O Diário de Notícias iniciou ontem (dia 27 de Janeiro) a
publicação de um trabalho de investigação jornalística sobre o Opus Dei,
organização que cultiva uma concepção do mundo profundamente reaccionária, passadista,
insuportavelmente vetusta, mas que não deixa de exercer influência em esferas
decisivas no funcionamento da nossa sociedade. Num país quase despido de
investigação jornalística, é sempre de louvar o esforço de contrariar essa escassez.
Recomendo a leitura deste esclarecedor trabalho, que se prolonga pelas edições do
DN de hoje e de amanhã, e lembro que às 11h., daqui a 15 minutos, se vai
iniciar um debate que se prevê interessante sobre o Opus Dei e a influência da
Igreja Católica na sociedade portuguesa.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Uma entrevista esclarecedora
Num comentário à última grande entrevista televisiva do
primeiro-ministro Passos Coelho, o deputado líder do grupo parlamentar do PSD,
Luís Montenegro, elogiou o entrevistado afirmando que a sua prestação tinha
sido “esclarecedora”. Habitualmente tenho grande dificuldade em concordar com o
que este Sr. afirma, mas desta vez aconteceu o contrário. Não posso estar mais
de acordo. De facto, a entrevista foi muito esclarecedora. Ficou a perceber-se,
em definitivo, que o primeiro-ministro Passos Coelho não é um homem
bem-intencionado, convencido de que está a servir os superiores interesses da
Nação. Não é um sujeito meramente equivocado, talvez por efeito nefasto da
acção de maus conselheiros. Não, nada disso. É alguém que de forma bem
consciente, de modo concertado, está a levar a cabo uma política de total destruição
do Estado social criado no seguimento da Revolução de Abril de 1974. Política
que tem em vista servir os interesses da alta finança.
A entrevista teve dois momentos de revoltante exibição de
uma fria e desavergonhada imoralidade: primeiro, quando confrontado com a
existência de 10 mil crianças com fome nas escolas do país, o chefe do Governo disse
tratar-se de um facto lamentável mas que era efeito forçoso da austeridade
indispensável à salvação do país. É triste, mas tem que ser assim. É o nosso
fado. Eis a filosofia governativa. Fez lembrar o argumento belicista daqueles
facínoras que diante dos cadáveres de crianças, mulheres e idosos indefesos falam
tranquilamente de “efeitos colaterais”. No século XXI, crianças com fome nas
escolas de um país do primeiro mundo é vergonha intolerável. É coisa puramente inaceitável.
Como pode o primeiro-ministro de um país europeu dormir descansado sabendo que na
pátria que governa há meninos a passar fome nos bancos da escola pública? O
homem Pedro Passos Coelho que assim justifica o injustificável é o mesmo que dirige
o PSD, partido que na Assembleia da República, há bem pouco tempo, não deixou
passar uma proposta do Bloco de Esquerda para que houvesse uma redução geral de
custos nas próximas campanhas eleitorais de todos os partidos. Esclarecedor,
sem dúvida: para Pedro Passos Coelho a propaganda partidária é mais importante
do que a resolução do vergonhoso e inadmissível problema da fome das crianças
que frequentam a escola em Portugal. Isto, só por si, já justifica a imediata demissão
deste primeiro-ministro. Porém, para meu espanto, não ouvi da boca de um único
comentador político a mais leve alusão crítica a esta passagem da entrevista. Assustador!
Como pode isto passar sem suscitar imediata e viva indignação aos comentadores
de serviço?
O segundo momento de desbocada imoralidade foi aquele em que
o primeiro-ministro, falando de forma muito clara, afirmou ser obrigatório
cortar nos salários e nas prestações sociais, por corresponderem a 70% da
despesa pública. Outra inevitabilidade. Onde estão então as famosas gorduras do
Estado que encheram o seu discurso eleitoral? Onde está o cumprimento dessa fundamental
promessa eleitoral? As gorduras, afinal, não existem? Corte obrigatório porquê?
Porque, explica o governante, o pagamento dos juros aos credores externos é
sagrado; vale mais do que as pessoas que sofrem. A ideia de que os juros devam ser
renegociados à luz da inaceitabilidade do sofrimento humano e do empobrecimento
de uma Nação é coisa que não passa pela mente do Senhor primeiro-ministro. Política
sem moral. É o que isto é.
Quando uma política está divorciada da moral só há uma coisa
a fazer: pôr fim a essa política. Além disso, a política do Governo, agora
consubstanciada no Orçamento do Estado para 2013, é de novo inconstitucional, estando
em completa dessintonia com as linhas mestras do programa eleitoral dos
partidos da maioria, sufragado nas últimas eleições, bem como com o programa do
Governo aprovado pela AR. Temos, portanto, um Governo que pratica uma política
imoral, ilegal e sem legitimidade democrática.
Demitir o actual Governo tornou-se, a partir da noite da passada
quarta-feira, uma prioridade ainda mais urgente.
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João Maria de Freitas-Branco
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18:33
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Quando a informação devém diversão
Com tristeza, tenho assistido ao longo dos últimos dias à
confusão, promovida pelos canais televisivos, entre o principal e o secundário.
É ela mais um claro exemplo do grave fenómeno hodierno da metamorfose da
informação em diversão. A prioridade
é entreter quem está diante do ecrã.
Refiro-me, como terão adivinhado, ao modo como o jornalismo televisivo abordou
a greve geral de dia 14, a grande manifestação de rua que lhe esteve associada,
as propostas concretas de uma política diferente, não austeritária, apresentadas
pela CGTP, e o episódio final do apedrejamento de polícias levado a cabo por
meia dúzia de imberbes energúmenos. Este episódio menor, ocorrido já depois do
fim da manifestação e da jornada de greve, foi promovido à condição de
acontecimento maior, tornando-se notícia principal e relegando para segundo
plano a acção grevista de muitos milhares de trabalhadores, assim como o
conteúdo da mensagem política apresentada pelos dirigentes sindicais,
fundamentando os motivos do protesto nacional. O que devia ser prioritário
conteúdo noticioso foi substituído por um atraente reality show televisivo, protagonizado pelos miúdos arruaceiros
sistematicamente apelidados de “radicais” – por coincidência o mesmo termo
adjectivante agora em uso para classificar determinados partidos políticos com
assento parlamentar, como o PCP e o BE.
É a violência dada como espectáculo de TV. Que melhor pode
haver para entreter o sujeito que olha para o ecrã sentado no sofá de sua casa?
Um emocionante reality show, com
baixos custos de produção, que para além do entretenimento que proporciona tem
ainda a “virtude” ideológica de levar o desprotegido cidadão telespectador a
supor que a verdadeira violência são aqueles actos de incendiar contentores do
lixo, ou atirar calhaus, e não uma política governativa que extorque pensões e
subsídios condenando seres humanos a viver com 300 ou 400 Euros mensais,
retirando-lhes assim a possibilidade de manter uma vida digna. A grande
Violência fica assim disfarçada por uma violência comparativamente
insignificante.
Lamento que até os bons jornalistas/comentadores televisivos
tenham embarcado nesta transformação da informação em mera diversão, parecendo
ignorarem a gravidade desse fenómeno ensopado de ideologia que concorre para
que o cidadão tenda a tornar-se um mero espectador passivo, um ser entretido,
alguém que, divertido pelas imagens, se vai distanciando
do acontecer real. É o assassinato do cidadão
praticante. Em seu lugar é criado um sujeito social civicamente inactivo,
passivo espectador entretido. E entretenimento gera, frequentemente, a distracção;
pelo que, por efeito de uma realização televisiva e de critérios editoriais que
metamorfoseiam a informação em diversão, o espectador, para gáudio do poder
governamental, devém cidadão distraído.
The show must go on? Não. Não tem,
não deve, nem pode continuar.
João Maria de Freitas Branco
Artigo de opinião no jornal PÚBLICO
(Texto integral e com os sublinhados do autor)
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João Maria de Freitas-Branco
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domingo, 28 de outubro de 2012
Epidemia de imoralidade
EPIDEMIA DE
IMORALIDADE
A exuberância do carecimento de ética no espaço societal e
da quantidade de imoralidade que nos circunda tornou-se literalmente
insuportável. Os acontecimentos que o atestam abatem-se sobre nós a todo o
instante, qual chuva ininterrupta. Ainda estamos a repudiar um e já outro caso
se abate sobre nós. Qualquer pessoa de bem está hoje condenado a sofrer de
indignação crónica agravada por cíclicas crises de revolta. Pelo que me toca,
assumo-me como indignado crónico. Logo após esse auge de imoralidade que foi o
anúncio da redução do valor dos subsídios de desemprego mais baixos, quando
ainda sangramos por efeito dessa inqualificável estocada, somos feridos com
novo golpe de diferente tipo mas não menor efeito flagelante: confrontado com a
manchete de um órgão de comunicação social de referência, o semanário Expresso,
que na sua edição de ontem (ainda não visada pela censura) nos dá a conhecer
novo contorno de um surreal caso de favorecimento escolar ilegítimo através da «atribuição
de equivalência a cadeiras que não existiam» no currículo da universidade, o
visado Sr.Relvas, um saliente membro do Governo (convém fazer notar), vem
sorridentemente declarar em público, diante das câmaras de televisão e dos
microfones, ter sido sempre «um exemplo». Como se a dose de despautério moral
não fosse suficiente, o dito Sr. tem ainda o safado atrevimento de não
apresentar de imediato o seu pedido de demissão que, aliás, já há muito tarda.
E o primeiro-ministro não o demite? É cúmplice desse desconchavo moral? E o
Presidente da República não diz nada? Não faz nada? Não sente a urgência de dar
à Nação um qualquer sinal, por mais tímido que fosse, de preocupação moralizadora,
de desconforto ético? Não há uma comissão de ética na Assembleia da República?
Não reage? São todos cúmplices da imoralidade proliferante? Como é possível?
Alguém tem que gritar Basta! Alguém tem que agir de forma a controlar a
epidemia. Sim, porque é disso mesmo que se trata: de uma verdadeira epidemia de
imoralidade que dia a dia se agrava diante dos olhos do cidadão vítima. É este
o problema mais grave de todos, porque está na base de todos os outros.
O Sr Relvas é de facto um exemplo; mas um péssimo exemplo e
não e desejável exemplo edificante que despudoradamente diz ser. É um detestável
e intolerável exemplo de vigarice tolerada. Urge pôr cobro a esta indignidade.
Reconheço que esta cascata de escândalos concorre para o
enriquecimento do anedotário nacional, semeia risos de escárnio nos rostos, espalha
animação trocista colorindo alguns ambientes, tanto privados como públicos. É
certo. Mas por favor não se deixem embalar, encantar, não se deixem iludir pelo
talentoso e sempre fértil anedotário lusitano. Estamos em face de coisa
muitíssimo gravosa: a acelerada deterioração do estado de saúde moral da nossa
sociedade. A Nação está ética e moralmente enferma. Gravemente enferma! A
epidemia avança sem administração de antídoto curativo.
Como educar os nossos jovens num ambiente destes, tão
contaminado? Como formá-los com esta quantidade de imoralidade derramada? Como
fazê-lo com estes tão constantes quanto indignos “exemplos de sucesso” que
atraem para o desconcerto ético, para a desonestidade e a impudicícia? A
epidemia é também ideológica, concorrendo para que o cidadão jovem se convença
de que esse desconcerto é vantajoso no plano dos interesses pessoais, trazendo na
prática mais benesses do que a honestidade e a integridade ética. O vírus epidémico
é ideologicamente operativo.
O caso Relvas vai muito além da mera esfera pessoal: é
exemplo paradigmático da completa falta de saúde moral da sociedade em que
vivemos. Daí a sua relevância. A presença da fragrância relvas no Governo da
Nação é cumplicidade com a pura vigarice.
Basta! Há que pôr termo à vida de um Governo desgovernado e
desgovernante que se colocou a si próprio fora da lei sendo desmerecedor de
respeito, de credibilidade, de confiança. A morte do Governo é uma necessidade
política, mas também um imperativo ético no combate à epidemia que sobre nós se
abateu.
João Maria de Freitas Branco
Domingo, 28 de Outubro de 2012
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João Maria de Freitas-Branco
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quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Sobrenatural televisivo
Um dos mais desavergonhados exemplos daquilo a que chamo irracionalismo à solta foi dado a ver em
Portugal na TVi: um programa intitulado “Depois da vida” em que uma senhora de
nacionalidade inglesa (segundo julgo saber) que dizia possuir poderes
sobrenaturais “falava” com os mortos. É lamentável que em pleno século XXI um
canal de televisão que pretende apresentar-se como órgão de informação credível
produza uma aldrabice deste quilate. Este tipo de charlatães tem sido
desmascarado por várias entidades científicas e organizações, como por exemplo,
cá na nossa pátria, a Associação dos Cépticos de Portugal (CEPO – com site na
Internet), que se deram ao trabalho de dar a conhecer as técnicas de
manipulação utilizadas em espectáculos deste género e através das quais se
consegue que a mais pura falsidade pareça não o ser. O problema é a natural
tendência humana para o gosto da ilusão, o desejo que certas coisas mirabolantes
sejam verdade. Algo que logo facilmente se combina com esse infinito que dá pelo
nome de estupidez. Depois, a tudo isto ainda se vem adicionar a ignorância, a
falta de cultura científica, a desinformação.
Estou a falar deste caso porque recentemente um ex-funcionário
do canal televisivo espanhol que, à semelhança da TVi, produziu também o
programa da charlatã inglesa, a médium Anne Germain, veio a público contar como
é que a aldrabice era cozinhada nos bastidores com a cumplicidade dos
funcionários do canal televisivo, a Telecinco. Em Espanha o programa chamava-se
“Más allá de la vida”. Veio tudo publicado no conhecido diário El Mundo. Agora a TVi está confrontada
com um teste à sua seriedade enquanto órgão de informação nacional. Aguarda-se
que dê conhecimento do teor do trabalho jornalístico do El Mundo e que tenha a honestidade de revelar o que de semelhante por
cá ocorreu nos seus estúdios.
Que irá prevalecer? A racionalidade honesta ou a
irracionalidade desonesta ditada por interesses comercias? Como costumam dizer
os políticos da moda, aguardemos com serenidade.
NOTA: Quem esteja interessado em saber mais sobre as técnicas
de manipulação e construção da ilusão em casos como o do referido programa
televisivo, talvez se divirta com as indicações dadas pelo ilusionista inglês
Derren Brown, ele próprio um talentoso utilizador dessas técnicas. James Randi,
que tive o gosto de conhecer pessoalmente há alguns anos, também pode ajudar.
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João Maria de Freitas-Branco
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16:48
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Desgoverno
Escreve o sábio Amigo Eugénio Lisboa o seguinte:
«Todo o discurso político de V.Exas, os do governo, todas as
vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos [aos menos jovens] para o
cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o
urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o
conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de
algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a
propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas
não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão
ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando
uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num
período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o
tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção,
pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais
necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento
gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio
fiscal : subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência
salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo
pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição,
particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar
os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e
as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose
sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para
que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até
é nosso.»
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João Maria de Freitas-Branco
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10:21
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sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Retrato da situação
RETRATO DA SITUAÇÃO
O episódio do hastear da bandeira nacional em posição invertida,
durante a sessão solene do 5 de Outubro, teve a vantagem de simbolizar o estado
em que o país se encontra: de pernas para o ar, derrapando para um perigoso caos.
Compreende-se, por isso, que tenha sido este episódio a prender a maior parte
das atenções, tendo logo servido para apimentar o propósito crítico de variados
discursos de quem lucidamente condena a gravosa actuação do actual governo e a
sua política económico-financeira de extrema-direita. Isso mesmo logo pude eu observar
no local onde então me encontrava, no Congresso Democrático das Alternativas,
de que honrosamente fui um dos subscritores, e que estava a realizar-se à mesma
hora em que na Praça do Município ocorria o tão caricato quanto simbólico
episódio da bandeira invertida – acontecimento que até provavelmente irá
perpetuar-se na memória colectiva da Nação através de futuros manuais de história.
No entanto, permito-me discordar dessa focalização do reparo. Não creio ter
sido o hastear da bandeira o acontecimento simbolicamente mais forte daquela
manhã, em momento de evocação do triunfo dos ideais republicanos. O que a meu
ver mais deve merecer a nossa atenção como elemento portador de relevante simbolismo
é o protesto de uma mãe cidadã anónima contra uma política que a sujeita à
indignidade de ter que viver (sobreviver) com menos de 300 € de rendimento
mensal para sustentar uma família com filhos menores.
Perante esse sentido protesto legitimado pela realidade
obscena gerada por uma política obscena, o Senhor Presidente da República
continuou a discursar tranquilamente, sem dar sinal de qualquer sobressalto ou hesitação,
enquanto a referida cidadã era empurrada, admoestada, intimidada, mal tratada
por funcionários da segurança do Estado que desse modo prepotentemente grosseiro
asseguram aos políticos, representantes do povo, um “higiénico” distanciamento
do povo que dizem representar – até porque o povo, por surreal decisão de um
qualquer agente do poder, até estava impedido de participar na comemoração; não
tinha recebido convite…, porque comemorar a República sem povo sempre é coisa
mais asseada. Evita incómodos.
O chefe do Estado, o mais alto magistrado da Nação, não
parece ter sentido em nenhum instante a urgência de atender àquele angustiado grito
de socorro de uma mãe cidadã que corajosamente descera à rua, como as mulheres
e homens da festejada jornada de Outubro de 1910, com o nobre propósito de
criar justiça social, de lutar pela democracia e pela liberdade. Ao lado do Presidente
da República, participando na mesma sessão comemorativa de um gesto
revolucionário histórico, estavam as mais altas figuras do Estado. Todos
afinaram pelo diapasão do chefe máximo, exibindo, aparentemente, igual
indiferença. Não consta que nenhum deles tenha entretanto procurado contactar a
desesperada cidadã com o intuito de lhe aliviar a dor deveras sentida. Nada.
Absolutamente nada a não ser um estrondoso silêncio de insensibilidade. Esta
presidencial indiferença à mostra de sofrimento, à sinceridade da denúncia de
uma inadmissível situação de pobreza, diz muito, senão tudo, sobre a situação
em que estamos mas que temos de transformar, e já, começando por derrubar um governo
que se ilegitimou ao desrespeitar os programas eleitorais dos partidos que o
suportam, anulando o sentido do voto dos cidadãos eleitores que neles confiaram.
Traíram também o seu próprio programa governativo aprovado na Assembleia da
República.
O governo que ainda temos atenta contra a democracia, divorciou
a política da moral, colocou-se fora da lei e aniquilou a relação de confiança
entre eleitores e eleitos.
Tenho insistido (em outras intervenções públicas) em
recordar uma sábia descoberta científica do grande Charles Darwin apresentada
na obra The descent of man que se
pode enunciar assim: a simpatia [sympaty] é fundamento da civilização, a sua
base essencial, e resulta do instinto social da espécie de que fazemos parte.
Dito de outra forma, porventura mais consentânea com o vocabulário da cultura
judaico-cristã, sem compaixão, sem afecto pelo outro, não há civilização. No
século que antecedeu o de Darwin já o também britânico Adam Smith, no seu livro
The theory of moral sentiments (1759),
tinha colocado a sympaty no centro da
consciência moral e da dimensão ética do nosso comportamento enquanto
indivíduos no seio de uma sociedade. Quando os governantes ignoram o valor da simpatia, passam a estar despidos de
civilização e a sua presença torna-se insuportável por excesso de indecência.
Curiosamente, não obstante a notoriedade dos dois autores
que aqui evoco, os livros em que ambos de forma singularmente racional e lúcida
dissertaram sobre o valor da simpatia
são hoje obras votadas ao esquecimento, não lidas ou, numa visão optimista,
muito pouco lidas até mesmo na esfera das elites. Em nome da preservação da
civilização e do seu desenvolvimento talvez fosse bom reanimar o hábito de tais
leituras. O convívio com os clássicos é sempre saudável e potencialmente frutuoso.
Pelas razões aqui apresentadas, o episódio da manifestação
de indignação da cidadã anónima (mulher do povo em espaço vergonhosamente
vedado ao povo) e a correspondente atitude dos Senhores políticos e seus
lacaios parece-me possuir valor simbólico superior ao da bandeira hasteada em
posição invertida. Porque ele simboliza um intolerável défice de civilização na acção governativa. É
esse o défice mais nocivo; por isso mesmo, é esse défice moral e não financeiro
o que mais urge combater pondo fim à actual política (des)governativa.
Publicada por
João Maria de Freitas-Branco
à(s)
17:12
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