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segunda-feira, 9 de abril de 2012

É urgente estudar Darwin

Charles Darwin (o homem e a obra) devia ser objecto prioritário de estudo nas nossas escolas. É o que penso e inequivocamente afirmo. Não movido por qualquer sectária preferência subjectiva, ou por considerar possuir o naturalista inglês grandeza superior à de qualquer outro dos Grandes da ciência, e menos ainda por supor a sua esplêndida Teoria da Evolução mais valiosa do que as restantes principais construções teoréticas da história da ciência. Não, nada disso. Apenas me parece que Darwin constitui, em si mesmo, um modelo exemplar do que se entende por atitude científica, tendo sobre outros a vantagem de o seu exemplo de esforço cognitivo incidir sobre um domínio que ao longo de largas centúrias foi coutada privilegiada dos sistemas ideológico-práticos da obediência, já tão preocupantes para o nosso bom Espinosa; ou seja, o estudo e compreensão do humano, incluindo o velho problema da origem deste homo sapiens que narcisicamente dizemos ser.
A primeiríssima função intelectual da Escola devia consistir na semeadura de racionalidade crítico-dubitativa, de modo a legar à sociedade espíritos libérrimos, expurgados de vícios de pensamento primários, como aqueles que estão na base das formas de embriaguez intelectual -- vícios que são sustento do irracional, da superstição, do sobrenatural, da vulgar crença, do culto do mistério insondável. Isto é, os nossos jovens deviam assimilar nos bancos da escola as ferramentas mentais indispensáveis para escudar o cidadão, para lhe criar alguma imunidade mental aos vírus ideológicos em circulação, permitindo-lhe enfrentar com audácia aquilo a que tenho insistido chamar a cultura da confusão – essencial e indispensável serva da dependência em detrimento da autonomia, da emancipação.
Darwin representa um maravilhoso momento de concretização da ciência adulta, ou seja, de uma ciência expurgada de crença, por ter desenvolvido instrumentos (materiais e imateriais) de verificação racional, assumindo, ao mesmo tempo, consciência da absoluta indispensabilidade desse mesmo instrumentário, porque qualquer excepção a essa atitude metodológica escancara a porta à tal embriaguez intelectual, permitindo-lhe avançar, instalando a confusão dominadora. Essa confusão promotora do estado de dependência.
Darwin tem, portanto, um valor universal, que se estende a todo o espaço cultural. Aliás como logo no seu século foi percebido pelos espíritos atentos. O darwinismo constituiu um passo decisivo no processo geral de dessacralização do Real. Ao fazer com que a ciência se libertasse dos prejudiciais efeitos da metafísica e da teologia natural ele enviou ondas de choque em todas as direcções, ondas que não tardaram a surtir efeitos nos mais diferentes espaços disciplinares, da literatura à política.
Devemos aos iluministas do século XVIII o decisivo desvendamento do elo ancestral, presente em todas as sociedades, entre a crença, os mitos, a sacralização, os mistérios, a institucionalização de cultos (religiosos ou profanos) e o Poder – incluindo, claro está, o exercício do poder político na esfera da práxis, a governação. Daí que só uma muito excessiva ingenuidade possa levar alguém a ignorar que o fazer com que se ensine mais Darwin nas escolas não é procedimento fácil, nem gesto que escape a resistências de variado timbre.
A actual fraca presença do darwinismo nos programas escolares é um escândalo intelectual nada ingénuo. Não é fruto do acaso, da mera incompetência ou de uma qualquer desatenção, um desses “lapsos” ministeriais agora em voga. Também não consigo ser suficientemente ingénuo para poder acreditar que a resistência não esteja também solidamente instalada dentro da escola, entre a população docente. Que outra coisa se pode esperar face a um trabalho científico, o de Darwin, que de modo tão profundo e consistente veio colocar em evidência o facto de, chegada ao seu estado adulto, a ciência ser necessariamente ateia?
Mas exactamente como Darwin e com Darwin temos que continuar a investir no esforço de estruturação do moderno pensamento emancipador. Parte importante desse esforço consiste em colocar mais Darwin, mais darwinismo nos programas escolares (em todos, ou quase todos, e não apenas nos da disciplina de biologia), dando simultaneamente formação aos docentes para que desses novos conteúdos programáticos possam tirar máximo proveito no âmbito da nobre função pedagógica de edificação da racionalidade, pois que, como gostaria de recordar um celebrado filósofo contemporâneo de Darwin, a razão sempre existiu, só que não sempre na forma racional. É por isso necessário educar para a racionalidade, fazendo com que a razão exista na forma racional. Um contributo pedagógico-formativo que legitimamente podemos esperar e desejar que seja legado pelas nossas escolas.

NOTA: Para melhor compreensão do que entendo por “confusão”, leia-se o meu ensaio “Racionalidade: confusão e anti-confusão”, publicado em Razão Activa, Boletim da Fundação Internacional Racionalista, Abril de 2003, pp.21-30. Também publicado neste blog, se bem que não integralmente e com alguns defeitos formais causados por limitações informáticas (v. índice).

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Branqueamento da corrupção, esclerose da Democracia

A corrupção é um fortíssimo factor de corrosão da democracia. Se um Estado democrático não possui legislação eficaz no combate à corrupção, não conseguirá sobreviver. O cidadão comum tenderá a deixar de acreditar nas qualidades da democracia, deixando esta de ter a base social de apoio indispensável à sua continuidade. Em países como o nosso, certos escritórios de advocacia têm contribuído deliberada e decisivamente para a proliferação da actividade corrupta, bem como para a impunidade de que gozam os agentes da corrupção. Atitude que se tem revelado bem lucrativa a vários níveis. É necessário denunciar esta realidade para que o cidadão possa assumir clara consciência das causas profundas, propositadamente ocultadas, deste perigoso fenómeno lesivo da saúde do corpo social. É por isso de louvar a lúcida declaração do fiscalista Tiago Caiado Guerreiro numa recente emissão televisiva, no canal SIC-Notícias (programa “Opinião Pública”). Sem papas na língua, como bem convém neste contexto temático, disse ele o seguinte: «Nós não temos um combate à corrupção. Temos normas de branqueamento, que é uma coisa diferente… […] Temos normas que tornam totalmente impossível apanhar um corrupto em Portugal. As normas são feitas exactamente para não ser possível apanhar as pessoas em situação de corrupção e não se conseguir provar em tribunal. […] Sempre que eles [os legisladores] alteram as normas de corrupção, tornam-nas mais incompreensíveis e mais impossíveis de aplicar pelos tribunais e pela investigação.»
A defesa de uma sociedade e de um sistema político assente na elevação moral e, consequentemente, mais são, passa pelo banimento das normas em vigor, criando nova legislação de real eficácia prática. Tarefa que se me afigura fácil de lavar a cabo. Basta copiar a legislação de países como a Suécia ou a Dinamarca.

sábado, 16 de julho de 2011

Citações 2

«Our civilization is still in a middle stage, scarcely beast, in that it is no longer guided by instinct, scarcely human in that it is not yet wholly guided by reason.»
Theodore Dreiser

domingo, 29 de maio de 2011

Do esgotamento à regeneração

Artigo de opinião inserido na edição da passada quinta-feira, dia 26 de Maio, do jornal PÚBLICO. Por imperativo editorial o texto públicado no jornal sofreu alguns cortes. O que agora aqui se dá a conhecer é a versão original e integral desse artigo de opinião que o autor foi convidado a escrever.


Do esgotamento à regeneração

A Pátria que nos é presente entristece pela ausência de nobreza, pelo empobrecimento material e espiritual – sendo este causa daquele. Mais do que a bancarrota, o que me indispõe é a banalização da imoralidade, o deficit ético-moral gerador de injustiça. O “representante” é por muitos visto como inimigo. Inundado de indecências o cidadão naufraga num pântano de desânimo, sendo o seu estado de alma incompatível com o desenvolvimento. Falta bondade e nobreza na política real. A sã República precisa de nobres políticos; esses que se esforçam para se tornarem dispensáveis, sendo exemplo de servidão. Pois, como dizia o lúcido Ortega y Gasset, o nobre é aquele que vive em essencial servidão.
Não deposito esperança no acto eleitoral que se avizinha. Está contaminado de incultura, ignorância, estupidez, propaganda, ilusionismo, falsas evidências. Sabendo ir provocar exaltada indignação nos sacerdotes da normalidade democrática, ouso declarar que não me sinto obrigado a respeitar o resultado eleitoral. Bem pelo contrário: sinto obrigação intelectual de não o respeitar. Porquê? Porque a ignorância, a mentira, a manipulação, a demagogia, a estupidez não devem ser respeitadas e o resultado das eleições vai ser natural efeito de tudo isso. Tal como são realizadas, as eleições são instrumento denegatório da democracia. Se esta é a consagração do poder da maioria, o que se tem visto é o oposto: nos últimos anos, o PS governou com o apoio de 22% dos eleitores inscritos e o não apoio de quase 80%. Desavergonhadamente chama-se “vitória democrática” a esse voto minoritário. A democracia real, esta que temos, deveio democracia contra os cidadãos em que o representante, como o Poeta, é um fingidor e a participação uma quase ilusão. Alguém ainda pode acreditar que eleições deste tipo traduzem a efectiva vontade popular? Que são instrumento consignador da soberania do Povo?
A segunda Republica (que para alguns é a terceira) está esgotada. A inconstitucionalidade do programa da troika também o mostra, se bem que ninguém refira essa gritante ilegalidade violentadora do espírito que presidiu à edificação do regime derivado da Revolução dos Cravos. Na singularidade do momento, saber se a vara do mando vai parar a mãos de direita ou de esquerda é questão menor, pois importa mais cuidar se fica em mãos de cima ou de baixo. Parece que tem andado na mão de gente de baixo, incluindo deficientes morais, com resultados à vista.
Se impedirmos o regresso da barbárie, a nova República será obra de nobres sabedores de que o ambicionado enriquecimento/crescimento da Pátria se estriba na justiça social e não na indigência do cidadão laborioso, tendo como referência maior as pessoas.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Citações

«Notre vérité de maintenant, ce n'est pas ce qui est, mais ce qui se persuade à autrui.»
Michel de Montaigne
Essais, II, 18

[A nossa verdade de agora não é aquilo que é, mas aquilo que se persuade a outrem.»]

«O entusiasmo é bom, porque eleva o espírito; mas a crítica é melhor ainda, porque o esclarece.»
Antero de Quental

quinta-feira, 26 de maio de 2011

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Convite à leitura: artigo de opinião, de minha autoria, sobre o País e a actual situação política, na edição de hoje do jornal Público.