quinta-feira, 3 de março de 2011
Deolinda - nota de esclarecimento
O juízo crítico que ontem aqui lavrei sobre os Deolinda baseou-se unicamente no que ouvi ser declarado numa emissão do canal televisivo SIC-Notícias por um dos membros do referido grupo musical, pessoa que lamentavelmente não consigo identificar pelo nome. Transcrevi quase literalmente o que foi afirmado. Tudo o que ouvi, e que não passou de algumas curtas frases, deixou-me a nítida impressão de que os autores da cantiga “Parva que sou” temiam as repercussões políticas que se têm vindo a avolumar e pretendiam demarcar-se do movimento de contestação ao Governo que adoptou a cantiga “Parva que sou” como hino geracional de protesto. O que ouvi sugeria haver da parte dos autores alguns receios, talvez fundamentados ou, pelo menos, fáceis de adivinhar nos tempos que correm, e um não quererem assumir o papel de defensores de uma causa política que desagrada aos governantes bem como ao poderio, em geral. O conteúdo das asserções escutadas semeou-me na alma irritação que esteve na origem do texto ontem aqui publicado. Considerando aquilo que de facto ouvi e cuidadosamente transcrevi, tenho a certeza de não ter cometido nenhuma injustiça. Porém, dizem-me que tal não corresponde à verdadeira opinião e atitude das pessoas que compõem o grupo. Se assim for, isso só me pode trazer contentamento. Talvez as afirmações por mim escutadas tenham sido descontextualizadas, como não raras vezes acontece na edição de algumas peças televisivas. Isso pode ter-me induzido em erro. Se tiver sido esse o caso, se me tiver enganado, fico muito satisfeito e apressar-me-ei na apresentação de desculpas aos visados pela crítica.
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João Maria de Freitas-Branco
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quarta-feira, 2 de março de 2011
A parvoíce dos Deolinda
Deploráveis as recentes afirmações dos jovens músicos que compõem o grupo Deolinda. Refiro-me às declarações públicas sobre os efeitos políticos da sua cantiga “Parva que sou”. Numa entrevista concedida à SIC-Notícias, que ontem vi e ouvi, procuram os autores demarcar-se de toda e qualquer intencionalidade política.
-- Aproveitaram-se da nossa canção – diz um deles com ar amedrontado; e logo acrescenta:
-- Nós só queremos fazer música; e música é música, é uma forma de entretenimento; serve para passar bem o tempo e não é para fazer política.
Que imbecilidade! Uma das coisas que caracteriza a autêntica obra de arte, musical ou outra, é exactamente o não ser banal e simples entretenimento. Que pensará então este mancebo, que se apresenta como músico profissional, da Heróica ou da Sinfonia Coral do Beethoven? Ou do mozartiano “Viva la libertà” do Don Giovanni? Ou do “Va, pensiero…” do Verdi? Que dirá ele da música de um Shostakovitch, de um Viktor Ullmann ou de um Luigi Nono? Pensará que tudo isso não passa de puro entretenimento? Estará convencido que criações musicais como Intolleranza ou The Suspended Song, do Nono (baseada, esta última, em cartas de vítimas dos campos de concentração nazis), por serem obras musicais, foram compostas com a finalidade de entreter os que as escutarem? E, para não ser acusado de só dar exemplos da esfera erudita, interrogo-me também sobre que opinião terão os Deolinda da música popular de intervenção que marcou a sociedade portuguesa nas décadas de 1960 e 70?
Na ausência do saudoso Zeca Afonso, bem podia o Zé Mário Branco dar-lhes uns açoites bem assentes, explicando-lhes a história da cantiga poder ser uma arma. Os pobres autores de “Parva que sou” também fazem figura de parvos por parecer não terem percebido ainda quantas vantagens podem advir desse involuntário efeito político. Vantagens que, segundo me parece, no caso concreto da cantiga em questão, dificilmente poderiam colher por via de atributos exclusivamente artísticos. Talvez percebam quando forem cobrados os direitos de autor. Para já, conseguiram fazer figura de idiotas, lançando, sobre si próprios, opinião idiota, prejudicial à sua imagem.
-- Aproveitaram-se da nossa canção – diz um deles com ar amedrontado; e logo acrescenta:
-- Nós só queremos fazer música; e música é música, é uma forma de entretenimento; serve para passar bem o tempo e não é para fazer política.
Que imbecilidade! Uma das coisas que caracteriza a autêntica obra de arte, musical ou outra, é exactamente o não ser banal e simples entretenimento. Que pensará então este mancebo, que se apresenta como músico profissional, da Heróica ou da Sinfonia Coral do Beethoven? Ou do mozartiano “Viva la libertà” do Don Giovanni? Ou do “Va, pensiero…” do Verdi? Que dirá ele da música de um Shostakovitch, de um Viktor Ullmann ou de um Luigi Nono? Pensará que tudo isso não passa de puro entretenimento? Estará convencido que criações musicais como Intolleranza ou The Suspended Song, do Nono (baseada, esta última, em cartas de vítimas dos campos de concentração nazis), por serem obras musicais, foram compostas com a finalidade de entreter os que as escutarem? E, para não ser acusado de só dar exemplos da esfera erudita, interrogo-me também sobre que opinião terão os Deolinda da música popular de intervenção que marcou a sociedade portuguesa nas décadas de 1960 e 70?
Na ausência do saudoso Zeca Afonso, bem podia o Zé Mário Branco dar-lhes uns açoites bem assentes, explicando-lhes a história da cantiga poder ser uma arma. Os pobres autores de “Parva que sou” também fazem figura de parvos por parecer não terem percebido ainda quantas vantagens podem advir desse involuntário efeito político. Vantagens que, segundo me parece, no caso concreto da cantiga em questão, dificilmente poderiam colher por via de atributos exclusivamente artísticos. Talvez percebam quando forem cobrados os direitos de autor. Para já, conseguiram fazer figura de idiotas, lançando, sobre si próprios, opinião idiota, prejudicial à sua imagem.
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João Maria de Freitas-Branco
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Aprender com o Egipto
Viva o Povo Egípcio!
O dia 11 de Fevereiro de 2011, este mesmo que agora estamos a viver intensamente pegados às imagens e sons de libertação revolucionária que nos chegam do distante Cairo, vai ser nome de rua, de praça, de ponte, vai ter monumentos evocativos, vai ser título de livros e vai ser nos anos vindouros objecto de saudade na mente de milhões de seres humanos de diferentes nacionalidades. Porquê? Porque foi o dia do culminar de um movimento político-revolucionário de massas que se supunha ser impossível. É, nesse sentido, algo que transporta em si o delicioso encanto da realização do impossível: uma eficaz revolução ordeira e pacífica sem líderes! As massas lideraram-se a si próprias com enorme bom senso, desenvolvendo uma acção política consequente. Eis o que acima de tudo confere encantadora e comovedora beleza aos acontecimentos que estão a ter lugar no Egipto.
Grande lição de civismo dada por um povo que interiorizou uma sabedoria milenar. Grande lição de política espontaneamente doada por milhares de cidadãos anónimos reunidos sob a égide de uma indomável vontade de transformar para a liberdade. Não creio ser fruto do acaso o virem tais lições de um país como o Egipto. Habituei-me a admirar a perspicácia natural daquelas gentes. Há nelas uma inteligência latente que, se não me engano, lhes advém da tradição milenar do comércio. Cada egípcio é um artista do negócio e a arte do negócio é uma arte da sedução. É este um aspecto essencial para a compreensão profunda dos históricos acontecimentos das últimas horas, se bem que não veja nenhum comentador a referi-lo. Não ter havido hoje um banho de sangue nas ruas do Cairo é algo motivador de grande espanto, considerando que estávamos perante uma manifestação de um milhão de pessoas justamente indignadas e revoltadíssimas com o conteúdo inaceitável do último discurso do chefe opressor Mubarak, uma multidão agindo sem a presença de um líder carismático. Admirável a instintiva contenção, a sapiência, o bom senso da multidão. Que diria Shakespeare deste comportamento de uma multidão sem líderes?
O impossível parece ter sido possível.
A combinação de uma boa elite social (uma nova geração urbana com apreciável nível de formação) com modernos e variados meios tecnológicos (computador pessoal, telemóvel, sms, Internet, Facebook, Twitter, etc) parece ganhar extraordinária relevância política. Os resultados dessa combinação são motivo de júbilo. Mas para os senhores do poderio esses resultados vão, a partir deste dia 11, ser também motivo de enorme preocupação. A ideia de Revolução ganhou hoje nova dimensão, novos contornos, nova riqueza, novas potencialidades, novas possibilidades. Ela tornou-se hoje ainda mais sedutora para os injustiçados, para os ofendidos, para os humilhados. Mas para o poderio ela passa a ser agora, por isso mesmo, ainda mais perigosa.
Os últimos 18 dias da história de uma Nação histórica legam-nos múltiplos e fascinantes elementos de reflexão no domínio da filosofia social e política ou da politologia. Triste seria abstermo-nos de realizar essa meditação ou não sabermos pensar esses elementos agora tão generosamente fornecidos por um povo em luta.
Pena não poder estar nas ruas do Cairo, misturado com esse estimado povo, a fruir a inimitável fragrância romântica da utopia revolucionária.
Mulheres e homens egípcios de Tahrir parabéns e obrigado!
O dia 11 de Fevereiro de 2011, este mesmo que agora estamos a viver intensamente pegados às imagens e sons de libertação revolucionária que nos chegam do distante Cairo, vai ser nome de rua, de praça, de ponte, vai ter monumentos evocativos, vai ser título de livros e vai ser nos anos vindouros objecto de saudade na mente de milhões de seres humanos de diferentes nacionalidades. Porquê? Porque foi o dia do culminar de um movimento político-revolucionário de massas que se supunha ser impossível. É, nesse sentido, algo que transporta em si o delicioso encanto da realização do impossível: uma eficaz revolução ordeira e pacífica sem líderes! As massas lideraram-se a si próprias com enorme bom senso, desenvolvendo uma acção política consequente. Eis o que acima de tudo confere encantadora e comovedora beleza aos acontecimentos que estão a ter lugar no Egipto.
Grande lição de civismo dada por um povo que interiorizou uma sabedoria milenar. Grande lição de política espontaneamente doada por milhares de cidadãos anónimos reunidos sob a égide de uma indomável vontade de transformar para a liberdade. Não creio ser fruto do acaso o virem tais lições de um país como o Egipto. Habituei-me a admirar a perspicácia natural daquelas gentes. Há nelas uma inteligência latente que, se não me engano, lhes advém da tradição milenar do comércio. Cada egípcio é um artista do negócio e a arte do negócio é uma arte da sedução. É este um aspecto essencial para a compreensão profunda dos históricos acontecimentos das últimas horas, se bem que não veja nenhum comentador a referi-lo. Não ter havido hoje um banho de sangue nas ruas do Cairo é algo motivador de grande espanto, considerando que estávamos perante uma manifestação de um milhão de pessoas justamente indignadas e revoltadíssimas com o conteúdo inaceitável do último discurso do chefe opressor Mubarak, uma multidão agindo sem a presença de um líder carismático. Admirável a instintiva contenção, a sapiência, o bom senso da multidão. Que diria Shakespeare deste comportamento de uma multidão sem líderes?
O impossível parece ter sido possível.
A combinação de uma boa elite social (uma nova geração urbana com apreciável nível de formação) com modernos e variados meios tecnológicos (computador pessoal, telemóvel, sms, Internet, Facebook, Twitter, etc) parece ganhar extraordinária relevância política. Os resultados dessa combinação são motivo de júbilo. Mas para os senhores do poderio esses resultados vão, a partir deste dia 11, ser também motivo de enorme preocupação. A ideia de Revolução ganhou hoje nova dimensão, novos contornos, nova riqueza, novas potencialidades, novas possibilidades. Ela tornou-se hoje ainda mais sedutora para os injustiçados, para os ofendidos, para os humilhados. Mas para o poderio ela passa a ser agora, por isso mesmo, ainda mais perigosa.
Os últimos 18 dias da história de uma Nação histórica legam-nos múltiplos e fascinantes elementos de reflexão no domínio da filosofia social e política ou da politologia. Triste seria abstermo-nos de realizar essa meditação ou não sabermos pensar esses elementos agora tão generosamente fornecidos por um povo em luta.
Pena não poder estar nas ruas do Cairo, misturado com esse estimado povo, a fruir a inimitável fragrância romântica da utopia revolucionária.
Mulheres e homens egípcios de Tahrir parabéns e obrigado!
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João Maria de Freitas-Branco
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sábado, 29 de janeiro de 2011
Que democracia?
Pobre e triste início, o do saudado Ano Novo. Deprimente. O emagrecimento do Estado social, com a efectivação dos cortes salariais, do congelamento das pensões de reforma, do aumento do desemprego e da dívida, parecia já ser o bastante. Mas não. Achou-se por bem adicionar a isso uma campanha eleitoral política e intelectualmente indigente que desaguou na eleição de um candidato que insistiu em exibir a sua mediocridade provinciana, o seu conservadorismo serôdio, a sua moralidade duvidosa, derramando sobre o eleitorado um generoso chorrilho de banalidades discursivas e inundando-nos de vulgarismo. Se a democracia é o poder do vulgo parece lógico que os triunfadores exibam vulgarismo. Mas poderá isso tranquilizar-nos? Será que querendo exercer a nobre cidadania podemos permanecer numa indiferente passividade? Ao longo de toda a campanha, para honrar os hábitos em voga no seio da hodierna família democrática, imperou, uma vez mais, o modo sofístico de fazer política, a prestidigitação ou violação retórica, a manipulação ideológica e emocional que instila crenças falsas, ou quase sempre falsas. As escassas excepções confirmaram esta regra de procedimento. Tudo isto prolifera em detrimento da séria argumentação racional. Esta não passa de um disfarce daquela. Ou seja, a prestidigitação manipuladora apresenta-se e actua sob o disfarce de persuasão racional. Assim disfarçada de racionalidade séria, vai gerando ruído, confusão, logro; elementos em que se vão alicerçar as crenças convenientes. Constata-se assim que nesta democracia real a persuasão racional, único procedimento intelectualmente honesto, vê-se sistematicamente espezinhada pela persuasão sofística, ludibriante e manipuladora, intelectualmente indigna. O cidadão eleitor é flagelado com asserções políticas cada vez menos obedientes aos cânones, universal e legitimamente reconhecidos, da cogitação racional. Uma insanidade corrosiva do melhor espírito democrático e inevitavelmente conducente ao desastre político-civilizacional. A endeusada democracia real vai decaindo. Ao ponto de já se negar a si própria. Atente-se no caso concreto das últimas eleições: o eleito é eleito por uma minoria e não pela maioria. Esta absteve-se, votou em branco ou anulou o voto, em claríssima manifestação colectiva de protesto e desinteresse. Qualquer coisa como 60% do eleitorado. O vencedor triunfou com cerca de 25% dos votos do eleitorado e, causando surpresa (ou talvez não), apressou-se a declarar exuberantemente que tinha obtido «uma grande vitória democrática». Então, afinal de contas, uma “grande vitória democrática” é a obtenção do voto minoritário. Nesta democracia real em que vivemos a opinião da maioria não prevalece. Curiosa e paradoxal metamorfose. A democracia real, esta que temos no nosso aqui e agora, é cada vez mais uma democracia contra o povo. Será isto o que queremos? Será isto o desejável?
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João Maria de Freitas-Branco
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domingo, 7 de novembro de 2010
Revelação do mistério do milagre do Sol
A noite do passado dia 23 de Outubro proporcionou-me curiosa vivência. Foi a última noite de Lua cheia, e, por volta das 23h., durante um passeio nocturno pelo campo na companhia da minha mulher e do meu cão, ao olhar para a Lua verifiquei que as nuvens na sua proximidade, nuvens baixas, tinham muito fraca densidade e quando passavam diante do disco lunar deixavam de se ver, por efeito da grande intensidade da luz reflectida. Por essa razão, embora as nuvens se interpusessem, a imagem da superfície do astro era surpreendentemente nítida. Como se de facto não houvesse nenhuma nebulosidade sobreposta. Mas em redor do planeta viam-se cúmulos mais densos, situados a muito maior altitude. Claro está que as nuvens mais afastadas e mais densas se deslocavam, em relação ao observador terrestre, mais lentamente. Foi então que se deu um primeiro efeito óptico. O observador ficava com a nítida sensação de que as nuvens mais visíveis estavam num plano superior ao da órbita do nosso satélite natural. Dito de outro modo, a lua parecia estar dentro da atmosfera terrestre! Era impressionante. As nuvens eram percepcionadas como estando a passar por traz do astro. Ilusão óptica muitíssimo curiosa. Mas a coisa não ficou por aqui. A dada altura, a Lua começou a agitar-se. Dava pequenos saltos, movendo-se de um lado para o outro com grande rapidez. Para cima, para baixo, para o lado, em constante oscilação, ziguezagueante. Parecia que o astro dançava no espaço sideral. Uma ilusão óptica muito divertida causada pelo movimento múltiplo de várias nuvens altas e de uma névoa mais baixa. Uma combinação de movimentos. Curiosa e atraente ilusão reforçada pelo facto de a luz intensa da Lua cheia, um pico de luar, tornar imperceptível a neblina no espaço do círculo lunar. Concentrando o olhar apenas na superfície iluminada do planeta parecia não existir nenhuma interferência de nebulosidade, tal era a nitidez com que se observavam as manchas dos mares lunares e as crateras. Quem me acompanhava pôde vivenciar exactamente a mesma ilusão ou erro perceptivo que se prolongou por pouco mais de dois minutos (tempo da minha observação, o que não significa que a duração total do efeito não tivesse sido maior). Foi então que pensei: se estivesse aqui um vasto conjunto de pessoas, era este o momento propício para lançar nova crença. Seria o milagre da Lua. Com alguma habilidade e talento persuasivo até talvez se conseguisse fundar uma nova religião.
Torno aqui pública esta vivência pessoal porque ela é muito mais do que um mero divertimento casual motivado por uma combinação de movimentos e consequentes ilusões ópticas. Ela é a revelação do mistério do pretenso milagre do Sol, em Fátima (Cova da Iria), no dia 13 de Outubro de 1917. O Sol oscilante, saltitante, ziguezagueante que milhares de pessoas dizem ter observado -- embora muitos dos presentes também afirmassem não terem observado nada de extraordinário nesse dia na Cova da Iria. Pretensos milagres do mesmo tipo foram relatados em outras partes do mundo, como por exemplo em Heroldsbach, na Alemanha, no ano de 1949. Com enorme probabilidade, o que se passou na Cova da Iria (e em outros locais) foi um efeito óptico, uma perturbação perceptiva, uma ilusão de óptica igual ou semelhante à que vivenciei no passado dia 23 de Outubro. Também eu vi um astro aos saltos. Um astro dançante ou ziguezagueante. No meu caso, foi a Lua; para os outros, foi o Sol. Só me faltou a companhia de uma multidão e o empurrão da fé, mesclada com a ignorância da astronomia, para poder ter embarcado numa fantástica experiência místico-religiosa. Inconvenientes do ser-se racionalista possuidor de alguma cultura científica. Não se pode ter tudo.
Aos interessados neste tipo de pretensos milagres, recomendo a leitura da interpretação do Prof.Auguste Meessen do Instituto de Física da Universidade Católica de Lovaina.
Torno aqui pública esta vivência pessoal porque ela é muito mais do que um mero divertimento casual motivado por uma combinação de movimentos e consequentes ilusões ópticas. Ela é a revelação do mistério do pretenso milagre do Sol, em Fátima (Cova da Iria), no dia 13 de Outubro de 1917. O Sol oscilante, saltitante, ziguezagueante que milhares de pessoas dizem ter observado -- embora muitos dos presentes também afirmassem não terem observado nada de extraordinário nesse dia na Cova da Iria. Pretensos milagres do mesmo tipo foram relatados em outras partes do mundo, como por exemplo em Heroldsbach, na Alemanha, no ano de 1949. Com enorme probabilidade, o que se passou na Cova da Iria (e em outros locais) foi um efeito óptico, uma perturbação perceptiva, uma ilusão de óptica igual ou semelhante à que vivenciei no passado dia 23 de Outubro. Também eu vi um astro aos saltos. Um astro dançante ou ziguezagueante. No meu caso, foi a Lua; para os outros, foi o Sol. Só me faltou a companhia de uma multidão e o empurrão da fé, mesclada com a ignorância da astronomia, para poder ter embarcado numa fantástica experiência místico-religiosa. Inconvenientes do ser-se racionalista possuidor de alguma cultura científica. Não se pode ter tudo.
Aos interessados neste tipo de pretensos milagres, recomendo a leitura da interpretação do Prof.Auguste Meessen do Instituto de Física da Universidade Católica de Lovaina.
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João Maria de Freitas-Branco
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sábado, 6 de novembro de 2010
Espanto e indignação
Em dia de manifestação nacional dos trabalhadores da função pública, acção convocada pelos sindicatos, como forma de protesto contra as injustiças sociais e o agravamento das condições de vida resultantes da recente aprovação do que é, na opinião de quase todos, um mau Orçamento do Estado, neste dia de ampla manifestação popular, ligo o meu aparelho de televisão, ao meio-dia em ponto, para ver o noticiário da tarde. Sintonizo, aleatoriamente, o canal RTP-N. Canal público. Qual não é o meu espanto quando verifico que a notícia de abertura não incide sobre o assunto que nesta altura mais preocupa os cidadãos portugueses e que está na origem da manifestação organizada pelos sindicatos do sector da função pública. Mais espantado e estupefacto fico quando constato que a notícia de abertura é sobre a visita do Papa à região espanhola da Galiza. É esse o acontecimento que merece maior destaque de acordo com os critérios editoriais dos jornalistas que chefiam a redacção da RTP-N. A televisão pública do meu Portugal, Estado laico, dá mais relevo a uma visita oficial de um líder religioso, chefe de um Estado oligárquico, a Espanha do que ao sofrimento e à indignação dos nossos trabalhadores, bem como à grave situação social existente na pátria. Aproveite-se para dizer que a visita papal, tão acarinhada pelo editor televisivo, tem sido veementemente contestada por muitos cidadãos do país vizinho que se têm manifestado nas ruas de modo a denunciar, em altura de aguda crise económico-financeira, a irracionalidade dos avultados custos da visita de um oligarca que, para mais, bom será recordá-lo, é pessoa sobre a qual recaem fortes suspeitas (para mais não dizer) de ter sido cúmplice, por via de uma acção de encobrimento, de repugnantes crimes de abuso sexual e pedofilia praticados por altos dignitários da sua santa Igreja. É claro que com os anos que levo de permanência no planeta e nesta sociedade mundana, estas coisas já não me deviam surpreender. Aceito. Mas mesmo que não me espante, jamais abdicarei do meu direito à indignação e a expressá-la publicamente como forma de impedir a aceitação do inaceitável.
E é esta a comunicação social que todos nós temos de pagar?
E é esta a comunicação social que todos nós temos de pagar?
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João Maria de Freitas-Branco
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quarta-feira, 3 de novembro de 2010
O fim da 2ª República?
Ou muito me engano, ou a nossa segunda República chegou ao fim. Esgotou-se. O momento é de mudança. O deplorável espectáculo parlamentar das últimas horas é disso acrescida demonstração. As irracionalidades, o despautério ético, a desvergonha multiplicam-se. O episódio da errata do Orçamento de Estado, dando conta de um erro tão grosseiro quanto caricato, foi um dos últimos episódios desta saga. O último, que traduz bem o decaimento ético da actividade política, foi o discurso propagandístico do ministro Augusto Santos Silva, em representação do Governo, no encerramento da sessão parlamentar para votação do Orçamento do Estado hoje ao fim da tarde, discurso esse em que chegou ao ponto de declarar que «a acção em prol da saúde financeira do Estado é uma marca do Governo». Será que ouvi bem?
Não se pode aguentar por muito tempo uma situação, como a actual, em que, com justificada razão, o cidadão deixou de ter a mínima confiança nos responsáveis pela governação, bem como pelas próprias instituições que deviam cuidar do país. Do governo aos tribunais, passando pelo parlamento, nada é credível. O cidadão comum olha para os responsáveis políticos com crescente desconfiança, sendo que para muitos, o termo político já é sinónimo de trafulha.
Pedro Passos Coelho, o líder político emergente, não mostra ter percebido que a realidade lhe está a oferecer de bandeja a grande oportunidade de se afirmar como estadista salvador, prestigiado, aglutinador de ampla base social de apoio. Parece que para isso só lhe falta uma coisa: as qualidades. E quais são elas? Que qualidades se exigem ao próximo primeiro-ministro? Classe, decência, elevação moral e intelectual, carisma, talento de líder. Neste momento crucial, já é secundário o ser de esquerda ou de direita; importante, sim, é ser-se de cima e não de baixo. É não pertencer ao grupo dos políticos eticamente indigentes. Isso, sim, é necessário. Urge que apareça alguém capaz de arrumar a casa semeando seriedade, conferindo dimensão ética à acção governativa. Estão criadas as condições para a materialização de um entendimento entre vários sectores políticos tendo em vista a execução de um programa sério de combate à irracionalidade do despesismo público, de incentivo ao aparelho produtivo nacional e de combate à pobreza. Mas, ao que parece, continuamos enleados numa velha dificuldade assinalada pela lucidez queirosiana: a falta de pessoal.
Não se pode aguentar por muito tempo uma situação, como a actual, em que, com justificada razão, o cidadão deixou de ter a mínima confiança nos responsáveis pela governação, bem como pelas próprias instituições que deviam cuidar do país. Do governo aos tribunais, passando pelo parlamento, nada é credível. O cidadão comum olha para os responsáveis políticos com crescente desconfiança, sendo que para muitos, o termo político já é sinónimo de trafulha.
Pedro Passos Coelho, o líder político emergente, não mostra ter percebido que a realidade lhe está a oferecer de bandeja a grande oportunidade de se afirmar como estadista salvador, prestigiado, aglutinador de ampla base social de apoio. Parece que para isso só lhe falta uma coisa: as qualidades. E quais são elas? Que qualidades se exigem ao próximo primeiro-ministro? Classe, decência, elevação moral e intelectual, carisma, talento de líder. Neste momento crucial, já é secundário o ser de esquerda ou de direita; importante, sim, é ser-se de cima e não de baixo. É não pertencer ao grupo dos políticos eticamente indigentes. Isso, sim, é necessário. Urge que apareça alguém capaz de arrumar a casa semeando seriedade, conferindo dimensão ética à acção governativa. Estão criadas as condições para a materialização de um entendimento entre vários sectores políticos tendo em vista a execução de um programa sério de combate à irracionalidade do despesismo público, de incentivo ao aparelho produtivo nacional e de combate à pobreza. Mas, ao que parece, continuamos enleados numa velha dificuldade assinalada pela lucidez queirosiana: a falta de pessoal.
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