Uma interrogativa que vai proliferando na mente de muitos cidadãos preocupados: como é que posso com o meu voto contribuir para salvar o país, garantindo políticas alternativas às do actual Governo? Perante o desastre que está à vista, como é que as próximas eleições podem servir para mudar de rumo e salvar a Pátria?
Talvez o texto que me chegou recentemente sobre o que se está a passar na Islândia, e a que a nossa comunicação social não tem dado a menor importância, possa contribuir para uma resposta.
O referido texto sobre a islândia será introduzido neste blog depois da entrevista do primeiro-ministro na SIC-Notícias, aguardada com muita espectativa.
terça-feira, 15 de março de 2011
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segunda-feira, 14 de março de 2011
A FACE OCULTA DA TERRA: Espontaneidade
A FACE OCULTA DA TERRA: Espontaneidade: "Foram, quase que aposto, mais do que aqueles que os organizadores modestamente anunciaram ter descido hoje a avenida e foram, certamente, mu..."
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Depois da Manif da "Geração à Rasca"
No passado Sábado, dia 12 de Março (por pouco não era outro memorável 11…), voltou a pairar na rua o voluptuoso aroma da espontaneidade popular afectuosamente retido na memória de todos aqueles que tiveram a incomparável felicidade de viver os tempos da Revolução dos Cravos, o PREC de 1974/75. Há longos anos que esse encantador aroma não se fazia sentir. A manif de Sábado foi diferente do agora habitual. Muito diferente. Logo por isso bem interessante. Engano total o daqueles comentadores políticos de serviço, como o Pedro Marques Lopes, que disseram não ter passado de uma manifestação orquestrada a partir das sedes de alguns partidos. Tais comentadores, para além de se revelarem observadores inexperientes, devem ter feito como o Oscar Wilde dizia em relação à apreciação de livros: «nunca leio os livros sobre os quais tenho que fazer uma crítica, para não ser influenciado« (cito de memória). Só que para quem, como o aqui escrevente, tenha longa experiência de manifs, tanto como manifestante como co-organizador, é fácil detectar o apartidarismo – e até algum claro antipartidarismo – presente nesta de que se fala. Chame-se-lhe influência, feeling ou o que lhe quiserem chamar; a verdade é que esta manif foi, na sua concretização prática, exactamente aquilo que os seus jovens e inexperientes promotores quiseram que ela fosse: uma acção de massas político-social apartidária, laica e ordeira. Uma acção política apartidária – sublinhe-se, de modo a evitar a frequente confusão entre ter carácter político e partidarismo. A coisa anunciada foi a apresentada, de facto. Algo só por si digno de louvor neste mundo saturado de publicidades enganosas. Parabéns aos promotores.
Por enquanto, e se bem sei assimilar o acontecido, a nova geração de humilhados e ofendidos desceu à rua não tanto para atacar, senão que para avisar. Avisar os senhores da política, os governantes actuais bem como os que actualmente querem vir a ser governantes, e em geral todos os que são profissionais do ramo político, avisar que não podem nem devem esses senhores continuar a fazer a política que têm feito, nem a estar na política do modo como têm estado. Aí dos políticos que não forem capazes, ou não quiserem, reflectir sobre a mensagem deixada nas ruas de 11 cidades lusas nas últimas horas. O futuro político, bem como o próximo futuro desses profissionais da política, passa em boa medida pela capacidade que tiverem de assimilar a mensagem depositada, agindo depois em conformidade com as elações extraídas, alterando comportamentos, corrigindo defeitos, afinando a decência, construindo novas políticas.
Para quem não for politicamente ingénuo e tiver estado atento ao germinar do protesto da “geração à rasca”, é evidente que à unanimidade na vertente da denúncia do que se considera errado não corresponde equivalente dose de consenso ideológico na vertente da construção de alternativas. Desequilíbrio comprometedor de qualquer tipo de acção transformadora consequente. Essa acção exige, sempre exigiu, arquitectura ideológica, porque é esta que confere sentido à acção. Mas os começos são assim. Além disso, neste caso, parece-me que, independentemente do vago ideológico, de todas as indefinições programáticas, das indeterminações várias quanto às soluções a apresentar, estão já criadas condições para a imediata formalização de um movimento político de cidadania que confira maior consistência organizativa aos anseios expressos. Nesse sentido lavro já o meu vivo apelo. Já agora, acrescento mais: perante a notória ausência de criatividade audaz, diferenciadora, alternativa por parte da actual direcção do PSD, afigura-se-me interessante a iniciativa de Pedro Santana Lopes de criar um movimento tendente à próxima edificação de novo partido que, à direita, possa trazer arejamento político. Sendo eu, como é público e notório, velho bicho de esquerda, não serei, em princípio ou provavelmente, seu directo apoiante; mas em gesto que reputo de política e intelectualmente saudável, saúdo com sincera satisfação essa iniciativa, caso se venha a concretizar. Vou mais longe: por muito que choque os meus “familiares” políticos, nem mesmo excluo liminarmente a hipótese de poder apoiar em circunstância conjuntural concreta um líder proveniente da área da direita parlamentar. Em outra circunstância procurarei esclarecer o porquê dessa hipótese que sei tanto chocar muito boa gente que comigo anda à esquerda.
Tema para reflexão: foi nítido para quem esteve na manifestação o forte sentimento de descrença na paleta partidária actualmente existente. Se assim é, como é que estes milhares de eleitores podem participar em próximas eleições se a oferta, se as possibilidades de escolha política continuarem a ser as mesmas? Como se pode traduzir em voto o sentimento dos manifestantes de Sábado já descrentes dos partidos tradicionais? Como devem eles proceder? De acordo com o sistema democrático vigente as soluções governativas definem-se em função de resultados eleitorais; sendo assim, é conveniente, para já não dizer necessário ou obrigatório, em nome do enriquecimento democrático, que todo o eleitor encontre no boletim de voto a possibilidade de expressar a sua vontade política. Ou seja, uma opção que traduza, no essencial, a sua vontade, a sua concepção do mundo. Causa maior da larga abstenção parece residir na ausência de um maior leque de opções. Para que as próximas eleições (quase de certeza antecipadas) possam ser acto democrático verdadeiro, e para que possam não ser inúteis, impõe-se que o boletim de voto apresente novas possibilidades, nomeadamente a da candidatura uninominal. O apartidarismo que marcou forte presença nas ruas no passado fim-de-semana tem que encontrar espaço eleitoral, coisa algo paradoxal no seio do sistema. Também por isso o sistema tem que mudar, em nome dos próprios valores democráticos.
No final da manif, já à entrada do Rossio, encontrei o Carlos Antunes, alguém que a “geração à rasca” já não identifica. Para os que não se lembrem, trata-se do Carlos Antunes antifascista, líder, com Isabel do Carmo, das Brigadas Revolucionárias, e que antes do 25 de Abril de 1974 protagonizou acções directas contra o regime. No Sábado, de novo na rua, de novo em protesto, estava com um lindo sorriso de criança estampado no rosto, felicíssimo por poder respirar outra vez aquele perfume PREC. «Alguma coisa há-de sair daqui…» disse-me à despedida, com claro optimismo. Bonito. Tão bonito que não resisti à tentação de deixar este registo.
Isto está engraçado. Começa a estar como eu gosto.
Por enquanto, e se bem sei assimilar o acontecido, a nova geração de humilhados e ofendidos desceu à rua não tanto para atacar, senão que para avisar. Avisar os senhores da política, os governantes actuais bem como os que actualmente querem vir a ser governantes, e em geral todos os que são profissionais do ramo político, avisar que não podem nem devem esses senhores continuar a fazer a política que têm feito, nem a estar na política do modo como têm estado. Aí dos políticos que não forem capazes, ou não quiserem, reflectir sobre a mensagem deixada nas ruas de 11 cidades lusas nas últimas horas. O futuro político, bem como o próximo futuro desses profissionais da política, passa em boa medida pela capacidade que tiverem de assimilar a mensagem depositada, agindo depois em conformidade com as elações extraídas, alterando comportamentos, corrigindo defeitos, afinando a decência, construindo novas políticas.
Para quem não for politicamente ingénuo e tiver estado atento ao germinar do protesto da “geração à rasca”, é evidente que à unanimidade na vertente da denúncia do que se considera errado não corresponde equivalente dose de consenso ideológico na vertente da construção de alternativas. Desequilíbrio comprometedor de qualquer tipo de acção transformadora consequente. Essa acção exige, sempre exigiu, arquitectura ideológica, porque é esta que confere sentido à acção. Mas os começos são assim. Além disso, neste caso, parece-me que, independentemente do vago ideológico, de todas as indefinições programáticas, das indeterminações várias quanto às soluções a apresentar, estão já criadas condições para a imediata formalização de um movimento político de cidadania que confira maior consistência organizativa aos anseios expressos. Nesse sentido lavro já o meu vivo apelo. Já agora, acrescento mais: perante a notória ausência de criatividade audaz, diferenciadora, alternativa por parte da actual direcção do PSD, afigura-se-me interessante a iniciativa de Pedro Santana Lopes de criar um movimento tendente à próxima edificação de novo partido que, à direita, possa trazer arejamento político. Sendo eu, como é público e notório, velho bicho de esquerda, não serei, em princípio ou provavelmente, seu directo apoiante; mas em gesto que reputo de política e intelectualmente saudável, saúdo com sincera satisfação essa iniciativa, caso se venha a concretizar. Vou mais longe: por muito que choque os meus “familiares” políticos, nem mesmo excluo liminarmente a hipótese de poder apoiar em circunstância conjuntural concreta um líder proveniente da área da direita parlamentar. Em outra circunstância procurarei esclarecer o porquê dessa hipótese que sei tanto chocar muito boa gente que comigo anda à esquerda.
Tema para reflexão: foi nítido para quem esteve na manifestação o forte sentimento de descrença na paleta partidária actualmente existente. Se assim é, como é que estes milhares de eleitores podem participar em próximas eleições se a oferta, se as possibilidades de escolha política continuarem a ser as mesmas? Como se pode traduzir em voto o sentimento dos manifestantes de Sábado já descrentes dos partidos tradicionais? Como devem eles proceder? De acordo com o sistema democrático vigente as soluções governativas definem-se em função de resultados eleitorais; sendo assim, é conveniente, para já não dizer necessário ou obrigatório, em nome do enriquecimento democrático, que todo o eleitor encontre no boletim de voto a possibilidade de expressar a sua vontade política. Ou seja, uma opção que traduza, no essencial, a sua vontade, a sua concepção do mundo. Causa maior da larga abstenção parece residir na ausência de um maior leque de opções. Para que as próximas eleições (quase de certeza antecipadas) possam ser acto democrático verdadeiro, e para que possam não ser inúteis, impõe-se que o boletim de voto apresente novas possibilidades, nomeadamente a da candidatura uninominal. O apartidarismo que marcou forte presença nas ruas no passado fim-de-semana tem que encontrar espaço eleitoral, coisa algo paradoxal no seio do sistema. Também por isso o sistema tem que mudar, em nome dos próprios valores democráticos.
No final da manif, já à entrada do Rossio, encontrei o Carlos Antunes, alguém que a “geração à rasca” já não identifica. Para os que não se lembrem, trata-se do Carlos Antunes antifascista, líder, com Isabel do Carmo, das Brigadas Revolucionárias, e que antes do 25 de Abril de 1974 protagonizou acções directas contra o regime. No Sábado, de novo na rua, de novo em protesto, estava com um lindo sorriso de criança estampado no rosto, felicíssimo por poder respirar outra vez aquele perfume PREC. «Alguma coisa há-de sair daqui…» disse-me à despedida, com claro optimismo. Bonito. Tão bonito que não resisti à tentação de deixar este registo.
Isto está engraçado. Começa a estar como eu gosto.
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sexta-feira, 11 de março de 2011
Manif da Geração à Rasca
A expressão popular “à rasca” (ver-se à rasca) fere bastante a minha sensibilidade de utilizador da língua, confesso. No plano estético da musicalidade do linguajar de Camões ela é exemplo de grosseria, de impolidez, de fealdade linguística difícil de igualar até na esfera do bruto palavrão. Facto que sempre me fez evitar o seu uso, até mesmo na ambiência do vulgar vernáculo coloquial. Mas tenho que admitir ser ela, essa feia ou malparecida expressão, algo politicamente muito feliz. Ou seja, locução politicamente bem-parecida, uma vez que traduz na perfeição, com rigor e de modo incisivo a realidade que o actual movimento de protesto Geração à Rasca, movimento político espontâneo, apartidário e laico, pretende denunciar e contra a qual se perfila com muito meritória audácia e nobreza cívica.
Arrisco afirmar que as manifestações convocadas para amanhã à tarde em várias das mais importantes urbes do nosso apoquentado país vão constituir um marco histórico. Vão fazer história. É, por cá, a primeira grande manif Facebook. Algo inaudito. Relevantíssima inovação metodológica na esfera da organização da acção política. Mais ainda: desde a formação desta nossa 2ªRepública, que já leva 35 anos de vida, é também a primeira manifestação que reúne gente de todos os quadrantes. Nessa medida, até se pode afirmar que apresenta uma paleta ideológica mais ampla do que o célebre, inesquecível, 1º de Maio de 1974, mesmo que seja menos participada. Digo isto porque a extrema-direita, os neonazis, a talassa e sei lá que outros grupos ultraconservadores, desta vez também anunciaram a descida à rua.
É curioso ver o medo que já começa a fervilhar em algumas almas do meio político institucional; entre os democratas encartados, os funcionários políticos, os profissionais da governação. António Costa e Pacheco Pereira faziam ontem à noite, na sua Quadratura do Círculo, e juntando a sua voz à de outros opinantes, o elogio da moderação, advertindo para o perigo dos radicalismos (como se retirar abonos, reduzir pensões de sobrevivência, cortar subsídios de desemprego e bolsas de estudo não fossem medidas imoderadas ou radicais); apressaram-se a dizer que, “em democracia”, é no Parlamento e nos actos eleitorais que se aprovam ou desaprovam as políticas governamentais. Não é com violência que se deve actuar para corrigir eventuais políticas injustas, acrescentam. Violência nunca! Mas se amanhã algum manifestante resolver apedrejar uma agência bancária, incendiar um contentor do lixo ou quebrar o vidro de uma janela de um edifício governamental isso não passará de violência light. Caríssimos senhores opinantes democratas, violência, violência autêntica é retirar a milhões de cidadãos as bases materiais, os meios económico-financeiros mínimos sem os quais a existência humanamente digna deixa de ser possível. Isso sim é violência inaceitável. Essa é que é a violência intolerável que governantes com decência estão obrigados a reprimir, não com máquinas policiais, mas sim com mais cultura, com mais escola, com mais ética, com mais criatividade, com mais condições de trabalho produtivo. Isto é, em resumo e por outras palavras, aumento de riqueza através de: criação de bons hábitos societais; culto da elevação; empenhado incremento da produtividade nacional (ressuscitando o aparelho produtivo que antes quase foi assassinado).
Numa sociedade governada por pessoas de bem é essa referida violência que deve ser absoluta e prioritariamente proibida. Banida.
Quando um sistema político começa a tropeçar nos seus defeitos, nas suas imperfeições endógenas, nas suas contradições estruturais, exibindo lustrosos sintomas de esgotamento que se traduzem, nomeadamente, na clara incapacidade de contrariar a injustiça social, de conduzir ao banimento dessa tal violência, quando assim é, ensina-nos a história que as transformações exigidas se operam a partir de fora ou por fora do sistema avelhentado, exigindo ao cidadão exausto, farto de se ver injustamente à rasca, a descida à rua. É aí, na rua e pela rua que se constrói a mudança com plena legitimidade cívica e democrática.
Que muitos desçam à rua na tarde de amanhã com gritos de honesto protesto é o que eu, como cidadão interventivo que sou e sempre fui, desejo e espero.
Arrisco afirmar que as manifestações convocadas para amanhã à tarde em várias das mais importantes urbes do nosso apoquentado país vão constituir um marco histórico. Vão fazer história. É, por cá, a primeira grande manif Facebook. Algo inaudito. Relevantíssima inovação metodológica na esfera da organização da acção política. Mais ainda: desde a formação desta nossa 2ªRepública, que já leva 35 anos de vida, é também a primeira manifestação que reúne gente de todos os quadrantes. Nessa medida, até se pode afirmar que apresenta uma paleta ideológica mais ampla do que o célebre, inesquecível, 1º de Maio de 1974, mesmo que seja menos participada. Digo isto porque a extrema-direita, os neonazis, a talassa e sei lá que outros grupos ultraconservadores, desta vez também anunciaram a descida à rua.
É curioso ver o medo que já começa a fervilhar em algumas almas do meio político institucional; entre os democratas encartados, os funcionários políticos, os profissionais da governação. António Costa e Pacheco Pereira faziam ontem à noite, na sua Quadratura do Círculo, e juntando a sua voz à de outros opinantes, o elogio da moderação, advertindo para o perigo dos radicalismos (como se retirar abonos, reduzir pensões de sobrevivência, cortar subsídios de desemprego e bolsas de estudo não fossem medidas imoderadas ou radicais); apressaram-se a dizer que, “em democracia”, é no Parlamento e nos actos eleitorais que se aprovam ou desaprovam as políticas governamentais. Não é com violência que se deve actuar para corrigir eventuais políticas injustas, acrescentam. Violência nunca! Mas se amanhã algum manifestante resolver apedrejar uma agência bancária, incendiar um contentor do lixo ou quebrar o vidro de uma janela de um edifício governamental isso não passará de violência light. Caríssimos senhores opinantes democratas, violência, violência autêntica é retirar a milhões de cidadãos as bases materiais, os meios económico-financeiros mínimos sem os quais a existência humanamente digna deixa de ser possível. Isso sim é violência inaceitável. Essa é que é a violência intolerável que governantes com decência estão obrigados a reprimir, não com máquinas policiais, mas sim com mais cultura, com mais escola, com mais ética, com mais criatividade, com mais condições de trabalho produtivo. Isto é, em resumo e por outras palavras, aumento de riqueza através de: criação de bons hábitos societais; culto da elevação; empenhado incremento da produtividade nacional (ressuscitando o aparelho produtivo que antes quase foi assassinado).
Numa sociedade governada por pessoas de bem é essa referida violência que deve ser absoluta e prioritariamente proibida. Banida.
Quando um sistema político começa a tropeçar nos seus defeitos, nas suas imperfeições endógenas, nas suas contradições estruturais, exibindo lustrosos sintomas de esgotamento que se traduzem, nomeadamente, na clara incapacidade de contrariar a injustiça social, de conduzir ao banimento dessa tal violência, quando assim é, ensina-nos a história que as transformações exigidas se operam a partir de fora ou por fora do sistema avelhentado, exigindo ao cidadão exausto, farto de se ver injustamente à rasca, a descida à rua. É aí, na rua e pela rua que se constrói a mudança com plena legitimidade cívica e democrática.
Que muitos desçam à rua na tarde de amanhã com gritos de honesto protesto é o que eu, como cidadão interventivo que sou e sempre fui, desejo e espero.
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quinta-feira, 3 de março de 2011
Deolinda - nota de esclarecimento
O juízo crítico que ontem aqui lavrei sobre os Deolinda baseou-se unicamente no que ouvi ser declarado numa emissão do canal televisivo SIC-Notícias por um dos membros do referido grupo musical, pessoa que lamentavelmente não consigo identificar pelo nome. Transcrevi quase literalmente o que foi afirmado. Tudo o que ouvi, e que não passou de algumas curtas frases, deixou-me a nítida impressão de que os autores da cantiga “Parva que sou” temiam as repercussões políticas que se têm vindo a avolumar e pretendiam demarcar-se do movimento de contestação ao Governo que adoptou a cantiga “Parva que sou” como hino geracional de protesto. O que ouvi sugeria haver da parte dos autores alguns receios, talvez fundamentados ou, pelo menos, fáceis de adivinhar nos tempos que correm, e um não quererem assumir o papel de defensores de uma causa política que desagrada aos governantes bem como ao poderio, em geral. O conteúdo das asserções escutadas semeou-me na alma irritação que esteve na origem do texto ontem aqui publicado. Considerando aquilo que de facto ouvi e cuidadosamente transcrevi, tenho a certeza de não ter cometido nenhuma injustiça. Porém, dizem-me que tal não corresponde à verdadeira opinião e atitude das pessoas que compõem o grupo. Se assim for, isso só me pode trazer contentamento. Talvez as afirmações por mim escutadas tenham sido descontextualizadas, como não raras vezes acontece na edição de algumas peças televisivas. Isso pode ter-me induzido em erro. Se tiver sido esse o caso, se me tiver enganado, fico muito satisfeito e apressar-me-ei na apresentação de desculpas aos visados pela crítica.
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João Maria de Freitas-Branco
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quarta-feira, 2 de março de 2011
A parvoíce dos Deolinda
Deploráveis as recentes afirmações dos jovens músicos que compõem o grupo Deolinda. Refiro-me às declarações públicas sobre os efeitos políticos da sua cantiga “Parva que sou”. Numa entrevista concedida à SIC-Notícias, que ontem vi e ouvi, procuram os autores demarcar-se de toda e qualquer intencionalidade política.
-- Aproveitaram-se da nossa canção – diz um deles com ar amedrontado; e logo acrescenta:
-- Nós só queremos fazer música; e música é música, é uma forma de entretenimento; serve para passar bem o tempo e não é para fazer política.
Que imbecilidade! Uma das coisas que caracteriza a autêntica obra de arte, musical ou outra, é exactamente o não ser banal e simples entretenimento. Que pensará então este mancebo, que se apresenta como músico profissional, da Heróica ou da Sinfonia Coral do Beethoven? Ou do mozartiano “Viva la libertà” do Don Giovanni? Ou do “Va, pensiero…” do Verdi? Que dirá ele da música de um Shostakovitch, de um Viktor Ullmann ou de um Luigi Nono? Pensará que tudo isso não passa de puro entretenimento? Estará convencido que criações musicais como Intolleranza ou The Suspended Song, do Nono (baseada, esta última, em cartas de vítimas dos campos de concentração nazis), por serem obras musicais, foram compostas com a finalidade de entreter os que as escutarem? E, para não ser acusado de só dar exemplos da esfera erudita, interrogo-me também sobre que opinião terão os Deolinda da música popular de intervenção que marcou a sociedade portuguesa nas décadas de 1960 e 70?
Na ausência do saudoso Zeca Afonso, bem podia o Zé Mário Branco dar-lhes uns açoites bem assentes, explicando-lhes a história da cantiga poder ser uma arma. Os pobres autores de “Parva que sou” também fazem figura de parvos por parecer não terem percebido ainda quantas vantagens podem advir desse involuntário efeito político. Vantagens que, segundo me parece, no caso concreto da cantiga em questão, dificilmente poderiam colher por via de atributos exclusivamente artísticos. Talvez percebam quando forem cobrados os direitos de autor. Para já, conseguiram fazer figura de idiotas, lançando, sobre si próprios, opinião idiota, prejudicial à sua imagem.
-- Aproveitaram-se da nossa canção – diz um deles com ar amedrontado; e logo acrescenta:
-- Nós só queremos fazer música; e música é música, é uma forma de entretenimento; serve para passar bem o tempo e não é para fazer política.
Que imbecilidade! Uma das coisas que caracteriza a autêntica obra de arte, musical ou outra, é exactamente o não ser banal e simples entretenimento. Que pensará então este mancebo, que se apresenta como músico profissional, da Heróica ou da Sinfonia Coral do Beethoven? Ou do mozartiano “Viva la libertà” do Don Giovanni? Ou do “Va, pensiero…” do Verdi? Que dirá ele da música de um Shostakovitch, de um Viktor Ullmann ou de um Luigi Nono? Pensará que tudo isso não passa de puro entretenimento? Estará convencido que criações musicais como Intolleranza ou The Suspended Song, do Nono (baseada, esta última, em cartas de vítimas dos campos de concentração nazis), por serem obras musicais, foram compostas com a finalidade de entreter os que as escutarem? E, para não ser acusado de só dar exemplos da esfera erudita, interrogo-me também sobre que opinião terão os Deolinda da música popular de intervenção que marcou a sociedade portuguesa nas décadas de 1960 e 70?
Na ausência do saudoso Zeca Afonso, bem podia o Zé Mário Branco dar-lhes uns açoites bem assentes, explicando-lhes a história da cantiga poder ser uma arma. Os pobres autores de “Parva que sou” também fazem figura de parvos por parecer não terem percebido ainda quantas vantagens podem advir desse involuntário efeito político. Vantagens que, segundo me parece, no caso concreto da cantiga em questão, dificilmente poderiam colher por via de atributos exclusivamente artísticos. Talvez percebam quando forem cobrados os direitos de autor. Para já, conseguiram fazer figura de idiotas, lançando, sobre si próprios, opinião idiota, prejudicial à sua imagem.
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Aprender com o Egipto
Viva o Povo Egípcio!
O dia 11 de Fevereiro de 2011, este mesmo que agora estamos a viver intensamente pegados às imagens e sons de libertação revolucionária que nos chegam do distante Cairo, vai ser nome de rua, de praça, de ponte, vai ter monumentos evocativos, vai ser título de livros e vai ser nos anos vindouros objecto de saudade na mente de milhões de seres humanos de diferentes nacionalidades. Porquê? Porque foi o dia do culminar de um movimento político-revolucionário de massas que se supunha ser impossível. É, nesse sentido, algo que transporta em si o delicioso encanto da realização do impossível: uma eficaz revolução ordeira e pacífica sem líderes! As massas lideraram-se a si próprias com enorme bom senso, desenvolvendo uma acção política consequente. Eis o que acima de tudo confere encantadora e comovedora beleza aos acontecimentos que estão a ter lugar no Egipto.
Grande lição de civismo dada por um povo que interiorizou uma sabedoria milenar. Grande lição de política espontaneamente doada por milhares de cidadãos anónimos reunidos sob a égide de uma indomável vontade de transformar para a liberdade. Não creio ser fruto do acaso o virem tais lições de um país como o Egipto. Habituei-me a admirar a perspicácia natural daquelas gentes. Há nelas uma inteligência latente que, se não me engano, lhes advém da tradição milenar do comércio. Cada egípcio é um artista do negócio e a arte do negócio é uma arte da sedução. É este um aspecto essencial para a compreensão profunda dos históricos acontecimentos das últimas horas, se bem que não veja nenhum comentador a referi-lo. Não ter havido hoje um banho de sangue nas ruas do Cairo é algo motivador de grande espanto, considerando que estávamos perante uma manifestação de um milhão de pessoas justamente indignadas e revoltadíssimas com o conteúdo inaceitável do último discurso do chefe opressor Mubarak, uma multidão agindo sem a presença de um líder carismático. Admirável a instintiva contenção, a sapiência, o bom senso da multidão. Que diria Shakespeare deste comportamento de uma multidão sem líderes?
O impossível parece ter sido possível.
A combinação de uma boa elite social (uma nova geração urbana com apreciável nível de formação) com modernos e variados meios tecnológicos (computador pessoal, telemóvel, sms, Internet, Facebook, Twitter, etc) parece ganhar extraordinária relevância política. Os resultados dessa combinação são motivo de júbilo. Mas para os senhores do poderio esses resultados vão, a partir deste dia 11, ser também motivo de enorme preocupação. A ideia de Revolução ganhou hoje nova dimensão, novos contornos, nova riqueza, novas potencialidades, novas possibilidades. Ela tornou-se hoje ainda mais sedutora para os injustiçados, para os ofendidos, para os humilhados. Mas para o poderio ela passa a ser agora, por isso mesmo, ainda mais perigosa.
Os últimos 18 dias da história de uma Nação histórica legam-nos múltiplos e fascinantes elementos de reflexão no domínio da filosofia social e política ou da politologia. Triste seria abstermo-nos de realizar essa meditação ou não sabermos pensar esses elementos agora tão generosamente fornecidos por um povo em luta.
Pena não poder estar nas ruas do Cairo, misturado com esse estimado povo, a fruir a inimitável fragrância romântica da utopia revolucionária.
Mulheres e homens egípcios de Tahrir parabéns e obrigado!
O dia 11 de Fevereiro de 2011, este mesmo que agora estamos a viver intensamente pegados às imagens e sons de libertação revolucionária que nos chegam do distante Cairo, vai ser nome de rua, de praça, de ponte, vai ter monumentos evocativos, vai ser título de livros e vai ser nos anos vindouros objecto de saudade na mente de milhões de seres humanos de diferentes nacionalidades. Porquê? Porque foi o dia do culminar de um movimento político-revolucionário de massas que se supunha ser impossível. É, nesse sentido, algo que transporta em si o delicioso encanto da realização do impossível: uma eficaz revolução ordeira e pacífica sem líderes! As massas lideraram-se a si próprias com enorme bom senso, desenvolvendo uma acção política consequente. Eis o que acima de tudo confere encantadora e comovedora beleza aos acontecimentos que estão a ter lugar no Egipto.
Grande lição de civismo dada por um povo que interiorizou uma sabedoria milenar. Grande lição de política espontaneamente doada por milhares de cidadãos anónimos reunidos sob a égide de uma indomável vontade de transformar para a liberdade. Não creio ser fruto do acaso o virem tais lições de um país como o Egipto. Habituei-me a admirar a perspicácia natural daquelas gentes. Há nelas uma inteligência latente que, se não me engano, lhes advém da tradição milenar do comércio. Cada egípcio é um artista do negócio e a arte do negócio é uma arte da sedução. É este um aspecto essencial para a compreensão profunda dos históricos acontecimentos das últimas horas, se bem que não veja nenhum comentador a referi-lo. Não ter havido hoje um banho de sangue nas ruas do Cairo é algo motivador de grande espanto, considerando que estávamos perante uma manifestação de um milhão de pessoas justamente indignadas e revoltadíssimas com o conteúdo inaceitável do último discurso do chefe opressor Mubarak, uma multidão agindo sem a presença de um líder carismático. Admirável a instintiva contenção, a sapiência, o bom senso da multidão. Que diria Shakespeare deste comportamento de uma multidão sem líderes?
O impossível parece ter sido possível.
A combinação de uma boa elite social (uma nova geração urbana com apreciável nível de formação) com modernos e variados meios tecnológicos (computador pessoal, telemóvel, sms, Internet, Facebook, Twitter, etc) parece ganhar extraordinária relevância política. Os resultados dessa combinação são motivo de júbilo. Mas para os senhores do poderio esses resultados vão, a partir deste dia 11, ser também motivo de enorme preocupação. A ideia de Revolução ganhou hoje nova dimensão, novos contornos, nova riqueza, novas potencialidades, novas possibilidades. Ela tornou-se hoje ainda mais sedutora para os injustiçados, para os ofendidos, para os humilhados. Mas para o poderio ela passa a ser agora, por isso mesmo, ainda mais perigosa.
Os últimos 18 dias da história de uma Nação histórica legam-nos múltiplos e fascinantes elementos de reflexão no domínio da filosofia social e política ou da politologia. Triste seria abstermo-nos de realizar essa meditação ou não sabermos pensar esses elementos agora tão generosamente fornecidos por um povo em luta.
Pena não poder estar nas ruas do Cairo, misturado com esse estimado povo, a fruir a inimitável fragrância romântica da utopia revolucionária.
Mulheres e homens egípcios de Tahrir parabéns e obrigado!
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João Maria de Freitas-Branco
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