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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Meteorito alfacinha


Curioso que não tenha havido nos últimos dias nenhuma referência pública (que eu tivesse visto) ao facto de ter ocorrido sobre Lisboa, há mais de 30 anos, durante a noite, um fenómeno idêntico ao que foi observado na passada sexta-feira na Rússia. Assim, o nosso meteorito, que não causou onda sónica, continuará travestido de nave espacial alienígena (a “explicação” que prevaleceu na época) e a colorir a memória de muitos incautos alfacinhas.
 
Lamentavelmente não me recordo da data exacta do acontecimento. Tenho ideia que foi no final dos anos setenta do século passado (1978 ou 79). Só tenho a certeza de que foi há mais de 30 anos. Lembro-me de ter ocorrido por volta da uma hora da madrugada. Foi testemunhado por uma equipa de reportagem da RTP que nesse momento circulava na zona do Marquês de Pombal. O efeito mais espectacular foi descrito pela jornalista que integrava essa equipa que regressava aos velhos estúdio do Lumiar: «Repentinamente ficou dia em Lisboa, durante cerca de 10 segundos; foi como se o Sol tivesse surgido no céu apenas durante uns segundos», disse a repórter numa peça que foi apresentada no Telejornal do dia seguinte. Esse depoimento deve estar ainda nos arquivos da RTP. Mas como comentou ontem, na minha página do Facebook, o também jornalista Milan Balinda, o problema é que, ao contrário do meteorito russo, deste nosso não ficou nenhum registo de imagem. Nesse então não havia câmaras de vigilância espalhadas por todo o lado, nem telemóveis. Foi no século passado…

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dúvidas em torno da renúncia de um Papa



A população católica – cada vez mais reduzida nos países com elevados índices de escolaridade – foi surpreendida pela resignação do Papa Bento XVI. Pondo de parte as amargas razões de saúde que estiveram na base da decisão papal, parece-me a mim, cidadão laico, tratar-se, em princípio, de uma boa notícia, por representar a saída de alguém que, no exercício de um cargo de poder, se opôs ao progresso civilizacional, bem como à modernização da Igreja. A apreciável erudição do teólogo Ratzinger sempre se traduziu em pensamento e acção de acentuado conservadorismo reaccionário. Algo que adquire particular gravidade quando, aproveitando-se da crença de muitos seres humanos, quarta a mais intima e privada liberdade das pessoas, estabelecendo, por exemplo, quais são os comportamentos sexuais virtuosos e os pecaminosos.

Para uma mente critico-racionalista e céptica, como a minha, causa espanto a desconsideração pela alegada omnisciência divina exibida pelos crentes católicos. Admitindo estes como verdade inquestionável que no conclave os cardeais eleitores escolhem o Papa em função de uma directa inspiração do espírito santo, como não estranhar o lapso de previsão? Como pôde escapar a um omnisciente a antevisão de que iriam faltar ao eleito Ratzinger as energias físicas e psíquicas requeridas para o cabal cumprimento da missão papal de representação terrena do próprio divino espírito inspirador? Como se justifica o divino lapso? E tendo-se tornado Papa «por vontade de Deus»,tal como afirmou o próprio sumo Pontífice logo após a sua eleição em Abril de 2005, como ousa agora o ainda Bispo de Roma contrariar essa suma vontade omnipotente? Como pode o humilde servidor contrariar assim a vontade do seu divino Senhor? Falou com o seu Deus antes de resignar, obtendo permissão para o gesto, responderão alguns. Muito bem. Mas então, se resignou também «por vontade de Deus», ou com o seu sapientíssimo agrément, como se justifica que os católicos que tenho escutado nas últimas horas falem invariavelmente de coragem, afirmando, como D, José Policarpo, tratar-se de «um acto extraordinariamente corajoso»? Que coragem, se a decisão foi tomada em sintonia com a vontade divina? Desculpem, mas tenho por hábito reservar o nobre substantivo para qualificar outro tipo de gestos, em que há clara exibição de grande firmeza de ânimo perante enormes perigos, riscos, sofrimentos, etc. Tendo a aquiescência, a concordância, a fiança de um ser omnisciente e, para mais, omnipotente, não vejo que coragem é requerida para avançar… Ou será que me está curta a inteligência?

Recorde-se que, na Europa, no coração da civilização moderna, um Estado como o Vaticano, Estado eclesiástico, não democrático, só pode “justificar-se” com base no suposto da crença religiosa num Deus pessoal demiúrgico, omnipotente, omnisciente, infinitamente bom e misericordioso.

Continuando a colocar-me na posição do crente católico, também não chego a entender as intervenções públicas de vários prelados da Igreja ao longo das últimas horas, discutindo quem deve ser o sucessor, se deve ser “de esquerda” ou “de direita” -- terminologia utilizada por um padre num telejornal. Mas se a escolha vai ser ditada pela vontade de Deus, porquê então tanta preocupação política? Por que temem uns que o sucessor de Bento XVI seja outro conservador e outros que possa ser um progressista que ponha fim a medievalismos como o da subalternização da mulher, o celibato, a condenação da homossexualidade, a proibição do uso de contraceptivos, a estigmatização do divórcio, o impedir da legalização da interrupção voluntária da gravidez ou da prática da eutanásia? Caramba! Não haverá em tudo isto despudorado excesso de contradição, de incoerência, de confusão e, pasme-se, de falta desbragada de Fé católica?

Não será o espectáculo a que temos assistido nos vários órgãos de comunicação desde a hora do anúncio público da resignação papal algo que, dado o contexto religioso, se pode baptizar de “salada de tretas”?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Um sinal da realidade presente

Começo por uma declaração de interesses: não conheço a SrªGlória Araújo, deputada da Assembleia da República, e até há bem pouco tempo nunca tinha ouvido falar de tal pessoa ou, pelo menos, não tinha retido o seu nome nem memória de nenhum acto por si praticado; não sou membro de nenhum partido político nem contrário à existência de nenhum dos partidos com representação parlamentar; para o que aqui pretendo sinalizar é absolutamente indiferente saber em que bancada do Parlamento se senta a referida Senhora, pelo que omito essa informação.

Pretendo tão só chamar a atenção para uma atitude protagonizada por uma deputada que, a meu ver, é exemplificativa do estado de saúde moral da sociedade em que vivemos. É o assumir de consciência relativamente a esse estado o que aqui verdadeiramente importa, no pressuposto de que esse assumir de consciência é passo necessário, se bem que não suficiente, para se encetar uma acção transformadora no sentido da superação de defeitos comprometedores da saúde do corpo social, da qualidade de vida colectiva.

A deputada Glória Araújo, que integra a Comissão de Ética da assembleia da República, encontrava-se alcoolizada ao volante de um automóvel no dia do seu aniversário, como foi testemunhado pelas autoridades policiais que a autuaram. O facto foi noticiado em toda a comunicação social. Decorrido que está já algum tempo, não consta que a Senhora tenha sido admoestada pelo Parlamento ou pelo Partido, e muito menos que se tenha demitido ou posto o seu lugar à disposição dos responsáveis do seu Partido. Conhecedor destes factos, e usando da sua legítima liberdade, um cidadão resolveu deixar um comentário na página da deputada no Facebook, dizendo que no seu entendimento «havia um preço a pagar para quem, como a deputada, representa o povo português». Segundo o Diário de Notícias (edição de ontem), a deputada respondeu ao cidadão nos seguintes termos:

«Também devia haver um preço para a estupidez e a cretinice. Parece-me é que não consegues pagá-lo. Vai moralizar a tua avó, cretino.”  

Assim falou a representante do povo para o membro do povo no uso da sua liberdade de criticar.

Faço minhas as palavras do jornalista do DN que passo a citar e que encerram a notícia: «ontem, a deputada não fazia anos. E à hora em causa, não teria estado em nenhum bar anteriormente. A resposta é, por tudo isso, ainda mais reveladora».

Será que vai haver alguma reacção oficial do Partido a que a Srª Glória Araújo pertence? Irá a Presidente da AR assumir alguma posição em face deste comportamento? Já passaram dois dias e, até agora, só consegui colher silêncio.

Opus Dei em debate


O Diário de Notícias iniciou ontem (dia 27 de Janeiro) a publicação de um trabalho de investigação jornalística sobre o Opus Dei, organização que cultiva uma concepção do mundo profundamente reaccionária, passadista, insuportavelmente vetusta, mas que não deixa de exercer influência em esferas decisivas no funcionamento da nossa sociedade. Num país quase despido de investigação jornalística, é sempre de louvar o esforço de contrariar essa escassez. Recomendo a leitura deste esclarecedor trabalho, que se prolonga pelas edições do DN de hoje e de amanhã, e lembro que às 11h., daqui a 15 minutos, se vai iniciar um debate que se prevê interessante sobre o Opus Dei e a influência da Igreja Católica na sociedade portuguesa.  

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Uma entrevista esclarecedora


Num comentário à última grande entrevista televisiva do primeiro-ministro Passos Coelho, o deputado líder do grupo parlamentar do PSD, Luís Montenegro, elogiou o entrevistado afirmando que a sua prestação tinha sido “esclarecedora”. Habitualmente tenho grande dificuldade em concordar com o que este Sr. afirma, mas desta vez aconteceu o contrário. Não posso estar mais de acordo. De facto, a entrevista foi muito esclarecedora. Ficou a perceber-se, em definitivo, que o primeiro-ministro Passos Coelho não é um homem bem-intencionado, convencido de que está a servir os superiores interesses da Nação. Não é um sujeito meramente equivocado, talvez por efeito nefasto da acção de maus conselheiros. Não, nada disso. É alguém que de forma bem consciente, de modo concertado, está a levar a cabo uma política de total destruição do Estado social criado no seguimento da Revolução de Abril de 1974. Política que tem em vista servir os interesses da alta finança.

A entrevista teve dois momentos de revoltante exibição de uma fria e desavergonhada imoralidade: primeiro, quando confrontado com a existência de 10 mil crianças com fome nas escolas do país, o chefe do Governo disse tratar-se de um facto lamentável mas que era efeito forçoso da austeridade indispensável à salvação do país. É triste, mas tem que ser assim. É o nosso fado. Eis a filosofia governativa. Fez lembrar o argumento belicista daqueles facínoras que diante dos cadáveres de crianças, mulheres e idosos indefesos falam tranquilamente de “efeitos colaterais”. No século XXI, crianças com fome nas escolas de um país do primeiro mundo é vergonha intolerável. É coisa puramente inaceitável. Como pode o primeiro-ministro de um país europeu dormir descansado sabendo que na pátria que governa há meninos a passar fome nos bancos da escola pública? O homem Pedro Passos Coelho que assim justifica o injustificável é o mesmo que dirige o PSD, partido que na Assembleia da República, há bem pouco tempo, não deixou passar uma proposta do Bloco de Esquerda para que houvesse uma redução geral de custos nas próximas campanhas eleitorais de todos os partidos. Esclarecedor, sem dúvida: para Pedro Passos Coelho a propaganda partidária é mais importante do que a resolução do vergonhoso e inadmissível problema da fome das crianças que frequentam a escola em Portugal. Isto, só por si, já justifica a imediata demissão deste primeiro-ministro. Porém, para meu espanto, não ouvi da boca de um único comentador político a mais leve alusão crítica a esta passagem da entrevista. Assustador! Como pode isto passar sem suscitar imediata e viva indignação aos comentadores de serviço?

O segundo momento de desbocada imoralidade foi aquele em que o primeiro-ministro, falando de forma muito clara, afirmou ser obrigatório cortar nos salários e nas prestações sociais, por corresponderem a 70% da despesa pública. Outra inevitabilidade. Onde estão então as famosas gorduras do Estado que encheram o seu discurso eleitoral? Onde está o cumprimento dessa fundamental promessa eleitoral? As gorduras, afinal, não existem? Corte obrigatório porquê? Porque, explica o governante, o pagamento dos juros aos credores externos é sagrado; vale mais do que as pessoas que sofrem. A ideia de que os juros devam ser renegociados à luz da inaceitabilidade do sofrimento humano e do empobrecimento de uma Nação é coisa que não passa pela mente do Senhor primeiro-ministro. Política sem moral. É o que isto é.

Quando uma política está divorciada da moral só há uma coisa a fazer: pôr fim a essa política. Além disso, a política do Governo, agora consubstanciada no Orçamento do Estado para 2013, é de novo inconstitucional, estando em completa dessintonia com as linhas mestras do programa eleitoral dos partidos da maioria, sufragado nas últimas eleições, bem como com o programa do Governo aprovado pela AR. Temos, portanto, um Governo que pratica uma política imoral, ilegal e sem legitimidade democrática.

Demitir o actual Governo tornou-se, a partir da noite da passada quarta-feira, uma prioridade ainda mais urgente.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Quando a informação devém diversão

Com tristeza, tenho assistido ao longo dos últimos dias à confusão, promovida pelos canais televisivos, entre o principal e o secundário. É ela mais um claro exemplo do grave fenómeno hodierno da metamorfose da informação em diversão. A prioridade é entreter quem está diante do ecrã. Refiro-me, como terão adivinhado, ao modo como o jornalismo televisivo abordou a greve geral de dia 14, a grande manifestação de rua que lhe esteve associada, as propostas concretas de uma política diferente, não austeritária, apresentadas pela CGTP, e o episódio final do apedrejamento de polícias levado a cabo por meia dúzia de imberbes energúmenos. Este episódio menor, ocorrido já depois do fim da manifestação e da jornada de greve, foi promovido à condição de acontecimento maior, tornando-se notícia principal e relegando para segundo plano a acção grevista de muitos milhares de trabalhadores, assim como o conteúdo da mensagem política apresentada pelos dirigentes sindicais, fundamentando os motivos do protesto nacional. O que devia ser prioritário conteúdo noticioso foi substituído por um atraente reality show televisivo, protagonizado pelos miúdos arruaceiros sistematicamente apelidados de “radicais” – por coincidência o mesmo termo adjectivante agora em uso para classificar determinados partidos políticos com assento parlamentar, como o PCP e o BE.

É a violência dada como espectáculo de TV. Que melhor pode haver para entreter o sujeito que olha para o ecrã sentado no sofá de sua casa? Um emocionante reality show, com baixos custos de produção, que para além do entretenimento que proporciona tem ainda a “virtude” ideológica de levar o desprotegido cidadão telespectador a supor que a verdadeira violência são aqueles actos de incendiar contentores do lixo, ou atirar calhaus, e não uma política governativa que extorque pensões e subsídios condenando seres humanos a viver com 300 ou 400 Euros mensais, retirando-lhes assim a possibilidade de manter uma vida digna. A grande Violência fica assim disfarçada por uma violência comparativamente insignificante.

Lamento que até os bons jornalistas/comentadores televisivos tenham embarcado nesta transformação da informação em mera diversão, parecendo ignorarem a gravidade desse fenómeno ensopado de ideologia que concorre para que o cidadão tenda a tornar-se um mero espectador passivo, um ser entretido, alguém que, divertido pelas imagens, se vai distanciando do acontecer real. É o assassinato do cidadão praticante. Em seu lugar é criado um sujeito social civicamente inactivo, passivo espectador entretido. E entretenimento gera, frequentemente, a distracção; pelo que, por efeito de uma realização televisiva e de critérios editoriais que metamorfoseiam a informação em diversão, o espectador, para gáudio do poder governamental, devém cidadão distraído. The show must go on? Não. Não tem, não deve, nem pode continuar.

João Maria de Freitas Branco

Artigo de opinião no jornal PÚBLICO

(Texto integral e com os sublinhados do autor)

domingo, 28 de outubro de 2012

Epidemia de imoralidade


EPIDEMIA DE IMORALIDADE

 

A exuberância do carecimento de ética no espaço societal e da quantidade de imoralidade que nos circunda tornou-se literalmente insuportável. Os acontecimentos que o atestam abatem-se sobre nós a todo o instante, qual chuva ininterrupta. Ainda estamos a repudiar um e já outro caso se abate sobre nós. Qualquer pessoa de bem está hoje condenado a sofrer de indignação crónica agravada por cíclicas crises de revolta. Pelo que me toca, assumo-me como indignado crónico. Logo após esse auge de imoralidade que foi o anúncio da redução do valor dos subsídios de desemprego mais baixos, quando ainda sangramos por efeito dessa inqualificável estocada, somos feridos com novo golpe de diferente tipo mas não menor efeito flagelante: confrontado com a manchete de um órgão de comunicação social de referência, o semanário Expresso, que na sua edição de ontem (ainda não visada pela censura) nos dá a conhecer novo contorno de um surreal caso de favorecimento escolar ilegítimo através da «atribuição de equivalência a cadeiras que não existiam» no currículo da universidade, o visado Sr.Relvas, um saliente membro do Governo (convém fazer notar), vem sorridentemente declarar em público, diante das câmaras de televisão e dos microfones, ter sido sempre «um exemplo». Como se a dose de despautério moral não fosse suficiente, o dito Sr. tem ainda o safado atrevimento de não apresentar de imediato o seu pedido de demissão que, aliás, já há muito tarda. E o primeiro-ministro não o demite? É cúmplice desse desconchavo moral? E o Presidente da República não diz nada? Não faz nada? Não sente a urgência de dar à Nação um qualquer sinal, por mais tímido que fosse, de preocupação moralizadora, de desconforto ético? Não há uma comissão de ética na Assembleia da República? Não reage? São todos cúmplices da imoralidade proliferante? Como é possível? Alguém tem que gritar Basta! Alguém tem que agir de forma a controlar a epidemia. Sim, porque é disso mesmo que se trata: de uma verdadeira epidemia de imoralidade que dia a dia se agrava diante dos olhos do cidadão vítima. É este o problema mais grave de todos, porque está na base de todos os outros.

O Sr Relvas é de facto um exemplo; mas um péssimo exemplo e não e desejável exemplo edificante que despudoradamente diz ser. É um detestável e intolerável exemplo de vigarice tolerada. Urge pôr cobro a esta indignidade.

Reconheço que esta cascata de escândalos concorre para o enriquecimento do anedotário nacional, semeia risos de escárnio nos rostos, espalha animação trocista colorindo alguns ambientes, tanto privados como públicos. É certo. Mas por favor não se deixem embalar, encantar, não se deixem iludir pelo talentoso e sempre fértil anedotário lusitano. Estamos em face de coisa muitíssimo gravosa: a acelerada deterioração do estado de saúde moral da nossa sociedade. A Nação está ética e moralmente enferma. Gravemente enferma! A epidemia avança sem administração de antídoto curativo.

Como educar os nossos jovens num ambiente destes, tão contaminado? Como formá-los com esta quantidade de imoralidade derramada? Como fazê-lo com estes tão constantes quanto indignos “exemplos de sucesso” que atraem para o desconcerto ético, para a desonestidade e a impudicícia? A epidemia é também ideológica, concorrendo para que o cidadão jovem se convença de que esse desconcerto é vantajoso no plano dos interesses pessoais, trazendo na prática mais benesses do que a honestidade e a integridade ética. O vírus epidémico é ideologicamente operativo.

O caso Relvas vai muito além da mera esfera pessoal: é exemplo paradigmático da completa falta de saúde moral da sociedade em que vivemos. Daí a sua relevância. A presença da fragrância relvas no Governo da Nação é cumplicidade com a pura vigarice.

Basta! Há que pôr termo à vida de um Governo desgovernado e desgovernante que se colocou a si próprio fora da lei sendo desmerecedor de respeito, de credibilidade, de confiança. A morte do Governo é uma necessidade política, mas também um imperativo ético no combate à epidemia que sobre nós se abateu.

                                                                                      João Maria de Freitas Branco

                                                                                      Domingo, 28 de Outubro de 2012