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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Uma entrevista esclarecedora


Num comentário à última grande entrevista televisiva do primeiro-ministro Passos Coelho, o deputado líder do grupo parlamentar do PSD, Luís Montenegro, elogiou o entrevistado afirmando que a sua prestação tinha sido “esclarecedora”. Habitualmente tenho grande dificuldade em concordar com o que este Sr. afirma, mas desta vez aconteceu o contrário. Não posso estar mais de acordo. De facto, a entrevista foi muito esclarecedora. Ficou a perceber-se, em definitivo, que o primeiro-ministro Passos Coelho não é um homem bem-intencionado, convencido de que está a servir os superiores interesses da Nação. Não é um sujeito meramente equivocado, talvez por efeito nefasto da acção de maus conselheiros. Não, nada disso. É alguém que de forma bem consciente, de modo concertado, está a levar a cabo uma política de total destruição do Estado social criado no seguimento da Revolução de Abril de 1974. Política que tem em vista servir os interesses da alta finança.

A entrevista teve dois momentos de revoltante exibição de uma fria e desavergonhada imoralidade: primeiro, quando confrontado com a existência de 10 mil crianças com fome nas escolas do país, o chefe do Governo disse tratar-se de um facto lamentável mas que era efeito forçoso da austeridade indispensável à salvação do país. É triste, mas tem que ser assim. É o nosso fado. Eis a filosofia governativa. Fez lembrar o argumento belicista daqueles facínoras que diante dos cadáveres de crianças, mulheres e idosos indefesos falam tranquilamente de “efeitos colaterais”. No século XXI, crianças com fome nas escolas de um país do primeiro mundo é vergonha intolerável. É coisa puramente inaceitável. Como pode o primeiro-ministro de um país europeu dormir descansado sabendo que na pátria que governa há meninos a passar fome nos bancos da escola pública? O homem Pedro Passos Coelho que assim justifica o injustificável é o mesmo que dirige o PSD, partido que na Assembleia da República, há bem pouco tempo, não deixou passar uma proposta do Bloco de Esquerda para que houvesse uma redução geral de custos nas próximas campanhas eleitorais de todos os partidos. Esclarecedor, sem dúvida: para Pedro Passos Coelho a propaganda partidária é mais importante do que a resolução do vergonhoso e inadmissível problema da fome das crianças que frequentam a escola em Portugal. Isto, só por si, já justifica a imediata demissão deste primeiro-ministro. Porém, para meu espanto, não ouvi da boca de um único comentador político a mais leve alusão crítica a esta passagem da entrevista. Assustador! Como pode isto passar sem suscitar imediata e viva indignação aos comentadores de serviço?

O segundo momento de desbocada imoralidade foi aquele em que o primeiro-ministro, falando de forma muito clara, afirmou ser obrigatório cortar nos salários e nas prestações sociais, por corresponderem a 70% da despesa pública. Outra inevitabilidade. Onde estão então as famosas gorduras do Estado que encheram o seu discurso eleitoral? Onde está o cumprimento dessa fundamental promessa eleitoral? As gorduras, afinal, não existem? Corte obrigatório porquê? Porque, explica o governante, o pagamento dos juros aos credores externos é sagrado; vale mais do que as pessoas que sofrem. A ideia de que os juros devam ser renegociados à luz da inaceitabilidade do sofrimento humano e do empobrecimento de uma Nação é coisa que não passa pela mente do Senhor primeiro-ministro. Política sem moral. É o que isto é.

Quando uma política está divorciada da moral só há uma coisa a fazer: pôr fim a essa política. Além disso, a política do Governo, agora consubstanciada no Orçamento do Estado para 2013, é de novo inconstitucional, estando em completa dessintonia com as linhas mestras do programa eleitoral dos partidos da maioria, sufragado nas últimas eleições, bem como com o programa do Governo aprovado pela AR. Temos, portanto, um Governo que pratica uma política imoral, ilegal e sem legitimidade democrática.

Demitir o actual Governo tornou-se, a partir da noite da passada quarta-feira, uma prioridade ainda mais urgente.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Quando a informação devém diversão

Com tristeza, tenho assistido ao longo dos últimos dias à confusão, promovida pelos canais televisivos, entre o principal e o secundário. É ela mais um claro exemplo do grave fenómeno hodierno da metamorfose da informação em diversão. A prioridade é entreter quem está diante do ecrã. Refiro-me, como terão adivinhado, ao modo como o jornalismo televisivo abordou a greve geral de dia 14, a grande manifestação de rua que lhe esteve associada, as propostas concretas de uma política diferente, não austeritária, apresentadas pela CGTP, e o episódio final do apedrejamento de polícias levado a cabo por meia dúzia de imberbes energúmenos. Este episódio menor, ocorrido já depois do fim da manifestação e da jornada de greve, foi promovido à condição de acontecimento maior, tornando-se notícia principal e relegando para segundo plano a acção grevista de muitos milhares de trabalhadores, assim como o conteúdo da mensagem política apresentada pelos dirigentes sindicais, fundamentando os motivos do protesto nacional. O que devia ser prioritário conteúdo noticioso foi substituído por um atraente reality show televisivo, protagonizado pelos miúdos arruaceiros sistematicamente apelidados de “radicais” – por coincidência o mesmo termo adjectivante agora em uso para classificar determinados partidos políticos com assento parlamentar, como o PCP e o BE.

É a violência dada como espectáculo de TV. Que melhor pode haver para entreter o sujeito que olha para o ecrã sentado no sofá de sua casa? Um emocionante reality show, com baixos custos de produção, que para além do entretenimento que proporciona tem ainda a “virtude” ideológica de levar o desprotegido cidadão telespectador a supor que a verdadeira violência são aqueles actos de incendiar contentores do lixo, ou atirar calhaus, e não uma política governativa que extorque pensões e subsídios condenando seres humanos a viver com 300 ou 400 Euros mensais, retirando-lhes assim a possibilidade de manter uma vida digna. A grande Violência fica assim disfarçada por uma violência comparativamente insignificante.

Lamento que até os bons jornalistas/comentadores televisivos tenham embarcado nesta transformação da informação em mera diversão, parecendo ignorarem a gravidade desse fenómeno ensopado de ideologia que concorre para que o cidadão tenda a tornar-se um mero espectador passivo, um ser entretido, alguém que, divertido pelas imagens, se vai distanciando do acontecer real. É o assassinato do cidadão praticante. Em seu lugar é criado um sujeito social civicamente inactivo, passivo espectador entretido. E entretenimento gera, frequentemente, a distracção; pelo que, por efeito de uma realização televisiva e de critérios editoriais que metamorfoseiam a informação em diversão, o espectador, para gáudio do poder governamental, devém cidadão distraído. The show must go on? Não. Não tem, não deve, nem pode continuar.

João Maria de Freitas Branco

Artigo de opinião no jornal PÚBLICO

(Texto integral e com os sublinhados do autor)

domingo, 28 de outubro de 2012

Epidemia de imoralidade


EPIDEMIA DE IMORALIDADE

 

A exuberância do carecimento de ética no espaço societal e da quantidade de imoralidade que nos circunda tornou-se literalmente insuportável. Os acontecimentos que o atestam abatem-se sobre nós a todo o instante, qual chuva ininterrupta. Ainda estamos a repudiar um e já outro caso se abate sobre nós. Qualquer pessoa de bem está hoje condenado a sofrer de indignação crónica agravada por cíclicas crises de revolta. Pelo que me toca, assumo-me como indignado crónico. Logo após esse auge de imoralidade que foi o anúncio da redução do valor dos subsídios de desemprego mais baixos, quando ainda sangramos por efeito dessa inqualificável estocada, somos feridos com novo golpe de diferente tipo mas não menor efeito flagelante: confrontado com a manchete de um órgão de comunicação social de referência, o semanário Expresso, que na sua edição de ontem (ainda não visada pela censura) nos dá a conhecer novo contorno de um surreal caso de favorecimento escolar ilegítimo através da «atribuição de equivalência a cadeiras que não existiam» no currículo da universidade, o visado Sr.Relvas, um saliente membro do Governo (convém fazer notar), vem sorridentemente declarar em público, diante das câmaras de televisão e dos microfones, ter sido sempre «um exemplo». Como se a dose de despautério moral não fosse suficiente, o dito Sr. tem ainda o safado atrevimento de não apresentar de imediato o seu pedido de demissão que, aliás, já há muito tarda. E o primeiro-ministro não o demite? É cúmplice desse desconchavo moral? E o Presidente da República não diz nada? Não faz nada? Não sente a urgência de dar à Nação um qualquer sinal, por mais tímido que fosse, de preocupação moralizadora, de desconforto ético? Não há uma comissão de ética na Assembleia da República? Não reage? São todos cúmplices da imoralidade proliferante? Como é possível? Alguém tem que gritar Basta! Alguém tem que agir de forma a controlar a epidemia. Sim, porque é disso mesmo que se trata: de uma verdadeira epidemia de imoralidade que dia a dia se agrava diante dos olhos do cidadão vítima. É este o problema mais grave de todos, porque está na base de todos os outros.

O Sr Relvas é de facto um exemplo; mas um péssimo exemplo e não e desejável exemplo edificante que despudoradamente diz ser. É um detestável e intolerável exemplo de vigarice tolerada. Urge pôr cobro a esta indignidade.

Reconheço que esta cascata de escândalos concorre para o enriquecimento do anedotário nacional, semeia risos de escárnio nos rostos, espalha animação trocista colorindo alguns ambientes, tanto privados como públicos. É certo. Mas por favor não se deixem embalar, encantar, não se deixem iludir pelo talentoso e sempre fértil anedotário lusitano. Estamos em face de coisa muitíssimo gravosa: a acelerada deterioração do estado de saúde moral da nossa sociedade. A Nação está ética e moralmente enferma. Gravemente enferma! A epidemia avança sem administração de antídoto curativo.

Como educar os nossos jovens num ambiente destes, tão contaminado? Como formá-los com esta quantidade de imoralidade derramada? Como fazê-lo com estes tão constantes quanto indignos “exemplos de sucesso” que atraem para o desconcerto ético, para a desonestidade e a impudicícia? A epidemia é também ideológica, concorrendo para que o cidadão jovem se convença de que esse desconcerto é vantajoso no plano dos interesses pessoais, trazendo na prática mais benesses do que a honestidade e a integridade ética. O vírus epidémico é ideologicamente operativo.

O caso Relvas vai muito além da mera esfera pessoal: é exemplo paradigmático da completa falta de saúde moral da sociedade em que vivemos. Daí a sua relevância. A presença da fragrância relvas no Governo da Nação é cumplicidade com a pura vigarice.

Basta! Há que pôr termo à vida de um Governo desgovernado e desgovernante que se colocou a si próprio fora da lei sendo desmerecedor de respeito, de credibilidade, de confiança. A morte do Governo é uma necessidade política, mas também um imperativo ético no combate à epidemia que sobre nós se abateu.

                                                                                      João Maria de Freitas Branco

                                                                                      Domingo, 28 de Outubro de 2012

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sobrenatural televisivo


Um dos mais desavergonhados exemplos daquilo a que chamo irracionalismo à solta foi dado a ver em Portugal na TVi: um programa intitulado “Depois da vida” em que uma senhora de nacionalidade inglesa (segundo julgo saber) que dizia possuir poderes sobrenaturais “falava” com os mortos. É lamentável que em pleno século XXI um canal de televisão que pretende apresentar-se como órgão de informação credível produza uma aldrabice deste quilate. Este tipo de charlatães tem sido desmascarado por várias entidades científicas e organizações, como por exemplo, cá na nossa pátria, a Associação dos Cépticos de Portugal (CEPO – com site na Internet), que se deram ao trabalho de dar a conhecer as técnicas de manipulação utilizadas em espectáculos deste género e através das quais se consegue que a mais pura falsidade pareça não o ser. O problema é a natural tendência humana para o gosto da ilusão, o desejo que certas coisas mirabolantes sejam verdade. Algo que logo facilmente se combina com esse infinito que dá pelo nome de estupidez. Depois, a tudo isto ainda se vem adicionar a ignorância, a falta de cultura científica, a desinformação.

Estou a falar deste caso porque recentemente um ex-funcionário do canal televisivo espanhol que, à semelhança da TVi, produziu também o programa da charlatã inglesa, a médium Anne Germain, veio a público contar como é que a aldrabice era cozinhada nos bastidores com a cumplicidade dos funcionários do canal televisivo, a Telecinco. Em Espanha o programa chamava-se “Más allá de la vida”. Veio tudo publicado no conhecido diário El Mundo. Agora a TVi está confrontada com um teste à sua seriedade enquanto órgão de informação nacional. Aguarda-se que dê conhecimento do teor do trabalho jornalístico do El Mundo e que tenha a honestidade de revelar o que de semelhante por cá ocorreu nos seus estúdios.
Que irá prevalecer? A racionalidade honesta ou a irracionalidade desonesta ditada por interesses comercias? Como costumam dizer os políticos da moda, aguardemos com serenidade.

 

NOTA: Quem esteja interessado em saber mais sobre as técnicas de manipulação e construção da ilusão em casos como o do referido programa televisivo, talvez se divirta com as indicações dadas pelo ilusionista inglês Derren Brown, ele próprio um talentoso utilizador dessas técnicas. James Randi, que tive o gosto de conhecer pessoalmente há alguns anos, também pode ajudar.

Desgoverno


 Com a sua habitual lucidez de intelectual autêntico, Eugénio Lisboa, destacada figura da nossa cultura que tem a generosidade de ser meu amigo, tendo tido até a bondade de se ocupar da apresentação pública de um dos meus últimos livros (Agostinho da Silva: um perfil filosófico, editado pela Zéfiro), tomou recentemente a iniciativa de escrever uma carta aberta ao Senhor Primeiro-Ministro do Governo que, de momento, de forma legal mas ilegitimamente nos desgoverna. Pela justeza do que aí é afirmado, assim como pelo recorte literário de rara mestria que serve esse conteúdo crítico-opinativo, aqui transcrevo um trecho dessa escrita epistolar que bem merece leitura integral na página do Facebook da “Associação 25 de Abril”. A minha transcrição é ao mesmo tempo manifestação de apoio, homenagem e convite para essa leitura completa.

Escreve o sábio Amigo Eugénio Lisboa o seguinte:  

«Todo o discurso político de V.Exas, os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos [aos menos jovens] para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal : subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.»

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Retrato da situação


RETRATO DA SITUAÇÃO

O episódio do hastear da bandeira nacional em posição invertida, durante a sessão solene do 5 de Outubro, teve a vantagem de simbolizar o estado em que o país se encontra: de pernas para o ar, derrapando para um perigoso caos. Compreende-se, por isso, que tenha sido este episódio a prender a maior parte das atenções, tendo logo servido para apimentar o propósito crítico de variados discursos de quem lucidamente condena a gravosa actuação do actual governo e a sua política económico-financeira de extrema-direita. Isso mesmo logo pude eu observar no local onde então me encontrava, no Congresso Democrático das Alternativas, de que honrosamente fui um dos subscritores, e que estava a realizar-se à mesma hora em que na Praça do Município ocorria o tão caricato quanto simbólico episódio da bandeira invertida – acontecimento que até provavelmente irá perpetuar-se na memória colectiva da Nação através de futuros manuais de história. No entanto, permito-me discordar dessa focalização do reparo. Não creio ter sido o hastear da bandeira o acontecimento simbolicamente mais forte daquela manhã, em momento de evocação do triunfo dos ideais republicanos. O que a meu ver mais deve merecer a nossa atenção como elemento portador de relevante simbolismo é o protesto de uma mãe cidadã anónima contra uma política que a sujeita à indignidade de ter que viver (sobreviver) com menos de 300 € de rendimento mensal para sustentar uma família com filhos menores.

Perante esse sentido protesto legitimado pela realidade obscena gerada por uma política obscena, o Senhor Presidente da República continuou a discursar tranquilamente, sem dar sinal de qualquer sobressalto ou hesitação, enquanto a referida cidadã era empurrada, admoestada, intimidada, mal tratada por funcionários da segurança do Estado que desse modo prepotentemente grosseiro asseguram aos políticos, representantes do povo, um “higiénico” distanciamento do povo que dizem representar – até porque o povo, por surreal decisão de um qualquer agente do poder, até estava impedido de participar na comemoração; não tinha recebido convite…, porque comemorar a República sem povo sempre é coisa mais asseada. Evita incómodos.

O chefe do Estado, o mais alto magistrado da Nação, não parece ter sentido em nenhum instante a urgência de atender àquele angustiado grito de socorro de uma mãe cidadã que corajosamente descera à rua, como as mulheres e homens da festejada jornada de Outubro de 1910, com o nobre propósito de criar justiça social, de lutar pela democracia e pela liberdade. Ao lado do Presidente da República, participando na mesma sessão comemorativa de um gesto revolucionário histórico, estavam as mais altas figuras do Estado. Todos afinaram pelo diapasão do chefe máximo, exibindo, aparentemente, igual indiferença. Não consta que nenhum deles tenha entretanto procurado contactar a desesperada cidadã com o intuito de lhe aliviar a dor deveras sentida. Nada. Absolutamente nada a não ser um estrondoso silêncio de insensibilidade. Esta presidencial indiferença à mostra de sofrimento, à sinceridade da denúncia de uma inadmissível situação de pobreza, diz muito, senão tudo, sobre a situação em que estamos mas que temos de transformar, e já, começando por derrubar um governo que se ilegitimou ao desrespeitar os programas eleitorais dos partidos que o suportam, anulando o sentido do voto dos cidadãos eleitores que neles confiaram. Traíram também o seu próprio programa governativo aprovado na Assembleia da República.

O governo que ainda temos atenta contra a democracia, divorciou a política da moral, colocou-se fora da lei e aniquilou a relação de confiança entre eleitores e eleitos.

Tenho insistido (em outras intervenções públicas) em recordar uma sábia descoberta científica do grande Charles Darwin apresentada na obra The descent of man que se pode enunciar assim: a simpatia [sympaty] é fundamento da civilização, a sua base essencial, e resulta do instinto social da espécie de que fazemos parte. Dito de outra forma, porventura mais consentânea com o vocabulário da cultura judaico-cristã, sem compaixão, sem afecto pelo outro, não há civilização. No século que antecedeu o de Darwin já o também britânico Adam Smith, no seu livro The theory of moral sentiments (1759), tinha colocado a sympaty no centro da consciência moral e da dimensão ética do nosso comportamento enquanto indivíduos no seio de uma sociedade. Quando os governantes ignoram o valor da simpatia, passam a estar despidos de civilização e a sua presença torna-se insuportável por excesso de indecência.

Curiosamente, não obstante a notoriedade dos dois autores que aqui evoco, os livros em que ambos de forma singularmente racional e lúcida dissertaram sobre o valor da simpatia são hoje obras votadas ao esquecimento, não lidas ou, numa visão optimista, muito pouco lidas até mesmo na esfera das elites. Em nome da preservação da civilização e do seu desenvolvimento talvez fosse bom reanimar o hábito de tais leituras. O convívio com os clássicos é sempre saudável e potencialmente frutuoso.

Pelas razões aqui apresentadas, o episódio da manifestação de indignação da cidadã anónima (mulher do povo em espaço vergonhosamente vedado ao povo) e a correspondente atitude dos Senhores políticos e seus lacaios parece-me possuir valor simbólico superior ao da bandeira hasteada em posição invertida. Porque ele simboliza um intolerável défice de civilização na acção governativa. É esse o défice mais nocivo; por isso mesmo, é esse défice moral e não financeiro o que mais urge combater pondo fim à actual política (des)governativa.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Controvérsia e honestidade intelectual

Tenho para mim como certo que a prática da autêntica controvérsia – a que é ética e racionalmente orientada, fundamentada, protagonizada por gente de carácter -- é coisa salutar na vida de uma sociedade; forte sintoma de progresso civilizacional, bem como indício de higiene cultural e do bom estado de saúde de uma cultura nacional.

Ao longo da história, os grandes saltos civilizacionais estiveram associados a situações de coabitação/confronto de ideias, de concepções, de teorias, de crenças, de formas de estar na vida, de culturas diferentes ou até mesmo opostas. Daí que o aperceber-me do emergir de controvérsia, de uma nova polémica, me desperte instintivo regozijo. Mas como se sabe, é coisa que escasseia por estas bandas. António Sérgio já nos deixou há mais de 40 anos… ; e mesmo esse, com a grandeza do seu polemicar enformado em magnífica prosa de ideias (de raríssima qualidade estético-literária), não deixou de se ver incompreendido, alvo de golpes, vilipendiado até, por ter cultivado esse tão salutar hábito de exercitação intelectual das mentes, mas usança dessintonizada com a tradição cultural do luso torrão. Porém, pior, muito pior do que a lamentável míngua é a insuportável confusão entre crítica e ataque. Quando é que neste nosso solo pátrio se entenderá que uma crítica não é um ataque pessoal, não é um acto de agressão ou de perseguição contra um determinado sujeito? Quanto tempo será ainda preciso esperar pela superação dessa estúpida confusão?

O mais recente exemplo desse néscio confundir tem sido exibido nas páginas do jornal Público em torno da breve História de Portugal dirigida por Rui Ramos. Quando a obra foi publicada, creio que há cerca de três anos, logo me supus potencial comprador, satisfeito por ver aparecer novo trabalho historiográfico deste tipo, obra sintética mas sem cedência no rigor, oferecendo uma panorâmica geral da nossa história. As obras de Oliveira Marques e José Hermano Saraiva já estavam à distância de duas décadas sem que tivesse havido nenhuma outra semelhante iniciativa editorial digna de registo. Mas como todo o bom comprador, gosto de saber ao que vou. Por isso, quando o livro apareceu nos escaparates folheei-o numa livraria, entregando-me à leitura de algumas passagens e dando especial atenção à parte dedicada ao século XX que pela primeira vez, em obra deste género, abarcava o período pós-25 de Abril. Verifiquei então que a I República era apresentada como tendo sido uma época de terror, verdadeiro regime ditatorial, e que o Estado Novo não tinha sido um regime obscenamente opressor a que a Revolução dos Cravos veio pôr cobro, até porque, afinal, foi esta que veio implementar a opressão, as arbitrariedades persecutórias por delito de opinião, e outros males depois contrariados pelos democratas de Novembro de 1975. Podia ter ficado com os cabelos em pé – espero que tenha sido essa a reacção de muitos leitores --, mas no meu caso, com o tempo que levo de permanência no Planeta, já nada me provoca espanto no plano das atitudes humanas; até porque, como Einstein, sei que a estupidez humana é infinita e já me basta o esforço quotidiano de tentar moderar a minha. Mas o não me espantar não significa indiferença, nem inacção cívica. Se assim fosse, não estaria aqui a entregar-me ao esforço da escrita empunhando a caneta como arma interventiva.

Ao ter o livro nas mãos, apercebi-me rapidamente de que, na parte dedicada ao século XX (a única aqui em causa), a leitura dos acontecimentos históricos era preponderantemente ideológica. A selecção das fontes era pouco criteriosa, acentuando a falta geral de sustentação histórica, bem como de um cuidar preblematizador. Havia pouca cientificidade no empreendimento historiográfico, ou, pelo menos, assim me pareceu poder concluir após esse breve examinar. Como tal, deixei de ser um potencial comprador e fui alimentar o meu inesgotável gosto pelos livros para outras bandas, mas levando comigo o intimo convencimento de que a coisa ia gerar polémica pública, alargada ao espaço extra-universitário.

Como se vê, foi preciso esperar bastante tempo – o que não deixa de ser sintomático.

Na aparência surgiu agora. Só que transportando a vetusta confusão viciadora que logo a condena a deixar de ser o que pretendia ser: uma verdadeira polémica, uma controvérsia elevada, elucidativa. Manuel Loff criticou o trabalho historiográfico de Rui Ramos. Este não se sentiu criticado mas sim atacado. Vai daí, ofende-se, monta barricada, arremessa pedra, assumindo papel de vítima de agressão, de perseguição pessoal. O tradicional costume… Como se tal não bastasse para comprometer toda a nobreza da prática da controvérsia, vem a terreiro Filomena Mónica para dizer que a deturpação de textos está inscrita no DNA dos comunistas, que Loff é comunista e que portanto deturpa, mente (naturalmente) e só diz disparates; e remata a prosa apelando à necessidade de silenciar esse tipo de gente, deixando até, à direcção do jornal Público, a diligente indicação de que deverá passar a recusar (ou será antes censurar?) textos assinados por esse tipo de articulistas marxistas-leninistas. Polémica para quê? Amordace-se o Loff! E Já! Eis a recomendação de quem simultaneamente confessa gostar da controvérsia. Imagine-se ao que podia chegar se não tivesse esse gostinho…

Onde está a discussão de ideias? Onde ficou o espírito crítico-racional? Onde pára o esforço de busca de elementos de sustentação histórica? Onde estão os zelos de argumentação e contra-argumentação fundamentada? Onde está o rigor metodológico? Por onde anda a racionalidade científica, a atitude científica?

Como pode haver controvérsia e enriquecimento cultural através dela se nenhum destes pressupostos que a sustentam está presente?

O que está aqui em causa é a honestidade intelectual. Eis a questão. Ou, enunciado de outro modo, talvez mais adequado, o problema maior é a quantidade de desonestidade intelectual à solta nesta nossa sociedade repleta de democratas do pensamento único. Será que devemos passar a falar de corrupção intelectual? E nesse caso, haverá forma de legislar contra o fenómeno, de lhe dar enquadramento penal, de modo a evitar a proliferação epidémica?

Na passada quarta-feira (dia 5/9/12) Fernando Rosas não se conteve perante aquilo a que chama «o inacreditável artigo de Filomena Mónica» (Público, edição de 1/8) – texto que (talvez para meu descanso estival) me escapou e só li depois dessa pertinente intervenção crítico-dilucidativa de quem é um dos principais investigadores da história do século XX português. Diz Fernando Rosas:

«[…] intelectualmente inaceitável é que alguns dos candidatos do costume a sacerdotes do “pensamento único” venham ameaçar com a excomunhão do seu mundo civilizado quem não aceitar o que eles parece quererem transformar numa espécie de cartilha “normalizadora” do salazarismo e da sua representação histórica. Peço licença para dizer que, como historiador e como cidadão, não me intimidam.»

Também a mim não me intimidam.