins. Foi esse oceano de imoralidade, de corrupção, de ódios, de traições, de crimes financeiros, e sei lá que mais, foi isso que Bento XVI acabou por descobrir completamente, através de um comunicado elaborado por um grupo de cardeais, ao regressar a Roma depois da viagem ao México e a Cuba.

A toda esta montanha de imoralidades, ao desavergonhado apego aos bens materiais e ao poder temporal em total detrimento da apregoada espiritualidade cristã, junta-se um asfixiante conservadorismo reaccionário de que Bento XVI foi o último lídimo representante no seio da Igreja católica. A condenação das teologias da libertação paralelamente à revogação da excomunhão dos arcebispos fascistas lefebvrianos, que recusam o Concílio Vaticano II; a classificação da manipulação genética e outros trabalhos de investigação científica como sendo um dos sete pecados capitais; a descriminação da mulher; a perseguição dos homossexuais; a ameaça de excomunhão endereçada aos políticos defensores da legalização do aborto e a excomunhão de jovens violadas que decidiram praticar o aborto, quando não consta que nenhum dos responsáveis por Auschwitz tenha alguma vez sido excomungado. Enfim, é melhor ficarmos por aqui pois a indecorosa lista de obscurantismos vergonhosos é demasiado longa. As intrigas, as negociatas, os comportamentos mafiosos envolvendo o Banco do Vaticano, o apego ao poder temporal, etc. etc. sugerem fortemente que haja prelados da Igreja, no próprio topo da hierarquia, que afinal não são nada cristãos. Talvez não falte quem um dia se lembre de dizer que eles são assim, homens maus, por serem bispos ateus. Como se calculará, não me desagrada a eventualidade de se terem “convertido” ao ateísmo; o que me indispõe é serem desonestos, corruptos, criminosos, mafiosos, sejam crentes ou não crentes disfarçados de cardeais. Uma coisa parece ser exuberantemente evidente quando hoje se observa o que se passa no Vaticano (e já deixando de olhar para o passado): a religião não faz com que as pessoas se comportem melhor; não lhes confere superioridade moral. O mesmo vale para o ateísmo.

Entretanto, cá na nossa terrinha todos os dias aparecem uns patetas sorridentes, beatos empedernidos, que alegremente proclamam que a Igreja não está em crise, que está plena de saúde. Caramba! São tão sectariamente patetas que até nem percebem ser o próprio Papa que dizem adorar quem está a denunciar a vergonha da corrupção nos corredores do Vaticano? No último programa televisivo “Prós e Contras” (que quando se trata de discutir a Igreja mais é um “Prós e Prós” pago por nós), tivemos paradigmáticos momentos de exibição desse patetismo sorridente por vezes agravado de hipocrisia reaccionária, como quando um dos intervenientes, conhecida figura pública ligada ao Opus Dei, se permitiu gozar com o indigno tratamento dado à mulher no interior da Igreja. «A Igreja está cheia de mulheres que participam na vida religiosa e não se calam»,foi mais ou menos isto o que disse o dito Sr. Mas nem Fátima Campos Ferreira nem nenhum outro interveniente no programa soube confronta-lo com a pergunta: quantas mulheres vão participar no próximo conclave para a eleição do sumo Pontífice? Quantas mulheres ocupam lugares de poder na cúpula do governo do Estado do Vaticano? Quantos católicos, mulheres e homens, estariam dispostos a aceitar a implementação no Estado português das regras vigentes no Estado do Vaticano? Que se diria se em Portugal as mulheres passassem a estar impedidas de votar, de serem eleitas para a Assembleia da República, ou de ocuparem o lugar de Primeiro-Ministro e Presidente da República? Qual a noção vaticanista de Democracia? O Espírito Santo é antidemocrata?

Espantoso é ver como em todos estes debates que se têm multiplicado nos últimos dias, cada vez mais acesos, nem mesmo os católicos mais fervorosos aparecem a falar da função da “vontade de Deus”? Afinal que faz deus no meio disto tudo? O Espírito Santo inspirou os eleitores de Bento XVI e agora fica impávido perante a derrota do seu escolhido/protegido na luta contra a corrupção, o crime, a imoralidade na sede da sua própria santa Igreja? Como pode, na óptica de um crente católico, ser tão fraquinha a “vontade de Deus”? Será que afinal o falecido Christopher Hitchens tinha razão e God is not great? Será que a Fé dos crentes no absoluto poder divino, a tal omnipotência divina, é, ao cabo de contas, tão nula como a minha, a de um humilde racionalista laico. Mas que completo despautério!

 

Texto publicado no Blog RAZÃO – razaojmfb.blogspot.pt

 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Meteorito alfacinha


Curioso que não tenha havido nos últimos dias nenhuma referência pública (que eu tivesse visto) ao facto de ter ocorrido sobre Lisboa, há mais de 30 anos, durante a noite, um fenómeno idêntico ao que foi observado na passada sexta-feira na Rússia. Assim, o nosso meteorito, que não causou onda sónica, continuará travestido de nave espacial alienígena (a “explicação” que prevaleceu na época) e a colorir a memória de muitos incautos alfacinhas.
 
Lamentavelmente não me recordo da data exacta do acontecimento. Tenho ideia que foi no final dos anos setenta do século passado (1978 ou 79). Só tenho a certeza de que foi há mais de 30 anos. Lembro-me de ter ocorrido por volta da uma hora da madrugada. Foi testemunhado por uma equipa de reportagem da RTP que nesse momento circulava na zona do Marquês de Pombal. O efeito mais espectacular foi descrito pela jornalista que integrava essa equipa que regressava aos velhos estúdio do Lumiar: «Repentinamente ficou dia em Lisboa, durante cerca de 10 segundos; foi como se o Sol tivesse surgido no céu apenas durante uns segundos», disse a repórter numa peça que foi apresentada no Telejornal do dia seguinte. Esse depoimento deve estar ainda nos arquivos da RTP. Mas como comentou ontem, na minha página do Facebook, o também jornalista Milan Balinda, o problema é que, ao contrário do meteorito russo, deste nosso não ficou nenhum registo de imagem. Nesse então não havia câmaras de vigilância espalhadas por todo o lado, nem telemóveis. Foi no século passado…

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dúvidas em torno da renúncia de um Papa



A população católica – cada vez mais reduzida nos países com elevados índices de escolaridade – foi surpreendida pela resignação do Papa Bento XVI. Pondo de parte as amargas razões de saúde que estiveram na base da decisão papal, parece-me a mim, cidadão laico, tratar-se, em princípio, de uma boa notícia, por representar a saída de alguém que, no exercício de um cargo de poder, se opôs ao progresso civilizacional, bem como à modernização da Igreja. A apreciável erudição do teólogo Ratzinger sempre se traduziu em pensamento e acção de acentuado conservadorismo reaccionário. Algo que adquire particular gravidade quando, aproveitando-se da crença de muitos seres humanos, quarta a mais intima e privada liberdade das pessoas, estabelecendo, por exemplo, quais são os comportamentos sexuais virtuosos e os pecaminosos.

Para uma mente critico-racionalista e céptica, como a minha, causa espanto a desconsideração pela alegada omnisciência divina exibida pelos crentes católicos. Admitindo estes como verdade inquestionável que no conclave os cardeais eleitores escolhem o Papa em função de uma directa inspiração do espírito santo, como não estranhar o lapso de previsão? Como pôde escapar a um omnisciente a antevisão de que iriam faltar ao eleito Ratzinger as energias físicas e psíquicas requeridas para o cabal cumprimento da missão papal de representação terrena do próprio divino espírito inspirador? Como se justifica o divino lapso? E tendo-se tornado Papa «por vontade de Deus»,tal como afirmou o próprio sumo Pontífice logo após a sua eleição em Abril de 2005, como ousa agora o ainda Bispo de Roma contrariar essa suma vontade omnipotente? Como pode o humilde servidor contrariar assim a vontade do seu divino Senhor? Falou com o seu Deus antes de resignar, obtendo permissão para o gesto, responderão alguns. Muito bem. Mas então, se resignou também «por vontade de Deus», ou com o seu sapientíssimo agrément, como se justifica que os católicos que tenho escutado nas últimas horas falem invariavelmente de coragem, afirmando, como D, José Policarpo, tratar-se de «um acto extraordinariamente corajoso»? Que coragem, se a decisão foi tomada em sintonia com a vontade divina? Desculpem, mas tenho por hábito reservar o nobre substantivo para qualificar outro tipo de gestos, em que há clara exibição de grande firmeza de ânimo perante enormes perigos, riscos, sofrimentos, etc. Tendo a aquiescência, a concordância, a fiança de um ser omnisciente e, para mais, omnipotente, não vejo que coragem é requerida para avançar… Ou será que me está curta a inteligência?

Recorde-se que, na Europa, no coração da civilização moderna, um Estado como o Vaticano, Estado eclesiástico, não democrático, só pode “justificar-se” com base no suposto da crença religiosa num Deus pessoal demiúrgico, omnipotente, omnisciente, infinitamente bom e misericordioso.

Continuando a colocar-me na posição do crente católico, também não chego a entender as intervenções públicas de vários prelados da Igreja ao longo das últimas horas, discutindo quem deve ser o sucessor, se deve ser “de esquerda” ou “de direita” -- terminologia utilizada por um padre num telejornal. Mas se a escolha vai ser ditada pela vontade de Deus, porquê então tanta preocupação política? Por que temem uns que o sucessor de Bento XVI seja outro conservador e outros que possa ser um progressista que ponha fim a medievalismos como o da subalternização da mulher, o celibato, a condenação da homossexualidade, a proibição do uso de contraceptivos, a estigmatização do divórcio, o impedir da legalização da interrupção voluntária da gravidez ou da prática da eutanásia? Caramba! Não haverá em tudo isto despudorado excesso de contradição, de incoerência, de confusão e, pasme-se, de falta desbragada de Fé católica?

Não será o espectáculo a que temos assistido nos vários órgãos de comunicação desde a hora do anúncio público da resignação papal algo que, dado o contexto religioso, se pode baptizar de “salada de tretas”?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Um sinal da realidade presente

Começo por uma declaração de interesses: não conheço a SrªGlória Araújo, deputada da Assembleia da República, e até há bem pouco tempo nunca tinha ouvido falar de tal pessoa ou, pelo menos, não tinha retido o seu nome nem memória de nenhum acto por si praticado; não sou membro de nenhum partido político nem contrário à existência de nenhum dos partidos com representação parlamentar; para o que aqui pretendo sinalizar é absolutamente indiferente saber em que bancada do Parlamento se senta a referida Senhora, pelo que omito essa informação.

Pretendo tão só chamar a atenção para uma atitude protagonizada por uma deputada que, a meu ver, é exemplificativa do estado de saúde moral da sociedade em que vivemos. É o assumir de consciência relativamente a esse estado o que aqui verdadeiramente importa, no pressuposto de que esse assumir de consciência é passo necessário, se bem que não suficiente, para se encetar uma acção transformadora no sentido da superação de defeitos comprometedores da saúde do corpo social, da qualidade de vida colectiva.

A deputada Glória Araújo, que integra a Comissão de Ética da assembleia da República, encontrava-se alcoolizada ao volante de um automóvel no dia do seu aniversário, como foi testemunhado pelas autoridades policiais que a autuaram. O facto foi noticiado em toda a comunicação social. Decorrido que está já algum tempo, não consta que a Senhora tenha sido admoestada pelo Parlamento ou pelo Partido, e muito menos que se tenha demitido ou posto o seu lugar à disposição dos responsáveis do seu Partido. Conhecedor destes factos, e usando da sua legítima liberdade, um cidadão resolveu deixar um comentário na página da deputada no Facebook, dizendo que no seu entendimento «havia um preço a pagar para quem, como a deputada, representa o povo português». Segundo o Diário de Notícias (edição de ontem), a deputada respondeu ao cidadão nos seguintes termos:

«Também devia haver um preço para a estupidez e a cretinice. Parece-me é que não consegues pagá-lo. Vai moralizar a tua avó, cretino.”  

Assim falou a representante do povo para o membro do povo no uso da sua liberdade de criticar.

Faço minhas as palavras do jornalista do DN que passo a citar e que encerram a notícia: «ontem, a deputada não fazia anos. E à hora em causa, não teria estado em nenhum bar anteriormente. A resposta é, por tudo isso, ainda mais reveladora».

Será que vai haver alguma reacção oficial do Partido a que a Srª Glória Araújo pertence? Irá a Presidente da AR assumir alguma posição em face deste comportamento? Já passaram dois dias e, até agora, só consegui colher silêncio.

Opus Dei em debate


O Diário de Notícias iniciou ontem (dia 27 de Janeiro) a publicação de um trabalho de investigação jornalística sobre o Opus Dei, organização que cultiva uma concepção do mundo profundamente reaccionária, passadista, insuportavelmente vetusta, mas que não deixa de exercer influência em esferas decisivas no funcionamento da nossa sociedade. Num país quase despido de investigação jornalística, é sempre de louvar o esforço de contrariar essa escassez. Recomendo a leitura deste esclarecedor trabalho, que se prolonga pelas edições do DN de hoje e de amanhã, e lembro que às 11h., daqui a 15 minutos, se vai iniciar um debate que se prevê interessante sobre o Opus Dei e a influência da Igreja Católica na sociedade portuguesa.  

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Uma entrevista esclarecedora


Num comentário à última grande entrevista televisiva do primeiro-ministro Passos Coelho, o deputado líder do grupo parlamentar do PSD, Luís Montenegro, elogiou o entrevistado afirmando que a sua prestação tinha sido “esclarecedora”. Habitualmente tenho grande dificuldade em concordar com o que este Sr. afirma, mas desta vez aconteceu o contrário. Não posso estar mais de acordo. De facto, a entrevista foi muito esclarecedora. Ficou a perceber-se, em definitivo, que o primeiro-ministro Passos Coelho não é um homem bem-intencionado, convencido de que está a servir os superiores interesses da Nação. Não é um sujeito meramente equivocado, talvez por efeito nefasto da acção de maus conselheiros. Não, nada disso. É alguém que de forma bem consciente, de modo concertado, está a levar a cabo uma política de total destruição do Estado social criado no seguimento da Revolução de Abril de 1974. Política que tem em vista servir os interesses da alta finança.

A entrevista teve dois momentos de revoltante exibição de uma fria e desavergonhada imoralidade: primeiro, quando confrontado com a existência de 10 mil crianças com fome nas escolas do país, o chefe do Governo disse tratar-se de um facto lamentável mas que era efeito forçoso da austeridade indispensável à salvação do país. É triste, mas tem que ser assim. É o nosso fado. Eis a filosofia governativa. Fez lembrar o argumento belicista daqueles facínoras que diante dos cadáveres de crianças, mulheres e idosos indefesos falam tranquilamente de “efeitos colaterais”. No século XXI, crianças com fome nas escolas de um país do primeiro mundo é vergonha intolerável. É coisa puramente inaceitável. Como pode o primeiro-ministro de um país europeu dormir descansado sabendo que na pátria que governa há meninos a passar fome nos bancos da escola pública? O homem Pedro Passos Coelho que assim justifica o injustificável é o mesmo que dirige o PSD, partido que na Assembleia da República, há bem pouco tempo, não deixou passar uma proposta do Bloco de Esquerda para que houvesse uma redução geral de custos nas próximas campanhas eleitorais de todos os partidos. Esclarecedor, sem dúvida: para Pedro Passos Coelho a propaganda partidária é mais importante do que a resolução do vergonhoso e inadmissível problema da fome das crianças que frequentam a escola em Portugal. Isto, só por si, já justifica a imediata demissão deste primeiro-ministro. Porém, para meu espanto, não ouvi da boca de um único comentador político a mais leve alusão crítica a esta passagem da entrevista. Assustador! Como pode isto passar sem suscitar imediata e viva indignação aos comentadores de serviço?

O segundo momento de desbocada imoralidade foi aquele em que o primeiro-ministro, falando de forma muito clara, afirmou ser obrigatório cortar nos salários e nas prestações sociais, por corresponderem a 70% da despesa pública. Outra inevitabilidade. Onde estão então as famosas gorduras do Estado que encheram o seu discurso eleitoral? Onde está o cumprimento dessa fundamental promessa eleitoral? As gorduras, afinal, não existem? Corte obrigatório porquê? Porque, explica o governante, o pagamento dos juros aos credores externos é sagrado; vale mais do que as pessoas que sofrem. A ideia de que os juros devam ser renegociados à luz da inaceitabilidade do sofrimento humano e do empobrecimento de uma Nação é coisa que não passa pela mente do Senhor primeiro-ministro. Política sem moral. É o que isto é.

Quando uma política está divorciada da moral só há uma coisa a fazer: pôr fim a essa política. Além disso, a política do Governo, agora consubstanciada no Orçamento do Estado para 2013, é de novo inconstitucional, estando em completa dessintonia com as linhas mestras do programa eleitoral dos partidos da maioria, sufragado nas últimas eleições, bem como com o programa do Governo aprovado pela AR. Temos, portanto, um Governo que pratica uma política imoral, ilegal e sem legitimidade democrática.

Demitir o actual Governo tornou-se, a partir da noite da passada quarta-feira, uma prioridade ainda mais urgente.